|
Eisteddfod: Contos

A Tília

Foto: Stefan Wernli. Alguns
direitos reservados.
Mais um dia.
Tílio, o aposentado, estava em seu posto de
sempre, na rua, só observando as pessoas: suas
atitudes, roupas, gestos, conversas, olhares; de algumas
chegava a criar teses sobre suas personalidades, sobre
suas almas e valores. Tentava desvendar os mistérios
da alma humana.
Tinha certo repúdio por árvores e animais,
mas ficava numa alameda cheia de tílias, irritava-se
com suas folhas secas caindo a seus pés, era
pior quando o vento as fazia roçar em seu corpo
durante a queda! Não suportava quando isso acontecia,
e praguejava tanto!
Era um desses velhos ranzinzas, com muito assunto mas
realmente pouquíssima disposição
para conversar. Raramente chamava alguém para
conversar e normalmente era para julgar alguém,
dar conselhos que não lhe foram pedidos, condenar
atitudes… quantas vezes não quis dar um
esporro em alguma criança traquinas! Mas seu
chamado sempre foi ignorado, quando muito apenas lhe
dirigiam um olhar apressado e logo desviavam, pisando
nas folhas secas de tília, com aquele mais detestável
crec-crec. Assim estava sempre sozinho, e mesmo assim
estava ali para julgar qualquer transeunte sob chuva
ou sol, no frio e no calor.
Não tinha noção de tempo, perdia-se
nele entretido em suas observações sobre
os outros. Não tinha amigos ou família,
não tinha posses e há muito não
via algum rosto familiar de sua época sociável.
Parecia fazer questão de não conhecer
gente nova. Era tão duro consigo mesmo, não
se permitia pensamentos depravados, não se permitia
desviar a atenção do julgamento dos outros
– há! Os outros: seus eternos réus.
Mas a eternidade se manifesta fora do tempo e não
era neste campo que Tílio observava. Seu olhar
crítico esqueceu-se de julgar a si mesmo e colocar-se
em seu lugar, e, como ironia presenteada como vingança
pela própria eternidade, um dia todo seu mundo
e seu julgamento caíram.
As deusas das tílias fizeram cair as flores
de toda a alameda naquele dia. A eternidade, a princesa
do além-tempo, que jamais poderia entrar nos
reinos do príncipe tempo, enviou seu carro carregado
com aquilo que faria cair a torre onde se passava o
julgamento de Tílio. Ali estava sua morte, não
veio para arrebatá-lo, mas para domar sua alma,
para enforcar sua arrogância e vê-la perdida
entre o sol e a lua, fazer brilhar uma nova estrela
na alameda dos loucos, dos pioneiros e dos amantes.
Tílio, o príncipe do mundo, se perderia
no seu lugar de fantasias e excessos, tornaria-se um
andarilho perdido, vivendo pela sorte num mundo de sombras
e, ali, de olhos vendados, encontraria de novo seu equilíbrio
ou cairia na loucura, para nunca mais voltar.
Uma criança se aproximou, e um cachorro, pequeno
e tão doce… pareciam dois seres do outro
mundo, indo levar notícias e mensagens a um grande
homem. Tílio não resmungou. Vinham em
sua direção e isso o excitou, o extasiou:
enfim companhia.
O cachorro tomou a frente, ele era branco e suas orelhas
amarelas, só elas não eram brancas naquele
animal que dançava, não corria.
Ele cheirou os pés de Tílio, abanava
o rabo. Ele o notou!
Ah! Como era bom ser notado, ser percebido e…
até parecia que ele o amava, abanando o rabo
daquela forma. Levantou os olhos para o alto, para ver
Tílio inteiro! Sua felicidade foi tamanha que
sentiu como se seu coração se derretesse…
e sentiu mesmo seus pés úmidos…
– Beni! Não faça xixi nas árvores!
– o garoto gritou, era para o cachorro. Tílio
arrepiou. O véu estava escuro, ia chover forte,
mas o sol aparecia, baixo, perto do horizonte, caindo
lentamente para se pôr, irradiando uma luz cruel
e mórbida, sarcástica… mostrando
a Tílio a urina do cachorro, que brilhava em
seus pés.
