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Pwyll, Príncipe de Dyfed
I. Pwyll encontra Arawn
Pwyll , príncipe de Dyfed, era o senhor das Sete Províncias de Dyfed. Certa
vez, ele estava em Narberth, seu palácio principal, e teve desejo de sair e
caçar, sendo Glyn Cuch a parte de seus domínios em que lhe agradava caçar.
Assim, ele partiu de Narberth à noite e foi até Llwyn Diarwyd, onde
pernoitou. Levantou-se bem cedo pela manhã e veio a Glyn Cuch, começando a
caçada assim que soltou os cachorros no bosque e soou o chifre. Pwyll seguiu
os galgos e acabou perdendo-se de seus companheiros. Ele escutava ainda o
ladrido de seus cães de caça, mas ouviu outros cães latindo, diferentes dos
seus, aproximando-se dele na direção oposta.
Viu então um clareira no mato formando uma área limpa. Quando seus cães
chegaram à extremidade da clareira, Pwyll avistou um veado perseguido pelos
outros cachorros. Assim que o veado chegou ao meio da clareira, esses cães
alcançaram-no e o derrubaram. Olhando a cor dos cachorros, Pwyll nem prestou
atenção ao veado, pois, de todos os mastins que já tinha visto no mundo,
nenhum era como estes. Seu pelo era de um branco lustroso, brilhante e suas
orelhas eram vermelhas, tão lustrosas quanto a brancura de seus corpos. Ele
veio na direção dos cachorros que tinham derrubado o veado e afugentou-os,
açulando seus próprios cães contra a presa.
Enquanto Pwyll atiçava-os, percebeu vindo em sua direção um cavaleiro
montado num grande corcel cinza-claro trazendo um chifre de caça ao redor do
pescoço e trajando vestes de lã cinzenta próprias para caçar. O cavaleiro
parou perto dele e falou-lhe então:
- Príncipe - disse ele -, sei quem sois e não vos saúdo.
- Porventura - respondeu Pwyll - possuís dignidade tal que poderíeis não o
fazer.
- Verdadeiramente, não é minha dignidade que me impede.
- Que é então, ó príncipe? - perguntou Pwyll.
- Pelos Céus, é em razão da vossa própria ignorância e falta de cortesia!
- Qual descortesia, príncipe, vistes em mim?
- Jamais vi descortesia maior do que espantar os cães alheios que estavam
matando o veado e jogar sobre a presa os seus próprios. Isso foi descortês
e,no entanto, posso não me vingar de vós pessoalmente, mas declaro ao Céu
que hei de trazer-vos mais desonra que o valor de cem veados!
- Príncipe, se procedi mal saberei recuperar vossa amizade. - De acordo com
qual possa ser vossa dignidade, mas não sei quem sois.
- Sou um rei coroado na terra de onde venho.
- Senhor, possa o dia fazer-vos prosperar. E de qual terra vindes?
- De Annwfyn - respondeu ele. - Arawn, um rei de Annwfyn, eu sou.
- Senhor, como posso ganhar vossa amizade?
- Depois de agir desse modo, vós ainda o podeis - disse. - Há um homem cujos
domínios são opostos aos meus e que está sempre guerreando contra mim. É
Hafgan, um rei de Annwfyn, e por libertar-me de tal opressão, o que
facilmente podeis fazer, ganhareis minha amizade.
- Com prazer o farei. Mostrai-me como é possível.
- Mostrar-vos-ei. Vede, então, como podeis fazer. Farei uma firme amizade
convosco. Enviar-vos-ei a Annwfyn em meu lugar, dar-vos-ei a mais adorável
mulher que jamais vistes para dormir convosco toda noite e ainda mais,
colocarei sobre vós minha forma e minha semelhança, de modo que nenhum pajem
da câmara real, nenhum oficial, nem qualquer outro homem que algum dia me
seguiu saberá que não sou eu. Isso será pelo espaço de um ano a partir de
amanhã e então nos encontraremos neste lugar.
- Sim - disse Pwyll -, mas, quando um ano se passar, como descobrirei esse
de quem falais?
- Em um ano a contar desta noite - respondeu Arawn - é o tempo marcado para
que nos encontremos em campo; comparecei lá sob a minha aparência e, com um
só golpe que lhe deis, ele já não viverá. E, se ele pedir que lhe deis
outro, não o façais, não importa o quanto insista convosco, pois, quando eu
o atendi, ele lutou comigo no dia seguinte tão bem como antes.
- Na verdade, que farei em relação ao meu reino? - perguntou Pwyll.
- Farei com que ninguém em todos os vossos domínios, nem homem, nem mulher,
saiba que eu não sou vós e lá estarei em vosso lugar - prometeu Arawn.
- Então prazerosamente seguirei adiante.
- Claro será vosso caminho, nada vos deterá até que entreis em meus domínios
e eu próprio serei vosso guia.
II. Na Corte de Annwfyn
Assim, Arawn conduziu-o até avistarem o palácio e suas habitações.
- Vede - disse Arawn - a corte e o reino em vosso poder. Entrai na corte,
ninguém lá vos reconhecerá e, quando virdes os serviços lá feitos, sabereis
quais são seus costumes.
Pwyll então se adiantou para a Corte e, quando entrou, contemplou
dormitórios e salões e câmaras e os mais belos edifícios jamais vistos. Ele
entrou no salão para desmontar, vindo jovens e pajens auxiliá-lo, os quais
os saudaram ao adentrarem as dependências do palácio. Vieram dois cavaleiros
e tiraram-lhes as roupas de caça, vestindo-o com uma túnica de seda e ouro.
