|
O Renascimento do Druidismo
Depois de enfrentar o imperialismo
conquistador de Roma e a intolerância da igreja,
o druidismo adormeceu por séculos, vindo a despertar
em 1717, quando o irlandês John Toland, juntamente
com o inglês John Aubrey, fundou a Druid Order.
Esta é a primeira de muitas ordens druídicas
a surgir nessa época. O tema atraiu tanto interesse
que, décadas mais tarde, nomes de peso da literatura
inglesa, como William Blake e posteriormente W.B. Yeats
contribuíram de forma determinante para o ressurgimento
do druidismo.
A princípio, ainda no século XVIII, as
ordens druídicas nada mais eram do que variações
da Maçonaria. Muitas dessas ordens nem possuíam
princípios druídicos. Como ocorria com
diversas tradições maçônicas,
era importante criar um ‘pedigree’ que atestasse
a antigüidade da ordem em questão. Assim,
surgiram interpretações fantásticas
das origens do druidismo. O próprio William Blake
afirmava que os druidas descendiam de Abraão
e que a Grã-Bretanha era a bíblica Terra
Prometida. Como se vê, nesta fase o rigor histórico
dava lugar a uma desesperada tentativa de se conciliar
o cristianismo com uma pseudo-história fantástica
e com tradições ocultas. Em 1781, surge
a Ancient Order of Druids (AOD), outra ordem que apostava
na mesma fórmula cristianismo/druidismo/ ocultismo.
Seu fundador, Henry Hurle, inspirou-se claramente na
maçonaria para desenvolver a AOD. Ela ainda existe
e conta atualmente com cerca de 3000 membros na Grã-Bretanha.
Mas a principal personagem do renascimento druídico
do séc. XVIII ainda estava por aparecer. Edward
Williams era um galês apaixonado pela cultura
celta e possuidor de um profundo senso patriótico
e fazia de tudo para dar ao povo galês uma identidade
que contrastasse com a cultura imposta pelos ingleses.
Tudo mesmo - até forjar textos e tradições
na tentativa de provar uma autenticidade celta em suas
criações. Williams ganhou notoriedade
quando, em 1792, realizou um ritual de inauguração
de sua Gorsedd (assembléia de druidas) em plena
Londres. A partir dali, Williams seria mais conhecido
por sua alcunha: Iolo Morganwg. Ele instilou nas diversas
ordens druídicas de então o desejo de
resgatar as tradições originais dos druidas
celtas, o que despertou interesse para as pesquisas
arqueológicas.
Os avanços das descobertas arqueológicas
e antropológicas dos séculos XIX e XX
trouxeram um novo fôlego a muitas dessas ordens
que, amparadas nessas descobertas, conseguiram resgatar
os elementos do druidismo histórico. É
graças a essa nova postura, mais séria
e responsável, que em 1964 surgiu a Order of
Bards, Ovates and Druids (OBOD). Resgatando o druidismo
celta e livrando-o de elementos estranhos (influências
hindus e cristãs), seu fundador, Ross Nichols,
foi instrumental para a consolidação do
druidismo moderno. Na década de 70, uma ordem
irmã, a British Druid Order (BDO), foi fundada
por Phillip Shallcrass. Não demorou para ele
dividir a liderança da BDO com uma carismática
jovem druidesa chamada Emma Restall Orr, autora dos
principais livros sobre druidismo da atualidade.
A ordem cresceu mundialmente, com druidas afiliados
nos quatro cantos do mundo. Emma fazia freqüentes
viagens a diversos países para dar palestras,
cursos e iniciações, e como o druidismo
parecia crescer cada vez mais fora da Grã-Bretanha,
ela decidiu, em maio de 2003, fortalecer o contato com
outros países e ampliar as atividades mundialmente.
Para isso, ela criou a DruidNetwork, uma organização
para unir grupos e indivíduos que sigam práticas
druídicas – a DruidNetwork não é
uma ordem ou grove.
Em 2002, a convite da editora Hi-Brasil e da Hera Mágica
Cultural, Emma veio ao Brasil para apresentar seu trabalho
em um workshop e uma série de eventos. Pela primeira
vez, o público brasileiro teve acesso direto
a uma das principais lideranças do druidismo.
Atualmente, o escritor Claudio Quintino, um dos representantes
da DruidNetwork no Brasil, dá continuidade a
esse trabalho através de workshops, palestras,
textos e artigos que apresentam o druidismo, suas características
e sua profunda validade a mais e mais interessados.
Chegamos assim aos dias atuais. Através de mais
de três milênios de história, a longa
e sinuosa estrada do druidismo desemboca à nossa
frente. Uma estrada por vezes clara, por vezes não
mais do que uma trilha, por vezes duplicada, por vezes
impossível de trilhar. Acima de tudo, porém,
o druidismo atual é uma tradição
espiritual válida, pois soube evoluir e se adaptar
às necessidades de seu tempo. Como diz Jean Markale
em Les Druides, "o que sobreviveu foram os princípios
do druidismo, pois estes jamais poderiam desaparecer.
E a partir deles surge a busca apaixonada do neo-druidismo.”
E como diz Emma Restall Orr em “Ritual”:
“o druidismo é uma espiritualidade profundamente
arraigada na terra, mas que se renova a cada novo amanhecer.
É uma tradição que honra nosso
mundo, os mundos interno e externo, os espíritos
da terra, do mar e dos céus, os espíritos
de nossos ancestrais; é uma filosofia que possui
em sua essência a exploração da
relação sagrada, de espírito para
espírito.
|