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Espiritualidade Celta
Sobre a espiritualidade desse povo,
sabemos que era centralizada na figura do druida (ou
druidesa). O poder dos druidas era sagrado e superior
ao poder dos reis, e eles desempenhavam não
apenas a função de sacerdote/curandeiro
da tribo, como também eram juízes, conselheiros
dos reis, videntes, poetas e professores. A religião
dos celtas, o druidismo, era toda baseada na sacralidade
da Natureza e em seus ciclos, como também
no animismo (crença de que tudo tem alma), no
culto aos ancestrais e no totemismo (espíritos
ancestrais que assumem a forma de animais). Vemos aí
um forte apelo xamânico no druidismo: todas as
espiritualidades xamânicas possuem essas práticas
e crenças mencionadas em comum.
Os celtas eram politeístas, isto é, acreditavam
em múltiplos deuses e deusas. As divindades eram
normalmente associadas às forças da Natureza
ou à paisagem, como já foi mencionado.
Em alguns casos, porém, mitos de deuses se confundem
com histórias de reis, rainhas ou heróis
que podem ter realmente existido, o que sugere a deificação
de uma personagem muito importante da história
celta. É o caso de Maeve, a poderosa rainha no
famoso mito “O Roubo do Gado de Cooley”
(Táin Bó Cuailgne), mas que também
é considerada uma grande deusa celta, personificando
a soberania da Terra, uma mulher/deusa indomável,
com muitos maridos e amantes, senhora de seu destino
(como era característico das mulheres celtas).
Maeve é uma figura marcante e que facilmente
se transforma em deidade.
Mencionamos anteriormente a constante do número
três na cultura celta. Sabemos que eles tinham
a noção do ser vivo ser tripartido em
corpo, mente e espírito. Também tripartido
era o universo, onde identificamos três mundos:
o mundo superior (morada dos deuses indomáveis,
as grandes forças da Natureza), o mundo médio
(nossa morada) e o mundo inferior (morada dos ancestrais
e espíritos da Natureza). Inferior aqui significa
apenas “o que está abaixo”, sem nenhuma
conotação negativa, uma vez que para os
celtas não havia a noção de céu
e inferno, de punições ou pecados. Esses
três mundos estavam entrelaçados e ainda
mais próximos em épocas especiais do ano
(samhain e beltane, dois dos festivais ligados às
estações). O nosso “mundo médio”,
por sua vez, também era tripartido: aqui existem
os reinos do céu, da terra e da água,
cada um parte de um todo, a Terra.
Encontramos aí a explicação do
uso constante dos trikles pelos celtas. Triskles são
símbolos pré-celtas que mostram três
espirais unidas por uma origem comum, ou ainda uma figura
entrelaçada sem começo ou fim, com três
pontas. Essas figuras mostram que os três elementos
são parte de um todo e estão presentes
em inúmeros monumentos em terras celtas, monumentos
esses construídos antes da chegada dos celtas
a essas terras, mas que certamente lhes provocou identificação.
Seus inúmeros deuses eram como tudo na Natureza
(inclusive humanos): não eram apenas bons ou
apenas maus, mas possuíam tanto potencial para
o bem como para o mal. Não havia a dicotomia
de que estamos acostumados, mas sim o equilíbrio
de forças negativas com positivas. Os deuses
podiam ser ao mesmo tempo benevolentes e cruéis:
assim como uma chuva que cai sobre a Terra pode ser
uma benção quando os campos estão
ressequidos ou então uma desgraça quando
causa enchentes e destruição.
Vale citar mais uma vez as palavras de Pedro Pablo G.
May: “(para os celtas) entre o dia e a noite existe
a hora indeterminada , no alvorecer ou no crepúsculo,
quando é mais fácil estabelecer contato
com os seres sobrenaturais; entre o branco e o negro
há muitos matizes de cinza; (…) e entre
a vida e a morte , entre o ciclo de vidas e mortes,
está o Outro Mundo, o lugar em que a alma descansa
(…) antes de dar continuidade a sua grande e
eterna aventura.”
Os celtas não temiam a morte, uma vez que para
eles, esta era apenas uma pausa na espiral da vida (o
tempo para eles não era linear, mas circular),
um momento de preparo e descanso para um posterior renascimento.
Essa crença era também baseada na observação
da Natureza, onde o inverno seria o período de
recolhimento e descanso para possibilitar a chegada
da primavera com vigor e fertilidade. Também
temos aí um paralelo com o ciclo do dia: o dia
“morre” ao pôr-do-Sol, segue-se um
período de descanso na noite para depois o dia
renascer pleno ao nascer do Sol.
É importante acrescentar aqui que eles não
eram reencarnacionistas nos moldes kardecistas, pois
não haviam leis espirituais ou um carma operando
na alma e determinando seu destino ou punição,
havia apenas as leis naturais de nascer-viver-morrer-nascer.
E, já que falamos no termo “reencarnação”,
gostaria de esclarecer outro mito moderno sobre os celtas/druidas:
a de que o criador do espiritismo, Alan Kardec, teria
sido um druida moderno. Isso é um equívoco
muito comum que freqüentemente associa o kardecismo
ao druidismo. Não existe, porém, relação
entre essas duas correntes religiosas. Ao criar o
espiritismo, Denizard Hypolyte Leon Rivail (nome
verdadeiro de Alan Kardec) decidiu adotar o nome
Alan Kardec para permanecer no anonimato, uma vez que
ele era um conhecido professor/filósofo. Um dos
espíritos que estaria passando as informações
sobre a doutrina a Denizard, teria lhe aconselhado a
usar esse pseudônimo, pois Alan Kardec teria sido
uma de suas reencarnações como um sacerdote
druida, na Gália pré-romana.
Andréa Guimarães (Andréa
Éire)
andrea.eire@druidismo.com.br
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