O salão estava preparado e Pwyll viu a mansão e o anfitrião que nela
entrava. Este era o mais gracioso dos anfitriões e o mais bem equipado que
Pwyll havia conhecido. Com eles entrou igualmente a rainha e ele nunca vira
mulher tão formosa. Ela trajava uma túnica de brilhante cetim amarelo. Eles
se lavaram, foram para a mesa e sentaram-se, a rainha a um lado de Pwyll e
do outro um que parecia ser um conde.
Ele começou a conversar com a rainha e pensou, em razão de suas palavras,
que ela era a senhora mais decente e de mais nobre conversação, bem como a
mais alegre que já houvera. Partilharam a carne e a bebida, cantando e
festejando. De todas as cortes na terra, era esta a melhor provida de comida
e bebida e recipientes de ouro e jóias reais.
Quando chegou a hora de dormir, Pwyll e sua rainha foram para o leito. Ele
virou seu rosto para a beira da cama e deu-lhe as costas, não lhe dizendo
palavra alguma antes que amanhecesse. No dia seguinte, o carinho e a afeição
voltavam à conversação deles, embora durante o ano que se seguiu noite
alguma fosse diferente da primeira.
III. Pwyll mata Hafgan
Pwyll levou o ano a caçar e ouvir os menestréis, festejando, divertindo-se e
tagarelando com seus companheiros até chegar a noite fixada para a luta. E,
quando essa noite chegou, lembraram-se dela até mesmo aqueles que viviam nas
regiões mais distantes de seus domínios. Pwyll foi ao encontro e os nobres
do reino com ele. Chegando todos ao campo, um cavaleiro ergueu-se e falou:
- Senhores - disse -, escutai bem. Este encontro é entre estes dois homens e
entre eles apenas. Cada um reclama do outro sua terra e território, assim
cada um de vós fique apartado e deixe que a luta se dê entre eles somente.
Logo após, os reis encontraram-se no meio do campo e, ao primeiro empurrão,
o homem que estava no lugar de Arawn golpeou Hafgan bem no centro de seu
escudo e este se partiu em dois, sua armadura quebrou-se e o próprio Hafgan
foi lançado ao solo pela distância de um braço e uma lança por cima de seu
cavalo, recebendo um ferimento mortal.
- Ó chefe - falou Hafgan -, que direito tendes de provocar minha morte? Eu
não vos estava prejudicando em nada e não sei, assim, porque me mataríeis.
Mas, pelo amor do Céu, uma vez que começastes a matar-me, completai vosso
trabalho.
- Príncipe - replicou Pwyll -, posso ainda arrepender-me por matar-vos.
Faça-o quem o possa, pois eu não o farei.
- Meus fiéis senhores - gemeu Hafgan -, socorrei-me desde agora. Minha morte
chegou. Não mais serei capaz de apoiar-vos.
- Meus nobres - também falou aquele que estava sob a semelhança de Arawn -,
deliberai e dizei quem deveriam ser os meus homens.
- Senhor - disseram os nobres -, todos poderiam ser vossos homens, pois já
não há rei algum sobre Annwfyn além de vós.
- Sim - disse Pwyll -, está certo que aquele que vem com humildade seja
recebido graciosamente, mas aquele que não vem com obediência seja compelido
pela força das espadas.
Ele recebeu depois as homenagens dos homens e começou a conquista do país.
No dia seguinte, por volta do meio-dia, os dois reinos estavam em seu poder.
Logo depois, ele foi manter seu compromisso e veio a Glyn Cuch.
Quando chegou lá, o rei de Annwfyn esperava para encontrá-lo e cada um
regozijou-se ao ver o outro.
- Verdadeiramente - disse Arawn -, possa o Céu recompensar-vos pela vossa
amizade por mim, eu ouvi falar disso! Quando vós mesmo chegardes aos vossos
domínios, vereis o que fiz por vós.
- O Céu possa premiar-vos por qualquer coisa que tenhais feito por mim -
respondeu-lhe Pwyll.
Então Arawn restituiu a Pwyll, príncipe de Dyfed, sua própria forma e
semelhança e ele próprio retomou as suas. Arawn partiu para a Corte de
Annwfyn e alegrou-se ao contemplar os habitantes e o palácio que não vira
por um tão longo tempo. Porém, como não chegaram a perceber sua ausência,
não se espantaram de sua vinda mais do que o habitual. O dia da chegada foi
gasto com alegria e divertimentos e Arawn sentou-se com sua esposa e seus
nobres. Quando já era mais hora de dormir que de divertir-se, foram todos
descansar.
Pwyll, príncipe de Dyfed, veio igualmente ao seu país e domínios, começando
a indagar dos nobres da terra como fora seu governo no último ano em
comparação com o que antes tinha sido.
- Senhor - disseram eles -, jamais foi tão grande vossa sabedoria, nunca
fostes tão gentil ou tão liberal ao distribuirdes vossos dons e em época
alguma vossa justiça foi vista assim tão meritória quanto no último ano.
- Pelo Céu! - exclamou Pwyll. - Por todo o bem de que desfrutastes deveríeis
agradecer-lhe pelo que vos fez, pelo modo como se resolveu esse assunto.
E depois Pwyll relatou-lhes toda a aventura.
