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Diarmid Graine

Certa madrugada, um grande líder guerreiro irlandês chamado Fionn estava inquieto, sem sono. Ao vê-lo assim aflito, dois de seus auxiliares se aproximam e lhe perguntam a causa de sua insônia.
- Ainda sinto a morte de minha esposa Maigneis. É difícil para qualquer homem dormir sem sua amada.


Seus companheiros então prometem que encontrarão uma pretendente para desposar o glorioso, mas já idoso, Fionn. E a escolhida, por sua beleza e virtudes, é a jovem Gráinne, filha do Rei Cormac macArt.


Os arautos enviados por Fionn ao palácio do rei Cormac retornam dizendo que Gráinne aceita casar-se com Fionn, desde que ele seja digno de ser genro do Rei Cormac.
Porém, no banquete que celebra o noivado de ambos, fica claro que Gráinne não ama Fionn, por mais nobre que este possa ser...


Seus olhos se voltam aos jovens e vigorosos guerreiros liderados por Fionn, entre os quais um chama sua atenção: um belo rapaz de cabelos negros encaracolados, chamado Diarmuid.


Tomada por um desejo ardente, Gráinne prepara uma poção mágica que é dada em segredo por suas amas a todos os presentes, fazendo com que todos caíssem adormecidos – todos, menos Diarmuid.


Enquanto todos jazem deitados, Gráinne se aproxima de Diarmuid e incita-o a fugir com ela. Leal a seu líder Fionn, a quem Gráinne fora prometida, ele hesita e resiste aos convites da esplendorosa jovem, até que ela ameaça lançar-lhe uma geis, uma terrível maldição tradicional irlandesa...


Convencido de que aceitar o convite de tão bela donzela é sem dúvida muito melhor do que aceitar a maldição por ela lançada, Diarmuid toma-lhe a mão e ambos fogem seguindo o curso do rio Shannon até chegarem a uma floresta, no interior da qual Diarmuid ergue uma casa, o refúgio dos amantes.


Mas Fionn e os demais presentes ao banquete despertam ao fim do efeito da poção, e partem imediatamente no encalço dos fugitivos. Guiados pelo poderoso faro de seus grandes cães de caça, Fionn está cego por vingança – mas até mesmo seus seguidores sabem que, diante de um amor tão avassalador quanto o que tomou os jovens Diarmuid e Gráinne, nada há a ser feito, e tentam demover Fionn de sua sanha vingativa.Até mesmo o próprio filho de Fionn, o grande Oisin, envia seu cão mágico Bran ao encontro dos jovens, para alertá-los da perseguição iniciada por Fionn.
Mesmo assim, Diarmuid resolve desafiar Fionn e, quando este se aproxima por entre as árvores da floresta, Diarmuid dá três grandes beijos em Gráinne, diante do olhar enfurecido de Fionn.


Subitamente, ambos os amantes fazem uma fuga espetacular, Gráinne amparada pela capa invisível do deus Angus - pai adotivo de Diarmuid - este numa proeza atlética, saltando por sobre as cabeças de Fionn e seus homens.


Em sua fuga, os amantes passam suas noites em grandes camas de pedra, que hoje chamamos de dolmens. Mas Diarmuid, sempre nobre e cavalheiresco, é nobre e cavalheiresco demais para os desejos de Gráinne, que o acusa de ser respeitoso demais...


Numa passagem, enquanto cruzavam um rio, um jorro d’água espirra sobre a virilha de Gráinne e ela, sempre espirituosa, diz a seu amante: “ Vê, meu querido, que até o rio é mais ousado que ti” Não demora, porém, para que o amor entre ambos se consume, e Gráinne engravida. Os amantes continuam em sua fuga, com Fionn sempre em seu encalço. A gravidez da bela donzela lhe traz um desejo, como costuma ocorrer com as grávidas – Gráinne tem vontade de comer as frutinhas de uma árvore mágica protegida por um ogro cujos poderes são tamanhos que somente os dons mais poderosos de Diarmuid são capazes de anular.


Por fim, o casal sobe na árvore mágica, deleitando-se com as saborosas frutinhas e alheios a tudo mais. Nem percebem que Fionn se aproxima, instalando-se, sem os ver, justamente sob a árvore em que estão...


Acampados sob os galhos onde se sentam os amantes, Fionn e seu filho Oisin – aquele mesmo que ajudara Diarmuid enviando seu cão para alertá-lo - distraem-se com uma partida de xadrez. Quando Oisin estava prestes a perder a partida, Diarmuid, oculto no alto da árvore, começa a ajudar seu aliado, indicando o melhor movimento ao atirar frutinhas da árvore sobre a casa do tabuleiro aonde Oisin deveria mover suas peças. Isso acaba por revelar seu esconderijo, e Fionn, furioso, pede para que Diarmuid se revele. Isso ele faz, dando novamente três provocantes beijos em sua amada, antes de saltar de novo sobre as cabeças dos homens de Fionn. O deus Angus, desta vez, leva a bela Gráinne para a sua morada no monte sagrado de Brugh na Bóinne.


Todas as tentativas de Fionn de capturar os amantes são por eles debeladas, de modo que a ele só resta desistir. Diante da mediação de Oisin, que quer bem a ambos, Fionn concorda em ceder a mão de sua ex-futura esposa a seu ex-fiel escudeiro.


Aliviados, o casal então pode viver em paz. Mudam-se para o alto de Keshcorran, uma linda colina no interior da Irlanda, onde Gráinne pode tranqüilamente dar à luz o primeiro de seus cinco filhos.


Um amor divino, com as bênçãos dos deuses, que desafia a autoridade dos homens, amparado pela autoridade divina...

 

Claudio Crow Quintino
claudiocrow@heramagica.com.br


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