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Eisteddfod: Contos
da Roda do Ano

Uma torta para
a noite de Samhain
Quando entrou em sua casa, Viviane sentiu alguma coisa
diferente. Era como se tivesse uma lareira acesa na
sala, apesar de não ter nenhuma lareira na casa.
Mas o curioso é que não era verão,
e que a sala não estava propriamente quente.
Estava apenas diferente.
Ela acendeu as luzes e encostou a porta atrás
de si. Nesse momento, escutou o “tic-tic”
das patinhas da vira-lata Cuca se aproximando, vinda
da cozinha. Isso também era diferente, porque
Cuca costumava esperá-la perto da porta, sentadinha
em seu tapete preferido, peludo, que ficava ali embaixo
da mesinha do hall. Cuca a saudou feliz como de costume.
Pulava em suas pernas, querendo atingir-lhe o rosto
com lambidas de saudação. Viviane a tomou
nos braços e beijou-a, sentindo a língua
quente e festiva da cadelinha roçando sua orelha.
- O que você estava fazendo na cozinha, sua
moleca? Aprontando alguma, né?
Viviane a colocou no chão de novo e foi para
a cozinha com receio do que ia ver, e ao mesmo tempo
tomada pela estranha sensação que experimentara
ao entrar na casa.
Quando estava para cruzar a porta, foi surpreendida
por um calor repentino, quase um choque, e hesitou.
Era como se alguém a tivesse tocado, mais até,
abraçado, pois era quente e palpável.
Esticou a mão instintivamente, mesmo não
enxergando nada na sua frente. Cuca correu para a cozinha
alegremente, parou na porta e olhou para a dona, como
quem diz: Você não vem? Entre logo!!
Viviane quase podia ouvi-la falar. Arrepiada, com
aquele calor espiritual emanando ao seu redor, ela cruzou
a porta.
Assustou-se e maravilhou-se sucessivamente. Diante
da pia, com um gostoso sorriso nos lábios enquanto
mexia uma massa numa travessa, estava a sua avó.
Gordinha, de bochechas coradas, cabelos prateados. Exatamente
como estava no dia em que morrera. Viviane levou uma
das mãos aos lábios para conter uma exclamação,
mas nesse gesto não havia medo. Ela apenas continha
um grito porque não queria afugentar a aparição.
Cuca abanava o rabo efusivamente para a senhora que
cozinhava.
- Cuca, se comporte. Depois você ganha sua porção…
- repreendeu dona Rita, avó falecida de Viviane,
sem deixar de sorrir.
Viviane entrou com cuidado na cozinha, como se a avó
fosse um bicho arisco que fosse fugir. Não era,
claro. Ela ergueu o olhar doce para a neta e sorriu
mais.
- Vivi, que bom que você chegou! Me ajuda a
terminar esta torta?
Conforme ela se aproximava da avó, o calor
estranho que sentia se intensificava.
iviane arriscou imaginar que estava tocando a alma
da avó e ela a sua. Estavam compartilhando um
contato intenso e confortador.
- Vovó! O que está fazendo aqui?
- Uma torta, querida, aquela que você adora.
- Não, eu quero dizer o que você está
fazendo aqui… no mundo dos vivos.
- Eu nunca saí daqui, Vivi. Você apenas
não podia me ver.
Viviane chegou perto agora e tomou-a nos braços,
deliciando-se com o cheiro daquela colônia de
alfazema que ela usava, com o toque acalentador do abraço
dela no seu. Começou a chorar, claro. A emoção
era forte, não apenas pelas saudades e lembranças
que jorravam, mas pelo próprio encontro em si.
Nunca tinha reparado que a avó tinha um abraço
tão quente e tão cheio de energia.
- Sabe, Vivi, existem épocas do ano em que
a gente fica muito mais próxima e você
pode até me ver, como está vendo hoje.
Mas não se preocupe em encontrar respostas. Vamos
aproveitar a noite. Vamos terminar a torta e vamos comer
a torta. E beber uma cerveja também, você
tem cerveja aí, não tem?
- Tenho, claro – Viviane respondeu com um enorme
sorriso, sentia uma felicidade imensa em poder compartilhar
novamente momentos com a sua avó.
- Então vamos celebrar. Vamos celebrar nosso
encontro.
E passaram o resto da noite juntas, cozinhando, comendo,
bebendo e conversando muito, por horas a fio, sem nem
olharem no relógio. Da cozinha, passaram à
sala, onde falaram e riram juntas no sofá, e
ainda fizeram um chá perfumado, e falaram mais
ainda.