Não faça xixi nas árvores! Mas
o cão urinou nele! Tílio teve medo. O
garoto passou reto sem nem lhe pedir desculpas, o cachorro
continuou correndo pela alameda depois disso. Ele não
conseguia se abaixar para se limpar. O vento do entardecer
fez cair mais folhas perto dele. Mais do que nunca elas
o irritaram, mas não conseguiu resmungar, as
pessoas passavam por ele e nem mesmo o olhavam…elas
costumavam observar e rir às escondidas quando
alguém passava molhado ali… mas não
dele – e não era respeito: era indiferença.
Nem viam graça nem indignação,
mal olhavam… aquilo lhes era natural.
Tentou pedir ajuda mas o ignoravam.
Então começou a pensar, sobre como as
coisas mudaram. Lembrou-se quando era um respeitado
homem em sua vizinhança…e lembrou-se que
teve família um dia, mas não se lembrava
que fim ela teve.
Buscou em sua memória, mas nada encontrou, por
toda aquela noite… perdeu-se no tempo, de novo,
e ao amanhecer viu uma movimentação estranha
na rua: bombeiros com serras para cortar árvores
preparavam-se para cortar alguma tília. Ficou
realmente feliz com isso, uma dessas árvores-despenca-folhas
a menos para lhe importunar. Mas só cortavam
árvores doentes, ele sabia reconhecer uma –
não encontrou nenhuma. As serras forma ligadas,
o perímetro de segurança montado. Começaram
a lhe cortar.
Tílio se lembrou.
Sua família vivia bem. Seu filho trabalhava
e sua esposa era uma boa avó que fazia doces
aos fins de semana, às vezes sentia falta dele,
mas vivia bem. Ele teve problemas no coração
há muito tempo e foi internado num hospital,
morreu.
Viu então como as pessoas se vestiam diferentes,
como o mundo era outro e os anos se passaram. Ele renasceu
como árvore…e só se deu conta disso
quando o matavam de novo.
Só tinha um lasco de tempo até cair na
eternidade de novo, entre os mortos, só tinha
este tempo para ver o mundo como árvore. Sua
arrogância o cegou antes e nunca admitiu sua condição.
O primeiro galho caiu…
Cadu Garcia (ByrvinR)
contato@cadugarcia.com

Soberania
Linearmente séculos separam esses
eventos, no entanto, mágica e ancestralmente,
um oceano une duas nações.
No jovem país a oeste um Rei maculado
e sem honra governa, ladeado por homens de conselho
e astúcia que são seus pares ou pior em
vilania e descaso...
... Enquanto isso na velha ilha, a vista
é de completa desolação, a terra
revolvida, casas em chamas, dos bosques cortados as
árvores sangram como os corpos dos guerreiros
caídos sob suas raízes. Os corvos se banqueteiam.
- O tributo da Deusa - Reflete o Bardo,
enquanto sobe ao cume. A visão da colina dos
Reis em nada lhe agrada; o Rei - Ard Ri de Erin está
mortalmente ferido.
Irônico como nesta terra, paraíso
de nossos ancestrais, onde há abundância
de víveres, onde tudo que se planta dá,
exista tão miserável situação,
onde o povo, ludibriado por estratagemas, tem a ilusão
de ausência de fome, vê através de
truques a fartura, que abastece apenas a mesa de poucos.
E não são poucos os que
bradam por justiça... embora não haja
nenhum levante... não existem mais Heróis.
Aquele que aqui governa, conhecedor da força
das letras, tornou o conhecimento constantemente negado
ou diminuído, embora seja ocultado por alguns
poucos bravos que protegem, guardam e transmitem o saber
a alguns libertos da ilusão.
O Bardo se posiciona de fronte à
pedra do Destino, ansioso pois sabe que o preço
da Magia é o preço de si mesmo. Sorri
- logo estará com seus ancestrais celebrando
em Hy Brasil – põe-se a cantar. Enaltecendo
os heróis tombados, a batalha momentaneamente
perdida e a glória da outrora chamada era dos
Dannan. Entoa um lamento tão profundo e sentido
que as Banshees vêm lhe acompanhar, e tão
perturbadora é a melodia que desperta a outros
do entorpecimento da batalha, que logo engrossam o coro.
Algo peculiar ocorre nas terras a oeste...
os guardiões do saber acordam sobressaltados,
por sonhos luminosos onde pássaros dançam
e o vento canta. Imbuídos de novo ânimo
e coragem, seguem a planagem alta, onde fica o governante....