- Em verdade, senhor - disseram eles -, rendei graças ao Céu por haverdes
alcançado tal amizade e não nos negueis o governo de que desfrutamos neste
ano que passou.
Tomo o Céu como testemunha de que não vo-lo negarei - respondeu Pwyll.
E desde então fortaleceram a amizade que havia entre eles e cada um enviou
ao outro cavalos, galgos, falcões e todas as jóias que pensaram poderiam
agradar ao outro. Por motivo da sua permanência daquele ano em Annwfyn, por
havê-lo governado tão prosperamente, em um só dia unindo os dois reinos
através de seu valor e coragem, desde aquela época em diante Pwyll perdeu
seu título de príncipe de Dyfed e foi chamado de "Senhor de Annwfyn".
IV. Rhiannon
Certa vez Pwyll estava em Narberth, seu palácio principal onde uma festa
fora preparada para ele, e com ele havia uma grande multidão de homens. Após
a primeira refeição, Pwyll levantou-se e subiu ao topo de um monte que
estava além do palácio, chamado Gorsedd Arberth. Disse-lhe um da Corte:
- Senhor, é próprio deste monte que qualquer um a sentar-se sobre ele não
possa partir sem antes receber ferimentos ou golpes ou ainda ver alguma
maravilha.
- Eu - respondeu Pwyll - não temo receber ferimentos ou golpes no meio de
uma multidão como esta. Agradar-me-ia muito, porém, ver essa maravilha de
que falais.Lá irei então me sentar no monte.
E no alto do monte sentou-se. Enquanto lá estava sentado, viu uma dama
montada num grande cavalo puramente branco, envolvida numa veste de dourado
brilhante, vindo pela estrada que partia do monte.
- Homens - disse Pwyll -, há algum dentre vós que conheça aquela dama?
- Não há, senhor - tornaram eles.
- Vá um de vós e conheça-a para que possamos saber quem é.
Um deles ergueu-se e foi até a estrada para conhecê-la, mas ela passou. O
homem seguiu-a tão depressa quanto pôde estando a pé, e, quanto maior era
sua velocidade, mais ela se distanciava dele. Ao perceber que de nada lhe
adiantaria seguí-la, retornou a Pwyll e disse-lhe:
- Senhor, é impossível a qualquer um no mundo seguí-la a pé.
- Realmente, vai ao palácio, toma o cavalo mais rápido que vires e
persegue-a - ordenou o príncipe.
Ele tomou então um cavalo e seguiu adiante. Chegou a um descampado e
esporeou seu cavalo. Contudo, quanto mais o apressava, mais ela se afastava
dele, mantendo ainda o mesmo passo de antes. O cavalo dele começou a falhar
e quando as patas do animal deram sinal de que não prosseguiriam, o
cavaleiro retornou ao lugar em que Pwyll estava.
- Senhor - disse ele -, ninguém terá proveito em seguir aquela dama. Não
conheço nestes reinos qualquer cavalo mais rápido do que este, o qual não
foi capaz de ajudar-me a perseguí-la.
- Na verdade - respondeu Pwyll -, deve haver alguma ilusão aqui. Partamos
para o palácio.
Partiram assim para o palácio e lá passaram aquele dia. Levantaram-se no dia
seguinte e estiveram no palácio até a hora de comer. Depois da refeição,
Pwyll determinou:
- O mesmo grupo de ontem, nós iremos para o topo do monte. E tu - disse ele
para um dos rapazes que o acompanhavam -, leva ao campo o mais rápido cavalo
que conheceres.
Assim fez o jovem e foram todos para o monte, levando o cavalo consigo.
Estando já sentados, viram a dama no mesmo cavalo, com as mesmas vestes e
vindo pela mesma estrada.
- Vede - exclamou Pwyll -, eis ali a mesma dama de ontem! Fica pronto jovem,
para saber quem ela é.
- Fá-lo-ei alegremente, meu senhor.
Logo depois, veio a dama na direção oposta à deles. E o rapaz montou no
cavalo, mas ela passou antes mesmo que ele se houvesse acomodado na sela e
havia um claro espaço entre eles, embora a velocidade dela não fosse maior
que a do dia anterior. O jovem, pois, colocou-se a caminho e pensou que,
apesar do passo suave de sua montaria, haveria de alcançá-la rapidamente.
Entretanto, isso não o serviu e ele deu de rédeas no cavalo. Ainda assim,
não chegou mais perto dela do que se estivesse a pé e, quanto mais apressava
seu cavalo, mais ela se distanciava dele. A dama, contudo, não cavalgava
mais rápido do que antes. Ao ver que de nada lhe adiantaria seguí-la,
retornou ao lugar onde Pwyll estava.
- Senhor - disse ele -, o cavalo não pode mais nada além do que já vistes.
- Percebo sem dúvida que não seria de auxílio a qualquer um que devesse
seguí-la. E, pelo Céu, ela deve ter alguma tarefa a cumprir para alguém
nesta planície, se sua pressa nos permite afirmá-lo. Mas voltemos ao
palácio.
E para o palácio eles foram, passando aquela noite com canções e celebração,
como lhes agradou.
No dia seguinte, eles se divertiram até chegar a hora de comer e, quando a
refeição terminou, Pwyll disse:
- Onde estão todos aqueles que ontem e no dia anterior foram ao cimo do
monte?
- Vede, senhor - responderam eles -, aqui estamos.