Sempre junto delas, Cuca participava da celebração,
bastante alegre também, como demonstrava seu
rabinho que não parava. Mas, diferente de Viviane,
ela não achava nada de anormal. Via dona Rita
com freqüência pela casa e no jardim, em
qualquer dia que fosse. Abanava o rabo para ela, sentia
seu carinho em sua cabecinha e até passeava com
ela pelo gramado.
Simples assim.
Andréa Guimarães
andrea.eire@druidismo.com.br

Momento
de despertar
Acordou com a luz do Sol nascendo. Ele acabava de cruzar
a fronteira do horizonte, um raio rasgava o céu,
depois outro e mais outro.
Sentiu o calor daquele nascimento na pele do rosto
e entreabriu os olhos para observar a luz que pintava
o mundo com uma camada de azul claro, amarelo e por
fim, de vermelho.
Nesse momento, o Sol se mostrou, apenas um pedacinho,
mas já fulgurava e ofuscava. Parecia que se movia
mais rápido nessa hora que nascia, do que nas
horas do dia que passeava alto no céu.
Então, desviando um pouco os olhos da luz forte,
se lembrou que o Sol não se movia, mas apenas
obedecia o movimento da Terra. Era ela que ordenava
seu nascimento, seu apogeu, sua morte. Era ela que se
movia para que a luz fecunda do Sol pudesse chegar em
todos os seus cantos, em toda sua extensão, e
fizesse vida nela, e a tornasse pulsante, desperta,
nutridora.
Se espreguiçou e honrou o Sol redondo, aceso,
fervente, simplesmente tomando consciência da
importância dele, que nesse dia nascia já
em pleno apogeu de sua criação ativa.
Observou o verão que acordava ao redor, observou
a Terra se banhando na luz quente, observou seu próprio
corpo se nutrindo de Sol.
Seus poros se dilatavam para receber o calor, suas
células abençoavam a luminosidade, seus
órgãos despertavam. Sua mente se ativava,
seu cérebro se alertava. Seu espírito
se alegrava, sua energia se agitava.
Percebeu que toda a vida, desde a menor célula
no seu corpo, até a maior montanha no corpo da
Terra, pulsava conforme o calor abundante do Sol aumentava.
Quando se levantou, um pensamento surgiu. Toda aquela
luz e aquele calor eram abençoados, mesmo em
seu caso, o de alguém que vivia num lugar onde
o Sol jamais morria por completo.
Andréa Guimarães
andrea.eire@druidismo.com.br

A bênção
das velas
Eu me lembro bem daquela temporada que fomos, eu e
minha mãe, para o sítio de meus avós,
embora eu fosse um menino de apenas 5 anos. Meus avós
moravam lá e viviam da criação
de ovelhas e da lã. Minha mãe estava bem
gorda na ocasião, a gravidez bem avançada.
Ela tinha decidido passar o último mês
perto de minha avó e me levou junto para o sítio,
enquanto meu pai ficou trabalhando na cidade.
Lembro dos passeios com minha avó de manhã
cedo. Ela costumava dizer que as crianças precisavam
tomar Sol, e a gente andava sob o Sol matutino e ainda
fresco de fim de inverno. Eu não entendia bem
porque criança precisava de Sol, mas achava que
era para crescer, pois já haviam me dito que
as plantas cresciam por causa do Sol.
Então eu andava com prazer ao lado dela, imaginando
que meu corpo estava se esticando aos poucos a cada
passo e que eu seria o menino mais alto da turma quando
fosse para a escola. Minha mãe dizia que eu ainda
ia demorar alguns anos para ir à escola e eu
ficava ansioso para isso acontecer logo.
O que mais ficou na minha memória, foi uma
noite que acordei com uma agitação vinda
do celeiro. Dava para escutar passos na grama indo e
vindo, e também algumas vozes furtivas. Eu saí
devagarinho da cama para não acordar minha mãe
e, depois corri para fora, sem ligar para o ar frio
da noite. Quando a gente é criança, essas
coisas são irrelevantes. Há um mundo inteiro
de descobertas e diversão pela frente, e parece
que essa necessidade aflita de aprender, de conhecer,
de ver, de tocar, de brincar, anula qualquer sensação
de frio, de calor, de umidade... Anula até a
dor de um tombo ou de um joelho ralado...
Uma vez lá fora, corri direto para o celeiro.
