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Amigo

Ao meu amigo

Dez anos sem ter um cão e não é que um dia aparece uma coisinha pequena em casa  nas mãos da minha filha!
Era uma bolinha preta com os olhinhos espertos. Ganhou um nome igual ao seu
tamanho... Pingo.
Pra mim, tinha mais carinha de Bandido mas não era meu... ainda.
Ganhou duas mães de cara: minha filha mais um despertador para ouvir o
tic tac enquanto dormia numa caixinha que logo ficou muito pequena para o seu
mundinho.
Uma bela noite, cadê o carinha? Abrindo horizontes, ele foi parar debaixo da
máquina de lavar.
Gostava de tomar banho de chuveiro e, vira e mexe, lá estava ele cheio de sabão.
O tempo foi passando e o tamanho também, assim como a sujeira.
Pronto... De dentro de casa passou para o quintal, para  uma casinha que eu
mesmo fiz, com carpete e tudo mais....
Mas o coração falou mais forte e... entra Pingo.
Lá estava ele de volta ao sofá... Tinha até cobertor de Pluto e toalha... Era
da familia, parte da gente....
Não podia ouvir barulho de chave: era um gasolina. Adorava passear.
Da minha filha, passou  a ser o meu cachorro, o meu amigo. Dormia com a
cabeça no meu colo e sabia até quando eu não estava bem ou quando meu carro entrava na rua.
Era o terror dos carteiros, lixeiros e meninos de entrega.... O rei da casa
dividindo terreno com um passarinho preto, o Neguinho, mas cada um andava
por lá sem se incomodar com o outro.
Um dia veio uma outra coisinha pequena para casa: minha neta e, com ela, o
ciúmes dele.
Era xixi nos brinquedos dela... Também pudera, mudaram as atenções e ele
achava merecido.
Mais uma vez, passa o tempo e, fora os puxões de orelha que ela dava nele, Pingo estava sempre por perto e adorava ela. Ele passou por muitas.
Um dia, eu me separo, saio de casa e o xixi vai parar nos meus discos. Como
ele sabia que eram meus? Ele sabia.
Foram longos 4 anos sem ter o carinha dormindo no meu colo... Até que um dia
tudo volta como antes: ele vem morar comigo e me lembro que ele tremia
muito com medo de ficar sozinho.
Já antes da mudança ganhou companheira de quem ele fugia com medo, embora ela fosse muito menor que ele. Passava até debaixo dele... A Twister.
Pronto… lá estava a família junto de novo.
Cinco anos depois, o carinha com 12 aninhos começa a ter problemas por causa das farras de quando era moleque. Vem outra companheira, a Bith, que fica só 9 meses conosco mas que ele gostava muito. Na sua ida ele sente, e a doença aparece.
Perde peso, fica magrinho, é internado, mas o bichinho luta e volta pra casa.
Mas nunca mais seria o mesmo. Remédios são uma constante na vida dele agora e ele já está cansado.
Afinal, ele viu minha filhas e minha neta crecerem, viu minha saída e volta
para casa, e acha que já é tempo de ir e eu brigando pelo contrário. Mais
uma vez, ele ganha, assim como ganhava nas corridas que tinha comigo no
gramado da casa da praia, e silenciosamente ele me deixa, sem barulho e sem
alarde.
Fica um grande vazio na minha vida. Fica a saudade do meu amigo que se foi,
mas também fica a lembrança das grandes alegrias que ele me deu.

 

Carlos Eduardo Guida
kadu46@uol.com.br


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