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O que foi o chamado “Mesodruidismo”

Este texto se propõe a explicar o que foi o período conhecido como mesodruidismo, ou resgate do druidismo, um período intermediário entre o druidismo clássico (aquele que era praticado entre os celtas entre 600 ac até mais ou menos o século 10) e o ruidismo praticado hoje (neo-druidismo). Pode parecer estranho, mas o druidismo moderno se assemelha mais ao clássico do que ao mesodruidismo, por um motivo bem óbvio: o mesodruidismo não era pagão, enquanto que o druidismo clássico e o neo-druidismo são, isto é, reconhecem e honram a sacralidade da Natureza, são politeístas e animistas.

Mas então, como era o mesodruidismo? Veremos a seguir:

O druidismo clássico morreu quando o cristianismo de Roma chegou à Irlanda, banindo o cristianismo celta (tipo de cristianismo bem diferente do romano, onde haviam muitos elementos pagãos/druídicos, onde encontramos até mesmo episcopisas) e banindo também qualquer resquício das práticas druídicas.

Mais tarde, já no séc. 18, um irlandês (muito provavelmente não por acaso, pois a Irlanda foi o país onde o druidismo mais perdurou) iniciou o resgate do druidismo: John Toland. Em 1717, junto de John Aubrey, ele fundou a Druid Order, num equinócio de outono. Foi aí que começou o que hoje chamamos de mesodruidismo.


O mesodruidismo surgiu numa época em que toda a sociedade inglesa se interessava por temas ocultos e sociedades secretas. Foi aí que atribuíram, erroneamente, a construção de Stonehenge aos druidas. Toland era um dos que se interessava por essas sociedades ocultistas, embora fosse católico. Outro nome do meio druídico da época foi William Stuckeley, um reverendo pesquisador de alquimia e ciências ocultas. Para ele, o druidismo era uma forma de juntar sua crença pessoal cristã ao ocultismo, o que provavelmente também motivou Toland ao criar a Druid Order. Em 1781, Henry Hurle funda a AOD - Ancient Order of Druids, inspirada na maçonaria escocesa e que existe até hoje como uma espécie de "Rottary Club", sem ligações religiosas.


William Blake, poeta e dramaturgo, membro da Druid Order, "contribuiu" também para esse período do druidismo: ele afirmava erroneamente que os druidas eram monoteístas e patriarcais (o que mostra sua pouca informação em relação à sociedade celta...) e que descendiam de Abraão - para ele, a terra prometida era a Grã-Bretanha e Cristo tinha sido crucificado em um carvalho... Isso tudo carece de embasamento ou rigor histórico, para não dizer que são totais absurdos. Eram apenas tentativas forçadas de associar druidismo com cristianismo. Nesse período surgiram as idéias mais mirabolantes e, infelizmente, algumas delas perduram até hoje, inclusive em livros modernos cujos autores repetiram erros sem se preocupar em pesquisar a autenticidade das afirmações.


O principal personagem desse renascimento druídico, no entanto, foi o galês Edward Williams, mais conhecido como Iolo Morganwg. Ele era muito interessado na cultura celta e, com o intuito de resgatar as origens celtas de seu povo e se opôr à cultura que a Inglaterra lhes havia imposto, forjou textos e tradições druídicas. Ele pesquisou muito dos mitos de sua terra, mas se não encontrava o que queria, ele próprio criava. Foi assim que nasceu o livro "Barddas". Apesar disso tudo, seu trabalho foi importante nesse resgate do druidismo, como também foi o papel de todos esses personagens já citados. Sem esse interesse deles, talvez o druidismo permanecesse uma religião adormecida para sempre.


Foi Iolo quem criou a Gorsedd dos Bardos Britânicos, existente até hoje na forma de um festival folclórico onde ocorrem competições entre os bardos, que recitam seus poemas em galês. Iolo inaugurou essa gorsedd em Primrose Hill, Londres, no solstício de verão de 1792, justamente para chamar a atenção do povo sobre seu passado celta.


Resumindo, nessa época, o druidismo era apenas mais uma entre tantas "sociedades secretas" do período, cheia de invenções e erros históricos, afinal, ainda não existia a arqueologia, nem a datação por carbono 14. Tinha muito pouco a ver com o druidismo atual, que é pagão e bastante embasado na cultura celta, sem mais nada do cristianismo, do monoteísmo ou do patriarcado do séc.18 (embora muita gente ainda ache que o druidismo é uma tradição masculina, enquanto que a wicca é feminina, isso está errado. Ambas são religiões pagãs embasadas no equilíbrio entre o masculino e o feminino).


O neo-druidismo surge no séc. 20 e ganha seus primeiros elementos pagãos (isto é, começa a voltar às origens clássicas) na década de 40, com Robert Macgregor-Reid, que se inspira nos trabalhos de Margareth Murray sobre as sociedades pagãs pré-cristãs. Ninguém mais aceita a visão distorcida do mesodruidismo e a arqueologia começa a fornecer as informações para o resgate do verdadeiro druidismo, o druidismo praticado pelos celtas. É assism que Ross Nichols (praticamente o pai do druidismo moderno) entra nessa história, com suas pesquisas sobre os festivais originais celtas. Ele apresenta essas pesquisas aos seus colegas membros da Ancient Order of Druids, mas estes, fiéis demais às tradições originais da Ordem e desinteressados pelo passado celta, recusam seus trabalhos. Esse fato motiva Nichols a sair da AOD e fundar a OBOD - Order of Bards, Ovates and Druids (uma das maiores ordens druídicas nos dias de hoje). A ordem dele passou a celebrar a roda do ano como conhecemos hoje, unindo os 4 festiviais celtas (Beltane, Lughnasadh, Samhain, Imbolc) com os 4 festivais solares (solstícios e equinócios).


Uma curiosidade: Gerald Gardner era membro da Ancient Order of Druids junto
de Nichols. Nichols mostrou a Gardner suas pesquisas sobre os festivais celtas, o que o inspirou quando ele criou sua própria tradição pagã, a wicca.


A BDO (British Druid Order), outra das maiores ordens mundiais da atualidade, surge pelas mãos de Phillip Shallcrass, que se desliga da OBOD por motivos de diferenças de práticas, e a Druidnetwork (rede druídica mundial) surge pela inspiração de Emma Restall Orr, líder-adjunta da BDO, ao tentar unir os vários grupos afiliados à BDO ao redor de todo o mundo.

Andréa Éire
Nemeton Tabebuya
andrea.eire@druidismo.com.br

* Alguns chamam o druidismo clássico de "paleodruidismo", depois viria o "mesodruidismo" (sécs. 18 e 19) e por fim o "neo-druidismo" dos dias de hoje.


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