De longe eu já podia ver a luz agitada de velas
acesas: não havia energia elétrica no
celeiro ou arredores, apenas dentro da casa. Mas quando
eu entrei lá, não pude conter uma exclamação
de espanto e fascínio. Eu nunca tinha visto tantas
velas acesas juntas. Estavam por toda parte, colocadas
em cima de pratos e dentro de copos, algumas dentro
de lamparinas, outras sobre o gargalo de garrafas. A
cena era tão bonita que a princípio nem
vi o que meus avós faziam lá e nem me
importei. Mas logo eles me viram e minha avó
fez um gesto para que eu me chegasse mais perto.
Dentro de uma das baias, onde também haviam
velas, meu avô ajudava uma ovelha a dar à
luz. Fiquei novamente maravilhado. O pequeno cordeiro
saiu de dentro da mãe todo melado e sujo de sangue,
o que em nenhum momento me causou medo ou nojo, pois
o que passava na minha cabeça era que uma coisa
fantástica e mágica acontecia. Num momento,
o cordeiro estava dentro da mãe e de repente
ele estava fora, vivo, se mexendo. Na minha cabeça,
era como se a ovelha estivesse se renovando naquela
hora, colocando uma “versão mais jovem”
dela no mundo.
Eu arregalava meus olhos fascinado com a mágica
daquela mamãe ovelha e ficava pensado se minha
mãe ia conseguir fazer o mesmo. E então,
num daqueles momentos de pura descoberta da infância,
pensei, empolgado: “ela pode fazer mágica,
ele fez comigo!”
E fiquei olhando o cordeiro se levantando e, com a
ajuda do meu avô, indo mamar na mãe. Mais
magia me fascinando, com todo o efeito da luz das velas,
aquela luz quente e amarelada, que se move e faz as
sombras criarem vida ao nosso redor. Havia tantas velas,
tantas sombras... Pensava, naquela hora, que as velas
criavam nas sombras seres fantásticos que abençoavam
aquela nova vida que trazia renovação
para o sítio. O fogo trazia inspiração
suficiente para atiçar a imaginação,
ou para simplesmente revelar algo que podia ficar oculto
sem ele.
Havia suavidade no ar, a serenidade de uma mãe
recepcionando seu bebê, a doçura após
a gestação e o parto, quando ouvi a voz
de minha mãe na porta do celeiro, mas ela não
me chamava, ela chamava meus avós. Tinha a mão
sobre a barriga e falou que estava na hora. Eu não
entendi muito bem que hora era aquela, mas meus avós
correram afobados até ela.
Só depois eu fui perceber que ela estava pronta
para fazer a mágica e trazer meu irmãozinho,
e fazer comida para ele com seu próprio corpo,
como a ovelha fazia para seu cordeirinho.
Estava na hora de fazer mágica, uma mágica
que só ela era capaz. E eu pedi para os seres
do fogo das velas abençoarem meu irmãozinho.
Andréa Guimarães
andrea.eire@druidismo.com.br

A morte
do trigo
O viajante viu uma bifurcação na pequena
estrada de terra pela qual havia ca-minhado durante
todo o dia. Estava chegando a noite e ele precisava
achar um lugar para dormir. Ao longe, viu o que parecia
ser uma aldeia no final da estrada que virava à
direita, algumas luzes já acesas. Ajeitou a mochila
nas costas e o chapéu na cabeça, e tomou
aquela direção.
Andava nas margens de um trigal e esse trigal havia
sido ceifado há pouco tem-po, provavelmente naquela
manhã mesmo. Desprendia um cheiro forte de mato
e terra, um perfume que agradou ao homem. Aquele era
o cheiro do campo, o cheiro da terra, que tanto buscava
em sua jornada. Provavelmente o povo da aldeia agora
se ocupava em estocar o trigo colhido, mas certamente
lhe oferece-riam uma cama.
Quando caiu a noite, ele ainda estava longe da aldeia.
O ruído seco de seus passos na terra batida acompanhava
os primeiros grilos que começavam a can-tar.
Era uma noite de lua minguante, não estava muito
claro. Quase tudo era sombra ao seu redor. Foi então
que reparou numa sombra que se movia. Pa¬-recia
que tinha alguém sentado na beira do trigal.
Chegou mais perto mas, mesmo assim, não conseguia
definir a sombra. Ora pa-recia ser um homem sentado,
ora era apenas um vulto sem forma, e por vezes ficava
transparente. Não teve medo, teve antes curiosidade.