O canto daqueles que sobreviveram à
batalha faz verter água da pedra do rei, o pranto
soberano cobre a planície, lavando, levando toda
desolação em direção ao
mar. O Bardo, sem cessar a canção, muda
o tom, acelera o ritmo, junta-se um tambor, a colina
estremece. No lugar em que se vê a pedra, um corvo
se transforma em linda mulher, que com sua arte faz
a terra abrir-se e de dentro dela retira, intacto, o
corpo outrora ultrajado do Rei.
Nesse ato é tal a força
empregada pela Deusa, que agita as águas que
circundam a ilha, formando ondas cada vez mais altas,
tirando os barcos de suas rotas, fazendo com que os
mundos soubessem...
Antes porém de alcançarem
seu destino, os guardiões são interpelados
por centenas de pessoas que os procuram, buscando compreender
um fenômeno sem precedentes... uma onda gigantesca
abatera-se sobre a planície, levando conselheiros,
castelo e rei embora. Então eles compreendem.
Que naquele momento a soberania ressurgia.
Juliana Couto

A mulher-tesouro
Adorava café, sobretudo quando bem adocicado,
misturado a açúcar ou mel. Não
importava quantas vezes sorvia a bebida quente, sorria,
lembrando-se dos outros tempos. Porque, de fato, aquele
café bem doce talvez fosse a única coisa
que havia trazido daquela vida antiga, daquela mulher
estranha que largara naquele passado, com as mesmas
coisas e as mesmas pessoas, cuja porta fechara para
nunca mais tornar a abrir.
Costumava ser uma destas mulheres que passam a vida
inteira fingindo estar colhendo flores belas e olorosas,
em um jardim cujas possibilidades são infinitas.
Destas pessoas que preenchem o dia-a-dia sem se destacar
dele; pessoas que ninguém conhece, embora tenham
ao seu redor toda uma vida cheia de amores, gostos,
saudades e paixões não-reveladas, profunda
e cuidadosamente escondidas no mais silencioso âmago,
guardadas em segredo, para que ninguém descobrisse.
Naqueles tempos, encarava a vida como quem olha para
um corredor extenso, misterioso, impenetrável,
e, sobretudo, desconhecido; um corredor com uma única
porta, atrás de onde estavam guardadas todas
as mais belas músicas, as mais belas cores, aromas
e sorrisos, os mais inesquecíveis acontecimentos,
gestos e toques que se pode imaginar. Ainda assim, até
então pensava na vida guardada atrás desta
porta como uma hipótese quieta, calma, silenciosa
e quase inútil.
Enquanto convivia nulamente com tudo isso, tinha os
mesmos antigos e calmos afazeres de todas aquelas que
a antecederam na construção dos dias quietos
e lindos: usava vestidos coloridos, pintava as unhas
de cores claras, prendia o cabelo em belas e vistosas
tranças e sorria miúdo para seus conhecidos.
De vez em quando, ia para a janela, contar as estrelas
e olhar a lua, bebendo o doce e forte café que
suas avós faziam.
Como todas as muitas outras que vieram antes, tivera
pequenos amores, pequenas brigas, recebera pequenos
mimos e cuidados sem maiores destaques. Como todas as
outras, dançara apenas nas noites de festa, quando
podia usar anéis e colares, fitas e sandálias
vindos de muito longe. Nestas noites, trocava o bom
e velho café por um pouco de vinho quente, e
sorria e gargalhava mais leve, e encarava a velha e
tenebrosa porta do corredor da vida com mais coragem,
mais força, e - por que não? - com um
pouquinho de vontade de descobrir tudo o que estava
escondido ali.
E então, nestas noites em que o luar era mais
claro e as estrelas contavam histórias, ela dormia
mais leve, fingindo ser um pouquinho, só um pouquinho
mais do que sempre fora. E seus sonhos lhe mostravam
figuras que eram num só tempo tão inquietantes
e tenebrosas quanto aquecedoras e confortantes, misteriosas
conhecidas, negadas pela vida toda.
E quando enfim o dia seguinte vinha, cantarolava mais
alto, e sorria mais leve, e caminhava menos quieta,
mais solta, menos aflita. Até a cores de seus
vestidos pareciam mais fortes, a terra parecia mais
suave, e a vida quase ganhava um pouco mais de sentido.