- Vamos ao monte e sentemo-nos lá. E tu - ordenava Pwyll ao pajem que
conduzia seu cavalo -, sela bem meu cavalo, apressa-te com ele para a
estrada e traze também minhas esporas contigo.
Assim fez o jovem. E eles foram e sentaram-se no monte. Antes que estivessem
lá por mais do que um curto tempo, perceberam a dama vindo pela mesma
estrada, da mesma maneira e com o mesmo passo.
- Rapaz - disse Pwyll -, eu vejo a dama chegando. Dá-me meu cavalo.
Mas ela passou por ele antes mesmo que houvesse acabado de montar no cavalo.
Pwyll virou depois dela e seguiu-a. Ele deixou que seu cavalo saltasse
alegremente e pensou que se aproximaria dela no segundo ou terceiro salto,
mas não conseguiu chegar mais perto do que estava no princípio. Fez então o
cavalo acelerar-se à velocidade máxima, porém percebeu que seria inútil para
seguí-la.
- Ó donzela - gritou-lhe Pwyll -, pelo amor de quem mais amais, esperai-me.
- Com prazer vos esperarei - disse ela - e seria melhor para o vosso cavalo
que o tivésseis pedido desde logo.
Ela então deixou cair de sua cabeça a parte da veste que lhe cobria o rosto.
Fixou seus olhos em Pwyll e começou a falar-lhe.
- Senhora - perguntou ele -, de onde vindes e para onde vos dirigis em vossa
jornada?
- Viajo a meu próprio serviço e estou certamente contente em vos ver.
- Sejam para vós minhas saudações.
Pwyll então pensou que a beleza de todas as donzelas e de todas as damas que
jamais vira não era nada em comparação com a dessa jovem.
- Senhora, não quereis dizer-me algo acerca do vosso propósito?
- Contar-vos-ei - disse ela. - minha principal busca era para encontrar-vos.
- Ora, essa é para mim a mais agradável procura que vos poderia ter trazido.
E não quereríeis dizer-me quem sois?
- Eu sou Rhiannon, filha de Hefeydd Hen e procuram dar-me um marido contra
minha vontade. Mas eu não teria um marido em razão do meu amor por vós e nem
terei um, a menos que me rejeiteis. E aqui eu vim ouvir vossa resposta.
- Pelo Céu, esta é a minha resposta: pudesse eu escolher entre todas as
damas e donzelas do mundo, a vós eu escolheria.
- Verdadeiramente, se assim pensais, fazei a promessa de irdes conhecer-me
antes que eu seja dada a outro.
- Maior será meu prazer quanto mais cedo puder fazê-lo e irei encontrar-me
convosco em qualquer lugar onde o desejardes.
- Desejo que me encontreis em um ano a contar deste dia no palácio de
Hefeydd. E farei com que seja preparado um banquete, de modo que esteja
pronto quanto vierdes.
- Com satisfação manterei meu compromisso.
- Senhor, permanecei com saúde e sede cuidadoso para manterdes vossa
promessa. E agora eu me vou.
Assim eles se separaram. Pwyll voltou para onde estavam seus homens e seguiu
com eles para casa. E, ao ouvir quaisquer perguntas que lhe fizessem sobre a
donzela, desviava a conversa para outros assuntos.
V. No palácio de Hefeydd Hen
E, quando se passou um ano desde aquele dia, Pwyll fez cem cavaleiros
equiparem-se e acompanharem-no ao palácio de Hefeydd Hen. Ele chegou ao
palácio e havia grande alegria por sua causa, multidões de pessoas
regozijando-se e vastos preparativos para sua vinda. Toda a Corte foi
colocada sob suas ordens.
O salão estava guarnecido, todos foram para a refeição e sentaram-se.
Hefeydd Hen estava a um lado de Pwyll e Rhiannon, do outro. Eles comeram e
festejaram e conversaram um com o outro e, ao começar o divertimento depois
da comida, adentrou o salão um alto jovem ruivo, de aparência real, vestido
com um traje de cetim. Quando entrou no salão, saudou Pwyll e seus
companheiros.
- A saudação do Céu esteja convosco, minha alma - disse Pwyll. - Vinde e
sentai-vos.
- Não - o recém-chegado respondeu -, eu sou um pretendente e cumprirei minha
incumbência.
- Fazei-o de boa-vontade.
- Senhor, ,minha incumbência é para convosco, é pretendendo um dom vosso que
venho.
- Qualquer benefício que possais pedir-me, desde que esteja ao meu alcance,
vós o obtereis.
- Ah! - Rhiannon exclamou. - Portanto vós lhe destes essa resposta?
- Porventura ele não a deu na presença de todos estes nobres? - perguntou o
rapaz.
- Minha alma, qual é o dom que pedis?
- A dama que mais amo está para tornar-se vossa noiva nesta noite. Vim para
vo-la pedir, com a festa e o banquete neste lugar.
A resposta que lhe fora dada deixou Pwyll silencioso. Rhiannon lhe falou:
- Ficai silencioso tanto quanto quiserdes. Nunca homem algum fez pior uso de
sua inteligência do que vós.
- Senhora, eu não sabia quem ele era.
- Ora, esse é o homem a quem desejavam dar-me contra minha vontade. Ele é
Gwawl, o filho de Clud, um homem de grande poder e riqueza e, em razão da
palavra que dissestes, entregai-me a ele para que a vergonha não caia sobre
vós.
