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Uma Espiritualidade para salvar a Terra

Nos últimos anos, mais e mais pessoas parecem perceber que o atual modelo de exploração do meio ambiente não pode mais persistir. Já são séculos de desmatamentos, poluição de águas e ar e extinção de incontáveis animais e plantas.

A Natureza está gritando ‘basta!’ e temos de dar ouvidos – até porque nós fazemos parte dessa Natureza e dela dependemos, queiramos ou não.

Em tempos recentes, houveram grandes avanços filosófico-científicos, como a aceitação nos anos Setenta da conhecida Hipótese Gaia, através da qual o pesquisador James Lovelock propõe que o planeta Terra é um organismo vivo, auto regulável, com todas as reações de qualquer outro ser vivente. Por conta disso, a Terra não pode mais ser explorada como nos moldes atuais, mas deve ser compreendida e respeitada.

O crescimento dos movimentos de ecologistas ao redor do planeta também demonstram uma nova consciência. Mais e mais pessoas colaboram, ainda que à distância, com as inúmeras ONGs voltadas para a defesa do meio ambiente – seja em escala global, seja num âmbito local. Diversas cidades ao redor do globo já trabalham na despoluição de seus rios e na restauração de áreas verdes, e mesmo onde não exista um programa oficial de coleta seletiva, a iniciativa privada e os próprios cidadãos lutam para diminuir o desperdício. Até mesmo órgãos governamentais, geralmente insensíveis a causas ecológicas, começam a propor e sancionar leis que contemplam as necessidades dessa área.

São mudanças importantes, mudanças que se manifestam em novos conceitos, novas idéias e novas atitudes. Mas talvez isto não baste. Os danos ainda são muitos, e o organismo da Terra começa a dar claros sinais de esgotamento e colapso – notadamente no que diz respeito à água potável. O problema é muito mais grave do que se imagina: para se ter uma idéia clara, basta ver as somas incalculáveis de dinheiro destinadas à pesquisa espacial em busca de água em outros planetas do Sistema Solar...

Mas se a situação é assim tão premente, por que então as pessoas demoram tanto a reagir? Por que todos sabem o que deve ser feito, mas tão poucos se mobilizam? Talvez a resposta esteja numa palavra: espiritualidade.

O mundo atual é totalmente desespiritualizado. Os valores sociais, a vida diária das pessoas, salvo raríssimas exceções, possui poucos elementos de espiritualidade. Não falamos aqui de uma espiritualidade declarada em sensos ou em questionários, mas sim um desenvolvimento autêntico de conceitos fundamentais para os seres humanos, como a alma e as relações desta com o todo que nos rodeia – as outras pessoas, as paisagens, o alimento ingerido – em suma, a relação que estabelecemos com tudo aquilo que faz da nossa vida o que ela é.

E chega-se a conclusão que essa desespiritualização da humanidade trouxe uma das piores conseqüências possíveis: a ausência de honra nas relações. Não se honram mais os alimentos que nos trazem sustento, não se honram mais as preciosas horas de sono que nos restauram a energia; não se honra mais o trabalho, não se honram mais as árvores e os animais, não se honram as pessoas: não se honra mais a vida!

A vida como um todo foi dessacralizada. Hoje morre-se por um par de tênis. Morre-se por um time de futebol, por uma batida num cruzamento, pelo fim de uma relação. Muitas pessoas vêem nisso um reflexo da desintegração do tecido social, o que é verdade – mas não toda a verdade.

Em sociedades onde os valores espirituais estão arraigados no dia-a-dia das pessoas, em culturas onde os crimes estão associados não só a legislações mas sim a valores éticos e morais mais profundos, é raro ver um gesto de delinqüência. Alguns países islâmicos possuem leis tão severas contra crimes que ninguém nem ousa cometê-los... não se questiona aqui a correção ou não de se executar alguém que tenha cometido um roubo. O que se ressalta é o fato de que, por respeito àquilo em que se acredita, essas pessoas não se entregam a desejos “criminosos”. Quem impõe essa proibição? Elas mesmas. Em obediência àquilo que acreditam ser correto. Assim como, até bem pouco tempo atrás, açougues, leiteiros e padeiros deixavam o pão de seus clientes à soleira da porta, na calçada – e ninguém mais tocava. É uma questão de moral. De valores. De honra.

A honra numa relação é algo esquecido, raro de se encontrar. Toda relação deve possuir honra: entre um casal, entre pais e filhos, entre amigos. Entre uma pessoa e seu trabalho, seu alimento, sua casa, seu meio ambiente. Assim ocorre atualmente entre os povos indígenas das Américas e entre os aborígenes da Austrália. Assim ocorria entre diversas culturas ditas ‘primitivas’. Honra-se a vida. Vive-se com honra. Morre-se com honra.

A pergunta que fica então é: por que não há honra no mundo moderno? Por que as pessoas reclamam tanto de seus empregos e seus relacionamentos? Por que não honram sua refeição?

Porque o mundo dos humanos foi desonrado, foi dessacralizado. Mas não é só: a Natureza também deixou de ser sagrada – e o que não é sagrado pode ser profanado. Assim, do mesmo modo que roubo o pão deixado na porta de meu vizinho (pois somos todos vizinhos!), derrubo uma árvore. Do mesmo modo que derrubo uma árvore, matando todas as criaturas que nela vivem e dela dependem, posso matar um ser humano. Afinal, nada mais tem honra, nada mais é sagrado, nada mais tem valor. Ainda que se questione a proporção de todos os delitos acima listados, o princípio, a raiz de todos eles, é o mesmo.

