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A Sociedade dos Celtas
Graças à Júlio
César e à moderna arqueologia temos uma
idéia do que foi a antiga sociedade celta, seu
vestuário e comportamento, como também
a estrutura das tribos.
Júlio César nos relata que os celtas estavam
divididos em tribos aristocráticas que mantinham
lutas constantes entre si, e esse foi o fator que mais
facilitou as invasões romanas. Os romanos muitas
vezes encorajavam essas disputas e rivalidades, para
assim terem facilitadas as suas invasões em terras
celtas.
A sociedade celta estava dividida em três (cabe
aqui dizer que o número três é uma
constante na cultura celta, tema a ser abordado adiante):
a nobreza guerreira, os sacerdotes druidas e os homens
livres (aqueles que produzem todo tipo de bens para
a sociedade, agricultores, ferreiros, artesãos
em geral). Era governada por reis guerreiros, por rainhas
ou por aristocratas. Esses líderes não
eram déspotas, conceito que não cabia
na cultura celta, um povo que não se deixava
dominar facilmente. O rei era eleito entre o ramo da
família de seu predecessor, não necessariamente
um dos filhos. Era comum uma mulher se tornar rainha
caso seu marido viesse a morrer ou se tornasse inapto
para o cargo. Havia, à margem dessa sociedade,
a população não livre, no sentido
de não terem posição social nem
propriedades: eram as populações subjugadas
em guerras, que trabalhavam como servos.
Como principais meios de subsistência, os celtas
cultivavam o trigo e criavam gado. A posse de bois era
uma forma de se determinar a riqueza de cada um. Os
celtas criaram o padrão xadrez para as vestimentas
e o barril para transportar bebidas. Usavam calças,
túnicas, mantos ou capas de lã, e estavam
sempre ricamente adornados por torques de ouro, cintos
ou faixas decorativas, broches e variados ornamentos
corporais. As túnicas e capas tinham decoração
bordada. As túnicas eram normalmente feitas de
linho e caíam até os joelhos para os homens
e até os tornozelos para as mulheres. As capas
eram feitas de lã e seu comprimento ostentava
a riqueza ou posição social. Usavam nos
pés sandálias e sapatos de couro. A aparência
de seus trajes era muito colorida, principalmente púrpura,
carmesim e verde.
Os celtas viviam em uma oppidum (plural, oppida). Assim
eram chamadas as comunidades, tribos e aldeias que eram
cercadas por paliçadas e fossos para defesa.
Viviam em casas circulares com paredes de madeiras e
telhados de olmo, e as construções estavam
organizadas conforme sua função: haviam
áreas exclusivamente residenciais, outras apenas
comerciais e ainda aquelas onde ficavam os prédios
religiosos. Havia os sofisticados silos para armazenar
grãos, além de rede de água e esgoto.
Em terras celtas continentais (Gália e Península
Ibérica) eram também comuns as casas retangulares
feitas de pedra em vez de madeira.
Relatos romanos e achados arqueológicos (como
corpos celtas preservados) nos informam como eles se
vestiam para a guerra: pintavam-se de anil, para pareceram
mais aterradores, usavam o cabelo comprido e raspavam
os corpos, que eram também tatuados com desenhos
abstratos e figuras de animais, muito provavelmente
com o animal totem da tribo. Clareavam o cabelo com
água de cal e os eriçavam para o alto,
ou ainda o prendiam puxado para trás. Os celtas
provavelmente aterrorizavam seus inimigos não
apenas com essas táticas ou com sua notória
coragem para guerrear, mas também por serem altos
e musculosos, em sua maioria loiros e ruivos.
A sociedade celta não era matriarcal, mas em
muitos casos, era matrilinear, com os filhos sendo nomeados
a partir da mãe. A mulher celta gozava de uma
posição de igualdade social praticamente
única para aqueles tempos (infelizmente, para
os nossos também...) e não são
raras as figuras históricas que nos confirmam
isso: a já mencionada Boudicca, a rainha dos
Iceni, que liderou uma rebelião contra os romanos
é a mais famosa. Boudicca, após ser açoitada
e ter suas duas filhas estupradas pelos soldados romanos,
mobilizou um enorme número de tribos celtas (seu
exército dispunha de aproximadamente 100 mil
homens e mulheres) para combaterem juntas o inimigo
comum e conseguiu uma vitória esmagadora contra
as legiões de Roma, até que reforços
chegaram do norte e sua rebelião foi esmagada.
Para não ser capturada, ela se suicidou.
Um conhecido privilégio das mulheres celtas era
o de poder anular o casamento caso seu marido não
mais a estivesse satisfazendo sexualmente. Podemos identificar
também os privilégios das mulheres celtas
ao examinarmos os mitos desse povo, onde não
faltam deusas guerreiras e poderosas, deusas independentes
e até dominantes. Todas senhoras de si mesmas.
Ao falar da sociedade celta é interessante mencionar
a Primavera Sagrada, chamada de Ver Sacrum pelo historiador
romano Tito Lívio: para que os recursos naturais
de suas terras não se esgotassem quando o número
de habitantes atingia um patamar muito elevado, eles
tinham o consciente costume de dividir a tribo em duas,
uma parte ficando no local e a outra parte migrando
para outras terras. Historiadores da época descrevem
que essa migração era orientada pelo animal
totêmico da tribo em questão. Essas migrações
são uma característica do já mencionado
período La Tene, que foi a época de maior
expansão celta na europa e também o auge
dessa cultura.
Percebemos aí o quanto os celtas prezavam o lugar
onde viviam. Cada detalhe da paisagem possuía
um espírito, muitas vezes identificado com uma
deidade. Não havia o deus do rio, mas sim o deus-rio,
a deusa-montanha, etc. Esses espíritos/deuses
obviamente deveriam ser sempre honrados e respeitados.
Poluir um rio, portanto, era um sacrilégio. Existem
evidências arqueológicas de que os celtas
praticavam reflorestamento, mostrando uma percepção
aguçada da dependência do ser humano à
Natureza, percepção essa que nos falta
hoje em dia.
Andréa Guimarães (Andréa
Éire)
andrea.eire@druidismo.com.br
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