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Samsara e Kadila
Tive a oportunidade
de viver em São Thomé das Letras, de 1998
a 2000. Lá, adotei dois animais que fizeram muita
alegria e festa em minha vida.
Uma delas era Samsara Rueda de Ramón, uma mestiça
de Fox Paulistinha, capricorniana com lua e ascendente
em Capricórnio. Era linda, magricelinha, toda
comportada, medrosa, mas que não perdia a oportunidade
de aprontar uma. Era filha de um 'adotado' chamado Vietnã,
nome que refletia seu estado quando da adoção:
estava muito maltratado, mas com carinho e empenho sua
dona cuidou dele até sua partida desta vida.
Sua mãe era chamada de Clotilde, ou 'Clô',
para os íntimos. Também adotada, tinha
unhas enormes, um dentinho pra fora da boca e era super
carinhosa.
Samsara nasceu numa noite quente de verão (16/01).
Adotei aquela doce peça quando ela ainda cabia
no meu antebraço.
Com seis meses, inadvertidamente no primeiro cio, Samsara
teve filhotes. Duas.
No final do período de lactação,
conheci uma gata que mudaria minha vida e meus sentimentos.
Ela ara linda, charmosa, meiga, seus olhos eram sensuais,
seus movimentos dignos de nota. Ela, ao me conhecer
e me visitar em meu sítio, mostrou-se super carinhosa,
apesar de ser novinha.
Lembro-me da noite em que ela chegou ao sítio
(não é possivel esquecer). Com seu jeito
manhoso, ela começou a fazer carinho com seu
focinho em meu rosto. Nunca tinha tido uma gata, até
então. Ela ronronava baixinho, e se aninhava
em meu peito, ainda que não nos conhecêssemos.
ELA ERA MESMO UMA GATA, com toda a sua pelagem cinza-escuro,
jeito de quem sabe onde pisa, manhas que só um
felino sabe ter e fazer, ainda que ela estivesse no
final do período de amamentação.
O problema era apresentá-la a toda a cachorrada
ciumenta que cheirava a soleira da porta sem parar.
Dentre eles estava Samsara, que chegava ao final do
período de lactação.
Decidi abrir a porta e deixar a comunidade cino-ciumenta
conhecer sua nova companheira de bebedouro, já
que filhotes, ainda que felinos, são aceitos
pelo grupo. Respirei e... Cheiraram. Cheiraram até
dizer chega, sob o olhar atento deste que vos escreve.
Era minha primeira gata, no meio de uma verdadeira matilha
(11 cães). Como conhecia cada um deles, tinha
segurança no que estava fazendo. Contudo, respeitando
a natureza canina, fiquei de prontidão. Azul
Marinho, o único machinho (baixinho), filho de
Bibi (vira-latas legítima com Fox) e Duque (pequinês
com vira-latas verdadeiro), foi o único que tive
de repreender olhares de 'te pego' com dois 'não!'.
Passado todo o susto, minha querida gata estava brincando
entre os filhotes, depois de uma hora de apresentação,
reconhecimento e pedido de cadastro na lingua que só
eles sabem interpretar.
Mas algo de surpreendente aconteceu: num instante de
vacilo de minha atenção, pude ver, estupefato,
uma cena que me chocaria e mudaria minha vida para sempre.
Nunca pensei que aquilo poderia acontecer!
Deitada, Samsara fitava com seus dois olhos úmidos
Kadila Hadish, minha gatinha. O corpo de Kadila estava
como que uma esfinge egípcia, inerte. Somente
sua cabeça se mexia. Além dos sons da
alegre fuzarca que os filhotes faziam no chão,
podia-se ouvir um ritmado som de sucção.
Apesar do barulho dos filhotes e dos 'adultos' que brincavam,
houve um momento de silêncio interno em meu mais
profundo interior.
A cena chocou, confesso. Todos os meus conceitos de
amor, amizade, fraternidade e humanidade nunca mais
foram os mesmos depois daquele instante.
A dócil capricorniana Samsara, mãe distante
que até então provara ser com sua ninhada
que agora brincava entre meus pés, amamentava
Kadila, minha gata. Os sons de sucção,
pouco a pouco, foram se confundindo com os sons de meus
suspiros, e assim como escorria leite da boca de Kadila,
algumas gotas salgadas paravam em minha boca, depois
de molharem meu rosto.
Como se fosse da ninhada, Samsara lambeu o bumbum de
Kadila, cuidando de sua nova 'cria'.
Nunca mais fui o mesmo. Toda vez que escuto um miado
de filhote pela rua, procuro ver se posso ajudar, assim
como fez Samsara, desconsiderando sua natureza canina,
mas realizando o que muitos seres humanos poderiam realizar:
ouvir seu chamado interno.
Esta é uma homenagem à Kadila Hadish e
Samsara Rueda de Ramón, de quem tive vários
exemplos de como viver em sociedade. Esse foi só
um deles.
Everton Batista
Ribeiro
astralux@uol.com.br
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