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Integração
Muitas vezes quando nos referimos à
Natureza nos referimos como algo exterior, uma realidade
que nos é diferente e, portanto, a ação
a ser executada deve ser sobre Ela e não com
Ela ou Nela. Esta é uma visão reducionista,
fruto de uma cultura que desacralizou o ambiente e divorciou
o homem da Naureza, sob o falso ideal de progresso.
Lembro-me da participação
da druidesa Emma Restall-Orr num programa do Globo Repórter
quando ela disse que o druidismo, ao buscar uma experiência
com a Natureza, busca apreender a integralidade de suas
manifestações - brisas e furacões,
vasantes e enchentes, noite e dia, vida e morte - como
expressões internas de nosso caminho.
A partir deste raciocínio,
creio haver muito a ser apreendido, mesmo quando a paisagem,
na expressão de suas manifestações,
reflete o desequilíbrio e a destruição
do ambiente.
Há ainda lugares onde podemos
vivenciar uma paisagem com menos desequilíbrio...
Moro ocasionalmente em um sítio, a 45 km de Franca
(na região sul de Minas) e trabalho numa área
de preservação ambiental do litoral sul
de SP, que fica 700 km do local onde moro.
E sei, por experiência, o que
é estar em contato com uma paisagem e ambiente
sadio. O que inclui respeito, conhecimento e ações
sustentáveis em relação ao ambiente.
Entrar na mata atlântica sem proteção
é se tornar banquete certo para os mosquitos,
ou sair de barco quando o vento sul está acima
da média é morte certa.
Mas, atualmente, nem todos vivem num
contexto de ambiente saudável, (praticamos druidismo
em áreas urbanas ou em áreas poluídas,
embora defenda que todo pagão busque interação
com um ambiente sadio, Ocasionalmente).
A possibilidade da vivência
druídica, a meu ver, se realiza através
de um caminho de crescimento e amadurecimento do ser
a partir da abertura para a Sagrada Inspiração
na busca de nossa Natureza Essencial o que nos liga
com toda a criação: lembremo-nos da Canção
de Armegin como um ideal do ser druida.
Portanto, a questão do equilíbrio/desequilíbrio
e da cura da paisagem passa pela questão de nosso
próprio equilíbrio/desequilíbrio
e busca cura... As expressões de desequilíbrio
da paisagem (não costumo utilizar o termo Natureza,
para não divorciá-la do homem) refletem
também nosso desequilíbrio, o desequilíbrio
e a doença de uma cultura que busca mercantilizar
e coisificar tudo o que existe.
Isto reflete, por exemplo, em como
o desenvolvimento urbano de nossas cidades aconteceu,
a terrível impermeabilização da
área urbana e o desprezo em não
considerar o diferencial geográfico e morfológico
da paisagem onde a cidade acontece. E acrescento, sem
querer ser defensor de controle populacional, o excesso
de humanos que há sobre a Terra. Vide a nossa
querida São Paulo: não há plano
diretor que resolva se o crescimento continuar.
Lembro-me de um encontro pagão
que tivemos na região de Santana do Parnaíba
e Pirapora (cidades que margeiam o Tiête morto),
o cheiro de morte do rio impreganava todas as coisas
e era insuportável... e foi justamente a partir
daí, destas realidades doentes, que aprofundamos
em vivências de "nossas" sombras de
maneira iluminadora.... Buscamos a cura da Natureza
interna e externa. Estávamos integrados com as
dores da Terra.
Não é sem razão
que geralmente os grupos druidas estão envolvidos
com grupos ambientais. Creio que o drudismo como se
coloca hoje, sem querer cair num romantismo ingênuo,
é um caminho neopagão fundamental, porque,
além do aspecto religioso, ele abraça
uma "cultura do cuidado" e uma "cultura
de ecologia espiritual", que é mais abrangente
do que um simples caminho religioso celebrativo.
E penso que, juntamente com outros grupos e forças
da sociedade preocupados com a qualidade de vida da
Terra, podemos de alguma maneira repensar a forma como
o homem se relaciona com o meio em que vive e daí
construir manejos sustentáveis.
Integrar-se às forças
da Natureza é nos integrarmos à nossa
própria natureza.
Marcelo Cuchulainn
creator@netsite.com.br
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