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A visão de renascimento
no druidismo
Os celtas não temiam a morte, uma vez que para
eles, esta era apenas uma pausa na espiral da vida (o
tempo para eles não era linear, mas circular),
um momento de preparo e descanso para um posterior renascimento.
Essa crença era também baseada na observação
da Natureza, onde o inverno seria o período de
recolhimento e descanso para possibilitar a chegada
da primavera com vigor e fertilidade. Também
temos aí um paralelo com o ciclo do dia: o dia
“morre” ao pôr-do-Sol, segue-se um
período de descanso na noite para depois o dia
renascer pleno ao nascer do Sol.
No druidismo antigo e moderno, portanto, existe a
crença no retorno da alma (ou espírito,
aqui não há diferença entre esses
dois conceitos), que pode viver várias vidas
terrenas. O que vai determinar quantas vidas viveremos
e de que forma? Não há um julgamento moral
quando alguém morre. A percepção,
o desejo e a necessidade da alma são os fatores
determinantes de como se dará a continuidade
da vida. O druida Bellovesos nos explica:
"As condições do renascimento são
determinadas por afinidades, necessidades e conveniência
da alma que vai renascer. Depois de deixar este mundo,
a alma faz uma viagem. Atravessa diversas etapas, recapitulando
experiências, fazendo reflexões, abandonando
aquilo que lhe pesa, observando o melhor e aprendendo
a desejá-lo. Isso demanda um certo tempo. Ao
atingir o fim da jornada, a alma encontra o lugar do
repouso perfeito, de acordo com os seus desejos. Porém,
se ainda sentir “saudades”, pode retornar."
Algumas almas podem decidir não retornar. Para
exemplificar isso, vou fazer alusão à
criação maravilhosa de Tolkien, "O
Senhor dos Anéis". Quando os elfos decidem
abandonar a Terra-Média para viver a eternidade
em Valinor, levando com eles alguns hobbits escolhidos,
é um paralelo da alma que decidiu não
mais retornar, mas viver a eternidade no Outro Mundo,
o mundo dos ancestrais e dos deuses. Os hobbits não
foram escolhidos ao acaso: são aqueles que carregaram
um fardo muito pesado (o Um Anel) e que superaram esse
fardo, portanto merecem desfrutar do descanso e da cura
no mundo perfeito de Valinor.
Algumas almas, no entanto, não se sentem compelidas
a viver para sempre no Outro Mundo e, como possuem livre-arbítrio,
podem retornar. Se sentirem uma necessidade íntima
de voltar a habitar a matéria, uma inquietação
que as compelem às terras mortais, nada as impedirá.
Importante ressaltar que o conceito de renascimento
no druidismo é diferente do conceito de renascimento
difundido por diversas correntes espiritualistas (que
inclusive usam mais a palavra reencarnação).
Novamente faço uso das palavras do druida Bellovesos
para complementar essa idéia:
"Esta é a diferença entre o renascimento
céltico e, digamos, o espírita: no primeiro
não há uma ênfase na necessidade
de fazer reparações. O importante é
a vontade de voltar para realizar outras coisas, provar
a própria força, passar por novas experiências,
aprender mais. A alma é impulsionada à
frente pelo desejo."
Na visão dos espíritas/espiritualistas,
a alma estaria atrelada a diversos parâmetros
para voltar a nascer e a diversos parâmetros de
como voltar a nascer, todos baseados em julgamentos
morais, em pecados, ações boas ou más
ou, resumindo, ao chamado karma. As almas também
estariam compulsoriamente reencarnando em busca de uma
evolução espiritual, e as diversas reencarnações
ocorreriam como uma obrigatoriedade para se tornar um
ser mais evoluído e, depois de muitas vidas,
alcançar a perfeição. Esses conceitos
não existem para a mente celta e, conseqüentemente,
não existem no druidismo. Para os druidas, Natureza
por si só já é perfeita e fazem
parte delas todos os seres visíveis e invisíveis,
perfeitos em si mesmos.
Na concepção celta há um eterno
intercâmbio de almas entre o mundo dos vivos e
o mundo dos mortos, ou Outro Mundo. O conto de Peredur
ab Efrawc (do "Mabinogion", coleção
de mitos celtas do país de gales) é uma
metáfora para esse intercâmbio de almas
entre os mundos:
Um dia, quando cavalgava, Peredur viu dois rebanhos
de ovelhas, que pastavam nas margens de um rio. O rebanho
de uma das margens era branco e o rebanho do outro lado
do rio era preto. Quando uma ovelha branca balia, uma
preta atravessava o rio e aparecia branca do outro lado.
Quando uma ovelha preta balia, uma branca atravessava
o rio e saía preta do outro lado.
Quando uma alma morre aqui, ela nasce no Outro Mundo.
Quando uma alma nasce aqui, é porque morreu no
Outro Mundo; é a lei do equilíbrio entre
os mundos que vemos exemplificada nesse mito celta.
Andréa Éire
andrea.eire@druidismo.com.br
Nemeton Tabebuya
Gorsedd Caer Piratininga
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