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Druidismo e Kardecismo

"Os celtas entendiam suas próprias vidas e mesmo o Universo como guiados pelo simples movimento interno. Desse modo, não acreditavam na dualidade entre bem e mal, não havia lugares como o inferno e nem uma justiça que se administraria depois da morte."

(Claudio Crow Quintino)

Existe uma afirmação equivocada que freqüentemente associa o kardecismo ao druidismo: a de que Alan Kardec era um druida. Não existe, porém, nenhuma relação entre essas duas correntes religiosas. Ao criar o  espiritismo,  Denizard Hypolyte Leon Rivail (nome verdadeiro de Alan Kardec)  decidiu adotar o nome Alan Kardec para permanecer no anonimato, uma vez que ele era um conhecido professor/filósofo. Um dos espíritos que estaria passando as informações sobre a doutrina a Denizard, teria lhe aconselhado a usar esse pseudônimo, pois Alan Kardec teria sido uma de suas reencarnações como um sacerdote druida, na Gália pré-romana. Portanto, Denizard/Alan Kardec nunca foi um druida em seu tempo, mas apenas afirmava ter sido um druida clássico em uma de suas encarnações.


As duas religiões não têm nada em comum. A  começar, uma é cristã (kardecismo) e a outra é pagã (druidismo). No druidismo não há a comunicação com espíritos como no kardecismo (onde a comunicação é feita através da mediunidade), e o druida não se baseia nos ensinamentos de cristo, entre outras coisas que detalharemos adiante. Existe uma diferença bastante importante e que torna as duas crenças praticamente incompatíveis: druidas não acreditam que o renascimento esteja baseado em prêmios e castigos, e essa é toda a base da crença kardecista: se você faz algo ruim, cria um karma e deve voltar para resolver esse karma, se faz algo bom, sobe um degrau na evolução. No druidismo, nenhuma lei de karma opera no renascimento, não há evolução da alma, e apenas e tão somente a lei do livre arbítrio, isto é, voltar ou não depende apenas da vontade e não das ações cometidas em vida. O local onde o espírito vai voltar depende apenas da afinidade dele com outros espíritos e com os lugares. Para os druidas e druidistas, o renascimento ocorre de forma natural como o nascer do Sol no dia seguinte após sua "morte" ao anoitecer.


O druida não se comunica com os espíritos do Outro Mundo como os kardecistas fazem. É outro tipo de comunicação, é outra concepção de espírito, é outra concepção de "Outro Mundo". Os espíritos no druidismo não são apenas os mortos, como no kardecismo. Os espíritos no druidismo são tudo que nos rodeiam e permeia. São os espíritos de seres visíveis e invisíveis, vivos ou mortos, espíritos das árvores de um bosque ou das plantas da casa, como também seres espirituais, entidades, elementais (espíritos dos ventos, da chuva, do ar, etc), deidades e, claro, também os espíritos daqueles que se foram, nossos ancestrais.


A forma como o druida se comunica com os espíritos é através do estado alterado de consciência, ou transe xamânico, ou êxtase. Nenhum espírito, deidade ou entidade "toma" o corpo do druida, ele não perde a consciência, apenas mergulha num transe consciente. Nos tempos pré-cristãos, esse método incluía várias técnicas diferentes (mascar carne crua, ingerir ervas psicoativas, etc) com a finalidade de estimular uma viagem espiritual ou um sonho inspirado, o que possibilitva o druida de responder alguma questão, ou profetizar. Hoje em dia, as técnicas mais utilizadas para esse fim são a meditação, a dança (especialmente a circular), exercícios de respiração e visualização, uso de sons repetitivos como tambores, maracás, etc.


A comunicação do druida com o Outro Mundo não tem a mesma finalidade dos kardecistas e nunca, jamais, é usado o método da mediunidade, onde o espírito desencarnado influencia o médium e através dele se comunica seja escrevendo, falando, pintando. Da mesma forma, não hå incorporação no druidismo, que é um método usado na umbanda, onde o médium perde totalmente o controle do corpo e da consciência, que é assumido pela entidade incorporada. Quando um druida está em estado alterado de consciência, normalmente ele é guiado ou inspirado por uma deidade ou animal totêmico, e não pelo espírito de um morto.


A comunicação  com o Outro Mundo feita pelos druidas busca a inspiração para a cura, seja em nível mental, espiritual ou físico. Essa cura, entenda-se bem, é no sentido mais amplo da palavra, não vamos também confundir com aquela outra prática kardecista de curar doenças ao se "receber" um espírito. Falo aqui da cura xamânica, da cura plena que exemplifica-se bem através dos 3 deveres do druida: curar a si mesmo, curar a comunidade, curar o mundo. Não se trata de "acabar com doenças", mas de cuidar, restabelecer, tornar melhor.


Para resumir, uso as palavras da druidesa Bandruir (Ordem Drunemeton, RJ):


"Diferentemente da Umbanda e do Espiritismo, no Druidismo, o druida não busca nem se oferece para trabalhar como expressão de espíritos desencarnados. Quando acontece de o espírito de um morto falar ou aparecer em visões ou sonhos, o Druida escuta, compreende e transmite a mensagem (se for dirigida a terceiros). Mas essa não é uma atribuição principal de um druida (portanto, não é freqüente como na Umbanda ou no Espiritismo), e nessa interação com o espírito de um morto, o druida em nenhum momento perde sua individualidade, consciência, autocontrole ou qualquer um de seus sentidos."

Andréa Éire
Nemeton Tabebuya

andrea.eire@druidismo.com.br


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