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Relações com o Outro Mundo (mundo espiritual)

Através de seu treinamento mágico, o druida penetra múltiplas realidades. Essas outras realidades ou mundos não apresentam o mesmo padrão de  espaço-tempo que observamos em nossa realidade. Através do ritual, o druida atravessa as brumas ou névoas que separam os mundos. Ao fazê-lo, ele se encontra numa área de transição ou passagem que o levará até um tempo ou lugar distante.

O gaélico irlandês, além de registrar vários termos que designam o Outro Mundo, também possui palavras que descrevem o que se passa quando a alma ainda ligada a um veículo físico para lá se dirige, termos esses que não encontram um correspondente perfeito em nossa língua ou mesmo na dos seus vizinhos britânicos. Coincidência ou não, esses vocábulos começam com o som /i/. Ora, na escrita ogâmica, o /i/ é iodhadh, o teixo, que representa a morte, ou seja a passagem entre este mundo e o Outro. As figuras mitológicas que lhe estão associadas são Caílte, Oisín e Tuan Mac Cairell. Caílte e Oisín, guerreiros fenianos e poetas, foram para o Outro Mundo ainda vivos e lá permaneceram por  séculos, retornando à Irlanda somente depois da cristianização e conta a  lenda que foram ambos ouvidos pelo evangelizador São Patrício. Tuan é um  druida primordial, o único sobre vivente de uma peste que dizimou a raça de  Partholon, o primeiro povo a invadir a Irlanda. Durante muitos séculos, ele viveu sob várias formas. O "Lebor  Gabala Erenn" ("Livro das Conquistas da Irlanda") diz: "Aqui estão suas formas, 300 anos sob a forma de homem; 300 sob a forma de boi selvagem; 200 sob a forma de javali; 300 sob a forma de pássaro; 100 sob a forma de salmão. Um pescador o pegou com seu anzol e o levou à rainha, mulher de Muiredach Muinderg. Ele foi consumido e ela concebeu Tuan". Tuan foi testemunha de toda a história da Irlanda, que ele recordou e narrou a São Columba no séc. VI da Era Cristã. Assim a letra /i/ envolve poesia, viagens ao Outro Mundo, metamorfose e morte.

Feita essa digressão, passemos a outro ponto.

Há mil e quatrocentos anos, quando Guaire era o rei supremo da Irlanda, ele desafiou seu ollamh (chefe dos filidh, os poetas sagrados), Senchan Torpeist, a recitar o melhor de todos os poemas épicos irlandeses, o "Tain Bo Cuailgne". Senchan teve de admitir, envergonhado, que sabia somente uns poucos fragmentos do conto e que não conhecia ninguém que pudesse recitar mais do que ele mesmo. Assim, perguntou qual de seus alunos estaria disposto a tentar recuperar a história. Seu próprio filho, Muirgen, ofereceu-se, junto com um jovem bardo chamado Eimena. Viajaram por todo o país em busca da saga  perdida. Uma noite, eles estavam acampados junto a um lago em Connaught,  onde havia um menir. Escute o relato:

"Vermelho e solene brilhava o amanhecer: Muirgen, de onde descansava, observou esculpidas ao longo da borda do menir letras ogâmicas traçadas. Disse: 'É como um monumento funerário e estas linhas sombrias encerram o nome de algum valente guerreiro, pudesse eu ao menos decifrá-las corretamente!' Com o indicador traçando letra após letra, sussurrando suavemente o som de cada uma e logo entrelaçando som com som, os sinais desse modo tomaram uma forma compreensível e, maravilhado, presa da felicidade e do medo, Muirgen leu claramente: 'Fergus mac Roich jaz aqui'."

Ora, Fergus mac Roich era um dos principais protagonistas dos acontecimentos compilados no "Tain" e foi também seu suposto autor. Depois de descobrir sua pedra ogâmica, Muirgen pôde evocar o espírito de Fergus e este lhe contou a história inteira do "Tain", a qual Muirgen levou de volta a seu pai.

Um jovem fili, aprendiz da poesia sagrada, é capaz de chamar do além-túmulo um espírito e com este aprender um poema épico inteiro. Se os antigos celtas não estranhavam que um estudante  pouco graduado fizesse isso, é provável que esperassem bem mais de um druida experimentado.

E que os celtas buscavam a comunicação com os espíritos do Outro Mundo fica também atestado pelo historiador grego Nicandro de Colófon (séc. II d. C.), citado pelo cristão Tertuliano em seu "De Anima" (57, 10). A passagem diz: "Em razão das visões nos sonhos diz-se com freqüência que os mortos verdadeiramente vivem".

Os celtas passavam a noite perto das sepulturas de seus homens ilustres, ou seja, perto das sepulturas de personagens famosos (guerreiros, soberanos, sacerdotes, poetas, videntes ou outros) dormindo ou velando, à espera de uma visão ou de um sonho profético enviado pelo espírito da pessoa ali sepultada. Aliás, uma prática adotada pelos cristãos, com suas preces e vigílias junto aos restos mortais dos santos ("relíquias") guardados nas catedrais.

Portanto, a linguagem, a literatura irlandesa e o testemunho de autores não célticos da Antiguidade confirmam os seguintes pontos: 1) sim, existe um Outro Mundo distinto deste que os homens habitam; 2) sim, esse Outro Mundo pode ser acessado pelos humanos; 3) sim, os seguidores do druidismo e o povo comum buscavam comunicar-se com as entidades desse Outro Mundo.

Devo esclarecer que, ao mencionar "comunicação com os espíritos do Outro Mundo", não estou me referindo a nada como, digamos, uma sessão espírita, conquanto seja esse um método válido. Refiro-me antes aos rituais próprios de Samhain e Beltane, às invocações aos ancestrais que são feitas antes de cada rito, às práticas oraculares, às orações, ao sonho, às visões, ao transe e ao poder da Awen, que abre a mente e coloca-nos em contato direto com o Outro Mundo. E, ao mencionar "Outro Mundo", não cometo o medieval erro cristão de localizá-lo fisicamente neste ou naquele lugar. O Outro Mundo é a matriz do mundo físico, a raiz de todas as coisas, assim como os Ancestrais são nossas raízes. O Outro Mundo envolve e permeia o mundo físico, molda-o e o mantém da forma como é.

Qual a relação entre o Outro Mundo e o mundo material? A mesma relação que há entre o rosto e seu reflexo no espelho.

A lagoa reflete o céu diurno  e suas nuvens, o céu noturno e suas estrelas. Se não há vento, o reflexo é nítido, límpido. Se o vento sopra, alternando seu hálito de um lado para outro, a água se agita e o reflexo torna-se distorcido e quase irreconhecível. Quando for possível controlar o vento, veremos o reflexo perfeito. Ou, ao menos, o mais perfeito reflexo possível.

Bençãos de Iluminação,

Bellovessos
bellovesos@hotmail.com


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