E se aproximou.
A estranha figura estava comendo. Comia frutas e pães.
Bebia, também. Leite e cerveja. Olhou para o
viajante quando ele se aproximou.
– Boa noite, viajante. Quer se juntar a mim
e cear?
Sua voz era como o vento que soprava em seus ouvidos.
– Não, obrigado – respondeu, receoso
– Porque come aqui, ao lado do trigal? A noite
está fria.
– Aqui é meu lugar. Hoje, fui ceifado.
Eu morri. Sou o espírito do trigo.
– Isso é triste... mas você me
parece alegre!
– E estou alegre! Veja quantas oferendas os
camponeses deixaram em minha honra! – apontou
para a comida e a bebida – E depois, eu morro
como trigo e vou renascer como pão. E o pão
alimenta aqueles que me deram a vida quando me plantaram
na terra e cuidaram de mim. Nosso relacionamento é
baseado no dar e receber. Veja como não se esquecem
de me agradecer, veja quanta com-ida! Posso até
passar mal! Vamos, junte-se a mim!
O viajante acabou aceitando. Como se recusar a compartilhar
da companhia de um espírito da natureza? Comeu
um pedaço de bolo e algumas amoras pretas que
tingiram as pontas de seus dedos de uma cor arroxeada.
Depois bebeu do leite fresco e também da cerveja.
Pensou no tanto de alimentos que já havia consumido
e que jamais havia honrado. Era um homem da cidade.
Lá, onde ex-istia a lei do concreto, todos se
esqueciam dos espíritos com os quais interagiam
todo o tempo. Se esqueciam até de seus próprios
espíritos.
– Viajante – falou o espírito do
trigo – Coma o quanto quiser. Depois descanse
e recupere suas forças. E de manhã, ao
seguir sua viagem, siga o caminho onde brilha o Sol.
E não se esqueça de agradecer ao espírito
do Sol pelo calor e pela luz confortantes. E o deus
Lugh te abençoará em sua jornada.
O viajante agradeceu e olhou adiante, para a aldeia
que almejava chegar. Desistiu e resolveu passar a noite
ali mesmo, com o espírito do trigo, com a lua,
com as estrelas e com as corujas que piavam.
Andréa Guimarães
andrea.eire@druidismo.com.br

Noite
longa de inverno
Era uma noite bem fria e úmida. Era solstício
de inverno, a noite mais longa do ano.
Tinha acabado de chover, e Ana se encolhia na cama,
o corpo apoiado em dois travesseiros bem altos enquanto
lia um livro. Desviou os olhos um momento para fora
da casa. A janela ficava do lado direito da cama e dali
ela podia enxergar parte da árvore que abrigava
em seu jardim. Os galhos desnudados pelo inverno recebiam
um brilho peculiar vindo da Lua que reluzia no céu
agora claro. As nuvens tinham ido embora, mas sua umidade
pairava no ar e deixava o contorno da Lua estranhamente
amarelado. Ana se deliciou com aquela visão e
até pousou o livro no colo por um instante.
O inverno não era sua estação
favorita, estava longe de ser. Todas aquelas roupas
que tinha que vestir uma em cima da outra e os momentos
de pura tortura que passava ao acordar de manhã
cedo para deixar a cama, ou pior, ao sair do chuveiro
quente para o mundo gelado que a aguardava lá
fora. Não, definitivamente não gostava
daquilo. Desejava sempre que houvesse calefação
em sua casa, o que obviamente não se justificava
num país como o Brasil, embora sua cidade estivesse
longe de ser uma cidade tipicamente tropical. Coisas
de país grande, onde coexistem climas europeus
e caribenhos numa estranha harmonia.
Enquanto observava a cena especial que sua janela
emoldurava, pensava que seria ótimo que não
houvesse inverno e nem frio.
Quando uma nuvem que havia sobrado da chuva finalmente
cobriu a Lua, Ana suspirou e voltou-se ao livro, pensando
que eram poucos e efêmeros os momentos que valiam
a pena no inverno. Puxou o edredom mais para o alto
e se encorujou para perto do abajur. Mas foi interrompida
pelo miado de Frederico, o gato. Sua voz vinha da porta
da cozinha e pelo jeito ele tinha dado uma escapada
depois dela tê-lo recolhido para dentro ao anoitecer.
Ana arrastou-se preguiçosamente para fora da
cama, até seus pés encontrarem as pantufas
de lã que vestiu rapidamente, junto com uma felpuda
malha que enrolou de qualquer jeito no corpo. Desceu
até a cozinha e abriu a porta para o gato.