- Não compreendo vossa palavra, senhora. Nunca poderei fazer como dizeis!
- Entregai-me a ele e eu farei com que eu jamais seja dele.
- Através de quais meios o fareis?
- Darei em vossas mãos um saquinho, cuidai de guardá-lo bem. Gwawl vos
pedirá o banquete, a festa e os preparativos, que não estão em vosso poder.
Em relação aos convidados e à casa, eu lhe darei isso. No que concerne a mim
mesma, concordarei em tornar-me sua noiva em doze meses a contar desta
noite. Que estejais aqui ao fim desse ano e trazei este saco convosco,
deixando também que vossos cem cavaleiros fiquem escondidos no pomar além do
palácio. E, quando ele estiver no meio da alegria e festejando, entrai no
salão vestido em trajes rotos, segurando este saco em vossas mãos. Não lhe
pedireis nada além de um saco cheio de comida. E eu farei com que, se toda
carne e toda bebida existentes nestas sete províncias forem colocadas dentro
dele, ainda assim o saco não fique mais cheio do que antes. Depois que uma
grande quantia tenha sido posta ali dentro, ele vos perguntará se vossa
bolsa já está cheia. Direis então que ela nunca se encherá, a menos que
surja um homem de nobre nascimento e grande riqueza e pressione a comida no
saco com ambos os pés, dizendo: "Bastante foi colocado aí dentro". Eu farei
com que ele vá e empurre a comida para baixo dentro da bolsa e, enquanto ele
estiver assim ocupado, virai o saco de maneira que Gwawl fique de cabeça
para baixo dentro dele. Trazei também ao redor do vosso pescoço uma corneta
de chifre e, tão logo o tenhais jogado no saco, soprai o chifre e seja esse
o sinal entre vós e vossos cavaleiros. Quando eles ouvirem o som do chifre,
que desçam ao palácio.
- Senhor - disse Gwawl, impaciente -, espera-se que eu tenha uma resposta ao
meu pedido.
- Como está em meu poder dar-vos muito do que pedistes, vós o tereis -
replicou Pwyll.
- Minha alma - Rhiannon falou a Gwawl -, sobre a festa e o banquete que aqui
estão, eu os ofereci aos homens de Dyfed e a casa e os guerreiros que estão
conosco. Estes eu não posso suportar que sejam dados a qualquer um. Em um
ano a contar desta noite, um banquete será preparado para vós neste palácio
a fim de que eu possa tornar-me vossa noiva.
VI. O jogo do Texugo na Bolsa
O casamento de Rhiannon e Pwyll
Assim, Gwawl partiu para seus domínios e Pwyll também voltou para Dyfed. E
todo aquele ano se passou, até chegar o tempo do banquete no palácio de
Hefeyd Hen. Então Gwawl, o filho de Clud, foi à festa que lhe fora preparada
no palácio, onde houve grande alegria no momento de sua chegada. E Pwyll
também, o rei de Annwfyn, veio ao pomar com seus cem cavaleiros, consoante
Rhiannon lhe ordenara, trazendo o saco consigo. Pwyll usava vestimentas
grosseiras e rasgadas e calçava sapatos desajeitados, grandes demais para
seus pés. Quando ele soube que haviam começado as diversões após a refeição,
ele foi em direção ao salão e, ao adentrá-lo, saudou Gwawl, o filho de clud,
e seus companheiros, tanto homens quanto mulheres. Gwawl respondeu-lhe:
- O Céu vos faça prosperar e a saudação do Céu esteja convosco.
- Senhor - disse Pwyll -, possa o Céu recompensar-vos, tenho um dom para vos
pedir.
- Bem-vindo seja vosso rogo e, se me pedirdes o que é justo, com satisfação
o alcançareis.
- Está certo. O benefício que peço e além do qual nada desejo é que se encha
com carne este saquinho que vedes.
- Um pedido razoável é esse e prazerosamente o tereis. Trazei-lhe comida -
Gwawl ordenou.
Surgiu um grande número de criados que começaram a encher a bolsa, mas,
apesar de tudo que lhe punham dentro, não estava mais cheia do que ao
começarem. E Gwawl perguntou:
- Minha alma, não se encheu ainda esse vosso saco?
- Não se encherá, juro pelo Céu, a não ser que apareça um possuidor de
terras e domínios e tesouros e empurre com ambos os seus pés a comida que
está dentro do saco, enquanto diz: "Bastante foi colocado aí dentro".
Rhiannon então disse a Gwawl, o filho de Clud:
- Erguei-vos rapidamente.
- Com boa-vontade me erguerei - Gwawl replicou.
Ele se levantou e pôs os dois pés dentro do saco. Imediatamente Pwyll virou
a bolsa, ficando Gwawl de cabeça para baixo lá dentro. Fechou-a depressa e
fez um forte nó com os cordões. Soou o chifre e logo os de sua casa que
estavam escondidos desceram sobre o palácio. Eles prenderam todos os que
tinham vindo com Gwawl e jogaram-nos em sua própria prisão. Pwyll livrou-se
dos trapos, dos sapatos velhos e de todos os andrajos. Cada um dos seus
cavaleiros que entravam dava um golpe no saco, perguntando:
- O que tem aí?
- Um texugo - respondiam os outros.
Cada um que entrava perguntava:
- Que jogo estais jogando assim?
- O jogo do texugo na bolsa.
E foi então jogado pela primeira vez o jogo do "Texugo na Bolsa".
