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O ensinamento antigo
a respeito do Renascimento
As almas humanas são pré-existentes à
geração de seus corpos físicos;
podem ter múltiplas vidas terrenas (de acordo
com sua percepção e necessidade); não
há julgamento moral externo (mas a decisão
da consciência individual é inescapável);
as condições do renascimento são
determinadas por afinidades, necessidades e conveniência
da alma que vai renascer; os deuses podem tomar corpos
humanos (não se trata de possessão, mas
de nascer em forma humana) ou projetar suas qualidades
em seres humanos.
Depois de deixar este mundo, a alma
faz uma viagem. Atravessa diversas etapas, recapitulando
experiências, fazendo reflexões, abandonando
aquilo que lhe pesa, observando o melhor e aprendendo
a desejá-lo. Isso demanda um certo tempo. Ao
atingir o fim da jornada, a alma encontra o lugar do
repouso perfeito, de acordo com os seus desejos. Se
estiver pronta para abandonar toda inquietação,
pode desfrutar para sempre desse estado de beatitude.
Porém, se ainda sentir “saudades”,
pode tomar o barco de volta e retornar. (essa é
uma alusão às remações,
viagens ao oeste através do mar, que iam dar
na ilha dos imortais e ancestrais, entre outras). Como
vemos nos mitos celtas, se ao retornar o viajante tocar
a terra, irá transformar-se em pó. Esse
é um ensinamento simbólico: significa
que a alma não deve deixar-se enredar pelas sensações
terrenas, o que provocaria o desejo e a conseqüente
criação de um novo corpo material (o pó)
– o que não é mau por si mesmo,
mas pode ser um desvio da intenção inicial.
Se perceber que não há mais nada a fazer
(nenhuma experiência que ainda não tenha
sido provada), resta virar a direção do
barco e procurar outro destino. Talvez, quem sabe, ensinar
a outros a arte de navegar (como por exemplo, os ancestrais
que se tornam guardiões do lar e da famíla,
inspirando, protegendo e ensinando os que ainda estão
na jornada da vida).
Assim, as possibilidades de "mudança
de estado" para o ser humano, de acordo com o ensinamento
druídico, são:
- renascimento num outro mundo mais
perfeito do que este e onde já
habitam os Ancestrais do defunto e também os
Deuses, sem a ocorrência
de nenhum tipo de julgamento divino;
- renascimento numa forma humana, para certos indivíduos
(aqueles que assim desejarem).
Tudo é uma questão de
livre-arbítrio. Uma vez que tenhamos eliminado
a reencarnação compulsória, a única
razão para que uma alma retorne a este mundo
é o exercício do seu livre-arbítrio,
por motivos que ela bem conhece. A "Viagem de Bran
Mac Febal" e a "Viagem de Maeldun" mostram
isso. Nos dois casos, grupos de homens escolhidos atravessam
o oceano para chegar a um lugar de perfeição,
o qual acabam abandonando unicamente por sua própria
vontade. Eles não são expulsos, não
são coagidos a partir de forma alguma. Eles o
fazem porque assim desejam, porque não estão
ainda prontos para habitar no estado de absoluta tranqüilidade
que encontraram. Quando a sua inquietação
chega ao máximo, eles entram no barco e vêm
dar às praias deste mundo. Eles não precisariam
fazer isso. Mas fazem assim mesmo. Porque sentem uma
necessidade íntima.
Essa é a diferença entre
o renascimento céltico e, digamos, o espírita:
na primeira não há uma ênfase na
necessidade de fazer reparações. O importante
é a vontade de voltar para realizar outras coisas,
provar a própria força, passar por novas
experiências, aprender mais. A alma é impulsionada
à frente pelo desejo. Sem este, haveria apenas
uma eternidade apática e vazia no Outro Mundo.
Seria algo como a noção que vulgarmente
se tem do Céu cristão: você é
um pessoa boa, morre, sua alma vai para o Céu
e você passa o resto da eternidade vestindo uma
camisola e tocando harpa com os anjos.
Além disso, consideremos a alternância
que se apresenta em todos os aspectos da compreensão
céltica do tempo: meio ano de escuridão
(de Samhain a Beltane), meio ano de luz (o inverso),
cada mês com uma metade escura e outra luminosa,
cada noite com seu dia... A mente celta não concebia
a idéia de uma ida sem volta.
Vemos bem isso nas ovelhas do conto
de Peredur ab Efrawc (do "Mabinogion"):
Ele estava cavalgando e chegou às margens de
um rio e havia do outro lado uma árvore. Uma
das metades da árvore era verdejante da copa
à raiz, mas a outra estava em chamas da raiz
à copa. E havia dois rebanhos de ovelhas, o branco
(na margem de cá) e o negro (na margem de lá).
Sempre que uma das ovelhas negras balia, uma das brancas
atravessava o rio e saía preta na outra margem.
Sempre que uma das ovelhas brancas balia, uma das negras
atravessava o rio e saía branca na outra margem.
Aí está o intercâmbio das almas
entre os mundos. É possível ser mais claro?
Não, porque a Igreja Católica teria queimado
o livro.
por Druida Bellovesos
Obs. A alma do
mundo contém todas as almas. Quando uma alma
morre aqui, ela nasce no Outro Mundo. Quando uma alma
nasce aqui, é porque morreu no Outro Mundo, é
a lei do equilíbrio que vemos exemplificada nos
mitos celtas.
Obs 2. A afinidade é a grande
motivação da alma ao renascer. Por isso,
a maioria das almas humanas voltariam como humanas,
mas isso não é uma regra (não há
regra, apenas livre-arbítrio). Embora na mitologia
e ensinamentos celtas não sejam citados renascimentos
de humanos em forma de animais, se há afinidade,
nada impede disso ocorrer. O druidismo não é
especista, muito menos nas questões da alma.
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