Tudo parecia ter mais sentido, e os caminhos tornavam-se
belos, todos eles.
E foi exatamente num destes lindos dias que resolvera
deixar de lado aquele medo tolo e comum que dava força
às outras gentes. Num destes dias, abrira a sua
janela e, enquanto olhava para o mato verde, decidira
ir de encontro a tudo aquilo que estava além.
E embora fosse uma destas mulheres-moças, confinadas
a viver esquecidas com seus pequenos amigos, pequenos
sentimentos, pequenos passos e pequenos gestos, num
destes dias calmos ela decidiu que não havia
mais razão para esperar. E decidiu que devia
deixar a solidão e a quietude dos dias quentes,
e trocar aquele jardim cheio de flores de possíveis
cores e aromas por uma vida que valesse um pouco mais,
embora aparentemente sem sentido. E sem se importar
com qualquer um que pudesse estar esperando por ela,
decidiu ir embora, para sempre. Pegou alguns vestidos
e os guardou na mala junto com todos os anéis
e colares e partiu, caminhando leve e sorrindo, deixando
a vida triste para trás - porque todas as mulheres
são assim.
Lulu Saille
saille@terramadre.com.br

No quintal
Eu gostava muito de seus olhos quando a luz do sol
se refletia neles. Nessas horas, de repente eles deixavam
de ser castanhos escuros e mostravam umas listrinhas,
pequenininhas, bem mais claras, e eu achava aquele olho
muito bonito. Pensava que, se algum dia estivesse para
morrer e me fosse concedido um último pedido,
ia pedir pra ver aqueles olhos. Mas que nada, tudo filosofia
barata, porque eu seria uma dessas pessoas que nunca
faziam mal a ninguém, e, portanto, não
seria um prisioneiro mortal com apenas um desejo.
A estranha casa também era um belo quadro dentro
da minha cabeça. Era só parar alguns instantes
para quase-que ver as cortinas balançando com
o vento batendo nelas. E tão logo via, sentia
o cheiro da terra vermelha, a terra fina e poeirenta
que grudava nos dedos cheios de manga doce, o cachorro
no quintal da vizinha latindo para a menina que chorava,
chorava, chorava o dia inteirinho. E todos os dias era
a mesma coisa.
Todo dia, ao abrir e fechar os olhos, eu via as teias
de aranha que as aranhas faziam no teto da casa, de
alvenaria daquelas bem velhas, sem forro de gesso bonito
e pintadinho todo assim de branco. Só as madeiras
altas e depois as telhas, que davam medo só de
pensar que podiam cair se tivesse chuva de-à-noite.
E então fechava os olhos e cobria a cabeça
todinha só de medo que dava de pensar na telha
caido na cabeça da gente. E assim, nessa rotina
triste e medonha, adormecia.
Ainda não eram nem sete horas quando se acordava
todo dia com a luz do sol no rosto, que era bonita mas
nem sempre, porque às vezes é ruim acordar
com uma luzinha na cara da gente. Porque de vez em quando
a gente dorme tarde se fez pipoca, então é
ruim acordar muito cedo: talvez a gente fique cansado
durante o dia inteirinho e aí parece que é
a gente que é preguiçoso, mas ninguém
sabe que é cansaço. Se reclamar, ainda
podia apanhar, e feio, da empregada que não gostava
de ninguém na cozinha, nem um minutinho do dia
todo.
A única coisa que consolava depois de acordar
assustado era o pé de ameixa amarela no quintal,
que a gente toda comia sem nem ligar pra casca. Depois
disso, era bom jogar mamona no cachorro e correr da
vizinha que também não gostava de ninguém
no seu quintal, nem um minutinho do dia inteirinho.
A cada vez que passava o homem dos doces era também
uma doideira de crianças correndo naquela poeira
imensa, cada uma delas com uma, duas garrafas na mão,
um monte de garrafas na sacola de pera, dessas feitas
para fazer feira. Eram muito bom juntar estas garrafas
e trocar por pirulitos, balas, pés de moleque,
paçoca e doce de goiaba, dessas que vêm
na latinha que serve para deixar de prato pro cachorro,
pra galinha, pro gato ou pro galo que canta bem de-manhã.