- Senhor - disse o homem dentro do saco -, se apenas quiserdes ouvir-me, não
mereço ser morto em um saco.
- Senhor - Hefeydd Hen interveio -, ele fala a verdade. É adequado que o
escuteis, pois ele não merece tal destino.
- Realmente, seguirei vossa orientação quanto a ele - disse Pwyll.
- Vede - Rhiannon falou -, este é então o meu conselho. Estais agora numa
posição em que vos compete satisfazer pretendentes e trovadores, deixai que
ele o faça em vosso lugar e tomai dele a promessa de que não buscará
vingança por tudo que lhe foi feito. E isso será punição suficiente.
- Com prazer farei o que dissestes - gemeu o homem dentro do saco.
- Com prazer eu o aceitarei - tornou Pwyll -, uma vez que é a deliberação de
Hefeydd e Rhiannon.
- Tal é então nosso conselho - responderam eles.
- Fazei que vos dê as garantias.
- Nós responderemos por ele até que seus homens estejam livres para fazê-lo
- disse Hefeydd. Deixaram-no então sair da bolsa e seus vassalos foram
libertados.
- Exigí agora de Gwawl as garantias - Hefeydd dizia. - Sabemos quais
deveriam ser-lhe tomadas. E Hefeydd enumerou as garantias. Disse Gwawl:
- Preparai vós mesmo o acordo.
- Bastar-me-á que seja feito como Rhiannon disse - respondeu Pwyll.
Estavam assim empenhadas as garantias para aquele acordo.
- Na verdade, senhor - falava Gwawl -, estou grandemente ferido e tenho
muitas contusões. Tenho necessidade de ser medicado e com vossa permissão eu
partirei.
- Com toda a minha boa-vontade podeis fazê-lo.
Assim, Gwawl partiu para seus próprios domínios.
E o salão foi preparado para Pwyll e os homens de sua companhia. Todos foram
para as mesas e sentaram-se naquela noite como se haviam sentado há um ano
atrás. Eles comeram e festejaram e passaram a noite em alegria e
tranqüilidade, até chegar o momento em que todos deveriam dormir, quando
Pwyll e Rhiannon foram para seus aposentos.
Na manhã seguinte, ao raiar do dia, Rhiannon disse:
- Meu senhor, levantai-vos e começai a dar vossos presentes aos menestréis.
Hoje a ninguém recuseis que vos possa reclamar a generosidade.
- Assim seja alegremente - Pwyll respondeu -, tanto hoje quanto em todos os
dias que deva durar a comemoração.
E assim Pwyll surgiu e fez que se proclamasse o silêncio, a fim de que todos
os pretendentes e menestréis expusessem e mostrassem que dons eram de sua
vontade e desejo. Tendo isso sido feito, a festa continuou e Pwyll nada
recusou a quem quer que fosse enquanto ela durou. Quando o banquete enfim
terminou, Pwyll dirigiu-se a Hefeydd:
- Meu senhor, com vossa permissão partirei amanhã para Dyfed.
- Certamente - respondeu o sogro -, possa o Céu prosperar convosco. Fixai
também um tempo quando Rhiannon possa seguir-vos.
- Sem dúvida iremos juntos.
- Isso desejais, senhor?
- Sim, pelo Céu - Pwyll afirmou.
No dia seguinte, eles partiram para Dyfed e viajaram para o palácio de
Narberth, onde um banquete estava sendo preparado para recebê-los. Lá, veio
até eles um grande número de homens importantes e as mais nobres damas da
terra e, de todos esses, não houve um só a quem Rhiannon não desse um rico
presente, fosse uma pulseira, um anel ou alguma pedra preciosa. E eles
governaram o país prosperamente naquele ano e no seguinte.
VII. Nascimento e rapto de Pryderi
E no ano seguinte os nobres do país começaram a entristecer-se, vendo um
homem a quem tanto amavam e que, além disso, era seu senhor e irmão de
criação, sem um herdeiro. Vieram até ele e o lugar onde se encontraram foi
Preseleu, em Dyfed. Disseram os nobres:
- Senhor, sabemos que não sois tão jovem quanto alguns homens deste país e
tememos não possais ter um herdeiro da esposa que tomastes. Tomai, pois,
outra esposa de que possais ter herdeiros. Não podeis continuar sempre
conosco e, embora desejeis permanecer como estais, não vo-lo permitiremos.
- Verdadeiramente - tornou Pwyll -, não faz muito tempo que nos unimos e
muitas coisas podem ainda acontecer. Concedei-me um ano a partir de agora e
pelo espaço de um ano nós ficaremos juntos. Depois disso, farei de acordo
com vossos desejos.
Os nobres assim lhe permitiram fazer. E antes do fim do ano nasceu-lhes um
filho. Ele nasceu em Narberth e, na noite em que nasceu, foram trazidas
mulheres para assistir a mãe e o menino. As mulheres dormiram, bem como
Rhiannon, a mãe do menino. O número de mulheres trazidas ao quarto era seis.
Elas vigiaram por uma boa parte da noite, mas, antes da meia-noite, cada uma
delas caiu adormecida e somente despertaram perto do amanhecer. Quando
acordaram, olharam para onde tinham colocado o menino e perceberam que ele
não estava lá.
- Oh - disse uma das mulheres -, o menino desapareceu!
- Sim - disse outra - e será uma vingança pequena se formos queimadas ou
levadas de outra forma à morte por causa da criança.
