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Resenhas de Filmes

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A Dança das Paixões
(Dancing at Lughnasa, EUA, 1998)
Na casa da família Mundy: aprendendo
com o passado
Gênero: Drama
Duração: 96 min
Diretor: Pat O'Connor
Elenco: Michael Gambon, Meryl Streep, Sophie Thompson,
Lorcan Cranitch, John Kavanagh, Kathy Burke, Catherine
McCormack, Brid Brennan, Rhys Ifans, Darrell Johnston,
Peter Gowen, Dawn Bradfield, Marie Mullen, Katherine
O'Toole
Distribuidora: Top Tape
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O
filme "Dança das Paixões", adaptação
cinematográfica da peça “Dancing
at Lughnasa”, (Dançando em Lúnasa),
do dramaturgo irlandês Brian Friel, é de
grande interesse para todos aqueles que sentem forte
simpatia pela cultura irlandesa. O enredo deixa claro
de que forma a cultura celta resiste na vida desse país
tão singular, e ao mesmo tempo tão parecido
em muitos aspectos com o Brasil. De fato, não
são poucas as semelhanças entre a Irlanda
rural dos anos trinta e o interior brasileiro, também
rural, da mesma época; aliás, ainda hoje
resiste a semelhança entre essas realidades.
Muitos de nós hoje, mesmo vivendo em grandes
metrópoles brasileiras, temos algum tipo de relação,
ainda que ancestral, com o campo. Somos, pelo menos
em algum grau, todos descendentes de imigrantes que
chegaram no país para trabalhar a terra. E tivemos
contato, ainda que não em primeira mão,
pelo menos com as histórias da “roça”
e de como era – e ainda é – a vida
das pessoas nesse espaço. Temos também,
por vivermos no Brasil, a experiência do convívio
com o sincretismo, dos mitos, costumes, superstições
que sobrevivem e caminham lado a lado com as religiões
trazidas da Europa pelos colonizadores e imigrantes
– especialmente as diversas formas de cristianismo,
entre as quais dominava até bem pouco tempo atrás
o catolicismo, como na Irlanda. E como lá, festas
pagãs ocorrem ao lado das práticas cristãs,
as simpatias e as benzedeiras convivem com as missas
e os terços.
Michael, o filho ilegítimo de Christina Mundy
e Gerry Evans, narra, de seu ponto de vista como adulto,
suas memórias dos acontecimentos de décadas
atrás, do outono de 1936, durante o festival
pagão da colheita, Lughnasa, em uma pequena cidade
rural da Irlanda chamada Ballybeg.
Assim, as memórias de Michael são o fio
condutor da trama e dão relevo aos fatos daquela
época que ficaram gravados mais profundamente:
o rádio (batizado pela família com o nome
do deus pagão Lugh) que não funcionava
bem, mas que levava as irmãs Mundy ao frenesi
quando finalmente tocava, as visitas de seu pai, as
revelações cheias de maravilhamento do
tio, o padre Jack, encantado com a religião que
havia encontrado como missionário na Uganda.
Os
personagens representam os tipos sociais daquela comunidade,
de sua época e da cultura resultante: Kate é
o retrato da moral religiosa católica que se
esforça para conseguir adequar a realidade aos
mandamentos da religião – sem sucesso.
Todos os outros, de uma forma ou outra, parecem buscar
a felicidade sem saber exatamente como encontrá-la
em um ambiente que não é favorável,
por diversos fatores – a pobreza e o isolamento
da pequena cidade rural, e a revolução
industrial tardia que leva o ganha pão de duas
das irmãs, as tecelãs Rose e Agnes, quando
chega à região a indústria têxtil.
Evans busca essa vida melhor através de sonhos
que nunca se concretizam e mudam sua trajetória
a cada momento; Christina busca o amor, mesmo sabendo
que ele também não a levará à
estabilidade; Maggie tenta manter a jovialidade e a
alegria como que para disfarçar a decadência
do mundo que as cerca. Jack encontrou a resposta nas
práticas espirituais tribais africanas, mas isso
lhe custou sua posição na igreja dentro
da qual não mais se adequava.
O conflito do filme, representado por Jack e a forma
como ele não consegue se adaptar de volta ao
lar, é entre o passado e o futuro, o primitivo
e o moderno, o pagão e o cristão, a terra
e o céu. De certa forma, esse é o conflito
da época em que vivemos, na qual os avanços
tecnológicos começam a dar espaço
a uma busca por uma vida mais simples, mais espiritualizada
e mais livre.
Diante desses contrastes, podemos optar por continuar
presos a dogmas que em nada nos ajudam na busca pela
felicidade, como faz Kate, ou buscar algo que nos conecte
novamente ao maravilhoso, como fez Jack, buscando assim
alternativas para tornar o mundo melhor.
Carina Lucindo (Corr)
carina.corr@druidismo.com.br

Sonhos (Yume, Japão/ EUA,
1990)
A escolha possível entre sonho e
pesadelo
Gênero: Ficção
Duração: 119 min
Direção e roteiro: Akira Kurosawa, Ishirô
Honda
Elenco: Shogo Tomomori, Ryo Nagasawa, Akisato Yamada,
Tetsu Watanabe, Ken Takemura, Tetsuya Ito, Shoichiro
Sakata, Naoto Shigemizu, entre outros
Distribuidora: Warner
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Assistir
a “Sonhos”, de Kurosawa, é como mergulhar
no mundo inconsciente de outra pessoa. Mas ao chegar
lá, percebe-se que os sonhos, apesar de não
serem os nossos, são estranhamente familiares.
Os sonhos (e pesadelos) apresentados por Kurosawa são
velhos conhecidos de todos nós, tanto no Oriente
quanto no Ocidente. Estão no inconsciente coletivo
de nossa sociedade. Tratam de culpa, medo, maravilhamento,
da arte e seu poder de nos transportar, da força
da natureza, da morte, da destruição,
e das mentiras sobre as quais muitos aspectos de nossa
sociedade foram construídos.
Lançado nos momentos finais da Guerra Fria,
os “Sonhos” de Kurosawa retratam o horror
da ameaça nuclear e das guerras, a devastação
que a humanidade é capaz de causar, no pior dos
cenários possíveis. O filme mostra que
o homem pode perder sua humanidade através de
sua própria estupidez e egoísmo.
As imagens, tanto belas quanto horríveis, fazem
parte do imaginário de nossa civilização
– a consciência de que podemos tanto criar
o belo quanto trazer a destruição para
nós mesmos e para o mundo como o conhecemos.
O filme trata também das tradições,
e da importância de mantê-las, para a nossa
própria sobrevivência e do planeta. Aborda
a sabedoria dos mais velhos, e a simplicidade como forma
de viver bem, em harmonia, sem destruição.
Um viajante chega a uma pequena aldeia, e conversa
com um velho habitante. Choca-se com o fato de a aldeia
não possuir energia elétrica. “Mas
a noite é tão escura”, ele observa.
“Sim, a noite tem de ser assim. Por que a noite
deveria ser clara como o dia? Eu não gostaria
de não conseguir ver as estrelas à noite”.
E prossegue: “Hoje em dia, as pessoas se esquecem
de que elas são só uma parte da natureza.
Destroem a natureza, da qual nossa vida depende”.
Com esse último sonho, após vermos o
horror em imagens pungentes, Kurosawa nos leva de volta
a um passado que também existe, ainda, em nosso
inconsciente coletivo, com lições prontas
a serem resgatadas hoje, e que podem evitar que os piores
pesadelos de nossa civilização se tornem
realidade.
Carina Lucindo (Corr)
carina.corr@druidismo.com.br

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