É uma crise que parece sem fim – uma crise de valores, de ética. Rouba-se idéias, rouba-se a água dos rios, rouba-se a vida das florestas, rouba-se a alma das pessoas.

Até quando? Como alertamos no início deste artigo, o problema não está só no nosso mundo humano, mas envolve todo o planeta, toda a biosfera, envolve tudo. A natureza não tem mais valor. Mas desrespeitar a natureza é desrespeitar, no sentido original da palavra “natura”, tudo aquilo que nasce. Inclusive nós.

Não há dúvidas de que, do ponto de vista ambiental, a ‘nova’ consciência ecológica e a ação de grupos, indivíduos e organizações lutam para mudar o cenário atual, e isso é um avanço. Essa consciência cria uma ética, que influencia nossos gestos e ações. Mas ainda estamos longe da solução, pois existem leis contra os homicídios, contra a derrubada de árvores, contra a caça predatória, contra furtos e roubos. No entanto, a despeito dessas leis, esses crimes continuam a acontecer.

Talvez porque as leis são feitas pelos humanos e sejam belas num livro, mas não fazem parte dos conceitos éticos e morais mais profundos desses mesmos humanos. Trata-se de uma ética externa, imposta pela lei, pela polícia, pela justiça, pelas convenções sociais. E, por ser externa, não está presente no coração dos homens.

A ética interna, os valores mais íntimos de uma pessoa, são determinados somente por essa pessoa: pelas coisas em que ela acredita, em que ela crê e confia. E é aqui que entra a espiritualidade.

Uma espiritualidade que dessacralize a natureza, que negue a existência de divindade na matéria (e matéria vem de ‘mater’, mãe em latim) é uma espiritualidade que pouco a pouco leva à dessacralização de nós mesmos. Isto fica claro em conceitos atuais como a busca por uma vida melhor no pós morte, visão essa que faz de nossa existência atual uma provação. Se este é um mundo de provação, então ele é tão bom e prazeroso quanto uma câmara de torturas, certo?

Errado! Esses pensamentos funcionam nos níveis mais profundos de nosso subconsciente, afetando o modo como nos relacionamos com esse mundo. “Se ele é assim negativo, por que razão deveríamos respeitá-lo?” Ao pensar dessa forma, eu dessacralizo a natureza – não só ao meu redor, mas a minha própria. Eu me vejo como rival deste mundo que só me serve de provação. E aprendo a odiar as flores, as árvores, os rios, lagos e mares, os animais – os outros seres humanos. É simples assim. Ao depreciar o mundo, deprecio a mim mesmo, pois dele eu faço parte – querendo ou não.
E tudo o que ele traz de belo e inspirador é por mim rejeitado.

Não pode ser assim. Nem sempre foi assim. Para alguns povos, ainda hoje não é assim. Muitos povos ainda vivem em perfeita harmonia com o meio em que vivem, honrando as diversas relações estabelecidas com a natureza, com o trabalho e com outras criaturas. São povos que preservam a visão de que os seres humanos são parte da natureza, e não uma criatura eleita por um deus para dominar, submeter e subjugar. São povos que vivem a vida em harmonia, em paz, em compreensão – não por força de leis, mas por integrarem-se perfeitamente ao mundo em que vivem. E isto parte de suas crenças, de seus valores mais íntimos – de suas almas.

Talvez essa visão seja a solução de que tanto precisamos para frear o processo destrutivo em que a humanidade hoje se encontra. Resgatar os valores desses povos primitivos, restaurar sua visão de que o mundo é uma paraíso, que a terra é sagrada e viva, que os animais e florestas são sagrados, que o trabalho é sagrado, que a vida é sagrada. Ninguém desrespeita o que lhe é verdadeiramente sagrado. Assim, ninguém desrespeitaria a terra, nem aos que nos rodeiam.

Onde então encontrar uma espiritualidade que resgate essa comunhão plena com a Natureza, que lhe devolva a sacralidade e, por extensão, torne também sagrada a sua vida?

Muitas pessoas atualmente se voltam para espiritualidades que restaurem esses valores. Tradições como o xamanismo e o druidismo, por exemplo, atendem prontamente essas necessidades. Ao apresentar uma mudança de consciência, ao fazer com que as pessoas vejam-se novamente como partes de um todo amplamente integrado, de uma natureza cujo segredo é a inter-relação de espécies e indivíduos, o xamanismo e o druidismo operam a grande transformação de que o mundo precisa: ao transformar os valores internos das pessoas, esses caminhos espirituais mudam seu modo de ver o mundo, de agir, de interagir, de ser.

Filosoficamente, o mundo está mudando. Já se sabe que não é possível prosseguir a exploração dos recursos naturais neste ritmo devastador. Isto é um começo. Mas a grande transformação só virá quando as pessoas desenvolverem a noção de que cortar uma árvore é errado não porque fere a lei, mas porque fere a vida – a da árvore, a das criaturas que nela vivem e a da própria pessoa que a corta. Mas, mais do que isso, é preciso perceber que ao derrubar uma árvore, ou maltratar um animal, ou poluir um rio, o que estamos fazendo na verdade é dar um passo a mais rumo à destruição de nossos valores pessoais internos. O que separa alguém que polui um rio de um homicida?

Pense nisso. Mas, mais do que pensar, aja. O tempo é escasso.

Slán agus Solas,

Claudio Crow Quintino
claudioquintino.crow@gmail.com

c) 2002, Claudio Quintino (Crow) - Publicação autorizada.
Originalmente publicado no site www.heramagica.com.br - registrado na Biblioteca Nacional. Respeite a Lei dos Direitos Autorais.


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