- Há no mundo - perguntava uma terceira - algum conselho que nos possa ser
útil em relação a isso?
- Há sim - respondeu uma outra. - Eu vos ofereço um bom conselho.
- O que é?
- Há uma cadela de caça aqui e ela tem uma ninhada de filhotes. Matemos
alguns dos cãezinhos e esfreguemos o sangue na face e mãos de Rhiannon e
depositemos os ossos diante dela. Afirmemos que ela própria devorou seu
filho. Sozinha, não será capaz de contradizer-nos.
Tudo foi feito de acordo com essa deliberação. Ao acordar de manhã, Rhiannon
disse:
- Mulheres, onde está meu filho?
- Senhora, nada queirais perguntar-nos em relação a vosso filho, nada temos
além das feridas e contusões que recebemos lutando convosco. Na verdade,
jamais vimos mulher tão violenta quanto vós, por isso de nada nos adiantou
contender convosco. Não tendes vós mesma devorado vosso filho? Assim, não o
reclameis de nós.
- Tende piedade - disse a mãe -, o Senhor Deus sabe todas as coisas! Não me
acuseis falsamente. Se é por medo que me falais essas coisas, juro pelo Céu
que vos hei de defender!
- Em verdade - retrucaram as mulheres -, nós mesmas não desejamos provocar o
mal a ninguém no mundo.
- Por misericórdia, não recebereis qualquer mal dizendo a verdade -
implorava Rhiannon.,br> Mas a todas as suas palavras, fossem suaves ou
severas, ela recebia a mesma resposta das mulheres.
E Pwyll, o Senhor de Annwfyn, surgiu e com ele toda a sua casa e as
multidões que o acompanhavam. O fato não pôde ser escondido mas sua história
passou adiante, atravessou o país e os nobres ouviram-na. Eles vieram até
Pwyll e pediram-lhe que aprisionasse sua esposa, em razão do grande crime
que cometera. Mas Pwyll respondeu-lhes que não possuíam um motivo para
pedir-lhe que prendesse sua esposa, exceto por ela não ter filhos.
- Mas filhos ela agora mostrou que pode ter, então não a prenderei. Se ela
fez mal, deixai-a penitenciar-se por isso - disse o príncipe.
Assim, Rhiannon chamou os mestres e os homens sábios e, como preferiu o
castigo a enfrentar as mulheres, tomou sobre si uma penitência. E, pela pena
que lhe foi imposta, ela deveria permanecer naquele palácio de Narberth até
que se passassem sete anos, sentando-se diariamente em um montadouro que
estava sem o portão. Ela deveria contar sua história a todos os que lá
chegassem os quais pudesse supor que ainda não a soubessem. Ela deveria
oferecer-se aos convidados e estranhos, pedindo a estes que lhe permitissem
carregá-los em suas costas ao interior do palácio. Mas raramente ocorreu que
qualquer um o aceitasse. Desse modo ela passou parte do ano.
VIII. A égua de Teirnyon
Naqueles dias, Teirnyon Twryf Fliant era o senhor de Gwent Is Coed e era o
melhor homem do mundo. Em sua casa havia uma égua que não se podia encontrar
no reino outra égua ou cavalo mais bonitos. Na noite de cada primeiro de
maio, ela paria e ninguém sabia o que acontecia ao potro. Certa noite,
Teirnyon disse a sua esposa:
- Mulher, é muito fácil para nós que nossa égua deva parir todos os anos e
não tenhamos nenhum dos seus potros.
- E o que podemos fazer a esse respeito?
- Esta é a noite do primeiro de maio. A vingança do Céu caia sobre mim se eu
não descobrir quem é que leva os potros!
Assim, ele ordenou que a égua fosse trazida para dentro de uma casa e
armou-se. Teirnyon começou a vigiar naquela noite. Logo no começo da noite,
a égua pariu um grande e belo potro. O animalzinho já se estava pondo em pé.
Teirnyon ergueu-se, olhou o tamanho do potro e, enquanto o fazia, ouviu um
grande tumulto. Logo depois, viu uma enorme garra entrar pela janela da casa
e agarrar o potro pela crina. Teirnyon puxou sua espada e golpeou o braço no
cotovelo, de forma que a porção do braço que agarrava o potro ficou na casa
com ele. Imediatamente, Teirnyon escutou outro rebuliço e um alto lamento.
Abriu a porta e correu para fora na direção do barulho, no entanto a
escuridão da noite impediu-o de ver a causa de toda a agitação. Ele correu
atrás da coisa e seguiu-a. Lembrou-se então de ter deixado a porta aberta e
retornou. Viu que havia à porta uma criancinha usando fraldas, enrolada numa
manta de cetim. Ele tomou-a, vendo que era um menino muito forte para a
pouca idade que tinha.
Teirnyon então fechou a porta, indo para o quarto onde sua esposa estava.
- Senhora - disse ele -, estais dormindo?
- Não, senhor. Eu estava adormecida, mas despertei quando entrastes.
- Vede, eis aqui para vós um menino, se o quiserdes, uma vez que nunca
tivestes um.
- Que aventura foi essa, meu senhor?
- Foi assim... - respondeu Teirnyon e contou-lhe como tudo havia acontecido.
- Na verdade, senhor, como estava ele vestido?
- Usava uma manta de cetim.