- Fred, que diabos você foi fazer no jardim
a essa hora e com esse frio lá fora? –
resmungou.
Fred entrou ronronado saudações, o rabo
erguido ao alto. Estava todo animado com seu passeio
e tentava mostrar para a dona o quanto de alegria podia
haver no inverno lá fora. Fred era um gato e,
como tal, não possuía a limitação
e os conceitos retorcidos dos humanos. Conhecia os sentimentos
e pensamentos de Ana e, só de olhar para ela
agora, no momento em que ela o erguia no colo, podia
advinhar que ela tinha estado toda encolhida na cama,
resmungando mentalmente sobre a presença do inverno.
Ana o levou consigo e se deitou de novo. Fred imediatamente
pulou para o colo dela e ficou olhando fixamente nos
olhos da moça.
- Fred, já vai começar a me encarar
de novo? Não sei onde você quer chegar
com isso... – e voltou a ler seu livro.
"Como é tola, pensou Fred, não
pode me ouvir... Mas eu sei que seu espírito
me ouve, Ana. A gente se comunica o tempo todo e só
às vezes você se dá conta. Eu também
sei que no fundo você e esse pessoal da sua espécie
compreende e gosta de todas as estações
do ano. Vocês apenas se esqueceram que também
são natureza e então algumas coisas naturais
incomodam vocês. Nossa... Deve ser muito triste
viver nessa casca de humanidade que vocês vivem!
Vocês não ouvem nossas vozes, não
ouvem as coisas lindas que as árvores dizem,
os sussurros do vento, as poesias que os rios despejam
no ar a todo o momento... Vocês nem ouvem o canto
do fogo, mas como poderiam? Ele foi substituído
por essa coisa estranha que vocês chamam de eletricidade.
E assim, as noites que deveriam ser escuras, são
iluminadas, e vocês são impedidos de ver
as estrelas. E também de escutar as estórias
que elas contam, elas que estão aí desde
o princípio de tudo. Você pode imaginar
que tipo de estórias está perdendo, Ana?
Eu saio para passear nas noites de inverno, sim. Eu
me dou bem com o inverno. Eu sei que as coisas tem que
ser assim, que tudo precisa se recolher e descansar
para ter o ímpeto de se renovar em seguida. Esta
é uma longa noite, Ana. A mais longa noite do
ano. Em vez de fingir que ela não existe, acendendo
luzes artificiais, você deveria aproveitar esse
momento de estar profundamente dentro de si mesma e
encarar a noite de frente, e ouvir o que ela tem a te
dizer. Se não houvesse noite, não haveria
o dia, e se não houvesse o frio, não haveria
o calor. É tão simples.
Os dias quentes se aproximam, Ana! Hoje é a
noite mais longa, por isso mesmo é uma noite
de alegria! A partir de hoje, os dias vão aos
poucos ficando mais compridos e a vida vai se espreguiçando
bem devagar, se esticando toda, como eu faço
quando acordo. Talvez seja sutil demais para você
se dar conta disso, mas não tem como impedir
seu espírito de perceber, e ele se espreguiça
também. Você pode acender suas luzes para
aumentar a duração do dia, mas seu espírito
sabe a hora em que o dia acaba e começa a noite.
Seu espírito sabe que você é natureza
como eu, como a árvore do jardim, como o rio
lá no fim da rua... Por isso vocês sofrem,
não é? Por forjarem uma distância
que não existe.
Mas se alegre, Ana. Se alegre na noite mais longa,
desligue suas luzes e aproveite o repouso que a noite
traz. E amanhã, quando acordar, sorria para o
Sol que volta cada vez mais forte. Porque reconectar-se
é muito fácil, muito simples até.
E eu estarei aqui, ao seu lado, para te ajudar."
Ana fechou o livro e olhou para Fred franzindo a testa
e sorrindo para ele.
- Não consegui me concentrar em nada do que li
desde que você entrou, rapaz... O que está
tentando, me hipnotizar?
Fez um carinho na cabecinha dele e apagou o abajur.
Dormiu rápido, serenamente. Fred sabia que ela
podia sentir seu sorriso para ela, mas obviamente ela
não se dava conta disso. Talvez lembrasse disso
como um estranho sonho. Afinal, gatos não podem
sorrir… ou podem?
Andréa Guimarães
andrea.eire@druidismo.com.br
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