Essas latinhas também serviam pra juntar pedrinhas
daquelas bem bonitinhas, que a gente não sabia
pra que iria usar. Na verdade, agora lembro que eram
cacos de vidro de garrafas de tubaína, guaraná,
baré, cerveja. Eram bonitas mas eram perigosas
porque ficavam cheias de teias de aranha, perto de aranhas
daquelas bem gordonas e perigosas. E estranhas, peludas
que nem um cachorro com o pelo limpo e seco.
Depois de juntar os caquinhos, era bom tomar banho,
sair pra comprar pão, tomar sorvete de vários
sabores e beber caldo de cana, depois voltar pra casa
pintada de rosa pra se poder jantar sopa quente e dormir
tranqüilo, esquecendo como foi o dia...
Lulu Saille
saille@terramadre.com.br

A fábula
do quetzal *
Além da saída do velho
carvalho o pequeno quetzal via o volitar das coisas
à sua volta. Do ninho aconchegante que seu pai
havia feito para abrigar sua fêmea e ali fazer
morada, ainda que pelo tempo necessário para,
juntos, se apaixonar e estabelecer laços, que
no fogo do que os humanos costumam chamar de 'instinto',
seria dado o dom da vida a uma pequena criatura, o pequeno
quetzal olhava o céu que o cercava e, mesmo sem
compreender por quê, sabia que um dia estaria
fazendo parte daquele Todo, que ele apenas entendia
como um todo confuso.
Nasceu do amor de pais atenciosos, ciosos
dos deveres de pais que eram. Sabia que do berço
que havia nascido levaria consigo o exemplo, a atenção,
o cuidado que seus pais lhe devotavam; sabia-se grande
mas conhecia sua condição, e entendia
que ainda não era hora de mostrar suas plumas
ao vento. Sua hora chegaria.
Da saída do tronco do velho carvalho,
meio tonto por causa da luz Sol, o jovem quetzal via
o mundo. O calor do ninho cheio de plumas brancas, deixadas
para trás num gesto decidido, balançavam,
ora com a suave brisa que soprava e fazia esvoaçar
as plumas de sua cara, ora com a rajada do vento que
o punha receoso de sair e encarar a realidade do 'além-ninho',
que entrava intrometido na morada que o agora jovem
quetzal pretendia deixar, já não o encantava
nem oferecia o que seu coração clamava.
Num salto vertiginoso, movido pelo ímpeto
que vinha de suas entranhas, a verdade que ardia em
seu peito e o sopro de liberdade que agora se fazia
presente em todo o seu ser, vence os ventos que vinham
em direção contrária, rompe com
os Medos, que habitavam o fundo do tronco do velho carvalho
e que diziam: " Fique, é mais seguro! Não
se sabe o que vai dar a sua aventura de sair voando
aí fora! ", num tom de gozação
e incredulidade sobre a força das asas e da vontade
que nele habitava.
"Não há como voltar
agora." - sentiu. Um galho seco quase arranha as
penas da asa esquerda. Assustado com o - quase - primeiro
incidente, mas atento aos perigos de seu vôo inexperiente,
o quetzal faz um curto mas belo batismo de asas.
Pousou seguramente no tronco de jequitibá.
Um arrepio correu por todos os seus ossos, fazendo balançar
suas - agora - firmes penas. Só nesse instante
pôde reparar que, em sua cauda, havia uma tímida
e bela ponta de pluma. Seu espírito sentia -
ele não sabia como: a sua natureza seria o seu
símbolo e marca na Terra. Ainda não sabia
que uma nação indígena teria sua
imagem como ícone de liberdade e grandiosidade,
mas sentia agora sua natureza vibrar. Sabia que havia
outras florestas para voar e conhecer, e que seria necessário
desenvolver humildade, se quisesse entre os seus habitar.
Era só o início, e ele não podia
fazer nada contra a Natureza que permeava sua Alma,
nem contra sua própria natureza.
Everton Batista Ribeiro
* Quetzal (quetçal)
[hisp.-amer. quetzal.]
S.m.
1. Zool. Ave trepadora da América Central (Trogons
resplendens), de plumagem verde muito brilhante, vermelha
no peito e na barriga. [Ave sagrada dos astecas, é
o símbolo nacional da Guatemala, onde se diz
que morre quando no cativeiro.]
2. Unidade monetária, e moeda, da Guatemala,
dividida em 100 centavos.
|