- É então de nobre linhagem - replicou a esposa. - Meu senhor, se o
quiserdes eu terei grande alegria e satisfação. Chamarei a mim minhas
mulheres e lhes direi que estive grávida. - Prontamente permito que o
façais.
E assim agiram eles. Determinaram que o menino fosse batizado e lá foi
realizada a cerimônia. O nome que lhe deram foi Gwri Wallt Euryn, porque o
cabelo em sua cabeça era tão amarelo quanto o ouro. O menino foi criado na
corte até um ano de idade. Antes que o ano houvesse acabado, ele já podia
caminhar com segurança e era maior do que um menino de três anos, até mesmo
do que um de grande tamanho. E o menino foi cuidado no segundo ano, sendo
então maior do que uma criança de seis anos. Antes do final do quarto ano,
ele subornaria os cavalariços para que lhe permitissem levar os cavalos à
água.
- Meu senhor - disse a Teirnyon sua esposa -, onde está o potro que
salvastes na noite em que encontrastes o menino?
- Ordenei aos cavalariços que cuidassem dele.
- Não seria bom, senhor, determinardes que ele fosse trazido e dado ao
menino, vendo que, na mesma noite em que encontrastes o menino, o potro
nasceu e vós o salvastes?
- Não me oporei a vós nessa questão. Permitir-vos-ei dar-lhe o potro.
- Senhor, possa o Céu recompensar-vos. Dá-lo-ei ao menino.
Assim o cavalo foi dado ao menino. Ela foi então aos cavalariços e àqueles
que cuidam dos cavalos e ordenou-lhes tomarem conta do animal, de forma que
pudesse ser trazido tão logo o menino estivesse apto a montá-lo.
IX. O retorno de Pryderi
Enquanto essas coisas se passavam, eles ouviram novidades sobre Rhiannon e o
seu castigo. E Teirnyon Twrif Fliant, por causa da piedade que sentia ao
ouvir tal história sobre Rhiannon e seu castigo, fez indagações minuciosas a
esse respeito, até já ter ouvido muitos dos que vinham à sua Corte. Então
Teirnyon, repetidas vezes lamentando a triste história, ponderou consigo
mesmo e olhou com grande atenção o menino. Enquanto o observava, pareceu-lhe
que jamais vira tão grande semelhança entre pai e filho quanto entre o
menino e Pwyll, o Senhor de Annwfyn. O rosto de Pwyll era-lhe bem conhecido,
pois fora outrora um de seus seguidores. Ele foi logo depois afligido pelo
erro que cometera, mantendo junto a si um menino que sabia ser o filho de
outro homem. E, na primeira vez que ficou a sós com sua esposa, Teirnyon lhe
disse que não era correto manterem o menino consigo, permitindo que uma
senhora tão excelente quanto Rhiannon fosse tão duramente castigada por
causa dele, uma vez que o menino era o filho de Pwyll, Senhor de Annwfyn. A
esposa concordou com ele, que deveriam mandar o menino para Pwyll.
- E três coisas, senhor - disse ela -, assim ganharemos. Agradecimentos e
presentes por libertar Rhiannon de sua punição, agradecimentos de Pwyll por
alimentar e restituir-lhe seu filho e, se o menino for de natureza gentil,
será nosso filho adotivo e fará por nós todo o bem que estiver em seu poder.
Assim foi resolvido de acordo com essa deliberação.
Não depois do dia seguinte, Teirnyon equipou-se e com ele dois outros
cavaleiros. O menino, como um quarto em sua companhia, foi com eles no
cavalo que Teirnyon lhe dera. Eles viajaram para Narbeth e não levaram muito
tempo para chegar ao lugar. Quando se aproximaram do palácio, viram Rhiannon
sentada junto ao montadouro. Eles vinham em sua direção e ela lhes falou.
- Chefe, não vos aproximeis mais, eu carregarei cada um de vós para dentro
do palácio. Esse é meu castigo por matar meu próprio filho e devorá-lo.
- Boa dama - disse Teirnyon -, não penseis levar-me em vossas costas.
- Tampouco a mim - acrescentou o menino.
- Realmente, minha alma - Teirnyon falou à criança -, nós não iremos.
Eles entraram assim no palácio e houve grande alegria pela sua chegada. No
palácio, uma grande festa havia sido preparada, pois Pwyll retornara dos
confins de Dyfed. Eles entraram no salão e lavaram-se e Pwyll alegrou-se por
ver Teirnyon. Sentaram-se nesta ordem: Teirnyon entre Pwyll e Rhiannon e os
dois companheiros de Teirnyon do outro lado de Pwyll, com o menino entre
eles. Depois da refeição, eles começaram a divertir-se e discursar. O
discurso de Teirnyon era concernente à aventura da égua e do menino e de
como ele e sua esposa tinham alimentado e cuidado da criança como se fosse
sua.
- E vede, aqui está o menino, senhora - disse Teirnyon. - Agiu mal quem quer
que tenha dito aquela mentira a vosso respeito. Quando ouvi sobre vossa
tristeza, fiquei preocupado e aflito. Acredito não haver ninguém nesta
multidão que não perceberá ser este menino o filho de Pwyll.
- Não há um só - responderam todos - que não esteja certo disso.
- Juro pelo Céu - Rhiannon exclamou - que, se isso for verdade, sem dúvida
minhas dificuldades chegaram ao fim.
- Senhora - falou Pendaran Dyfed -, bem chamastes Pryderi vosso filho e bom
tornou-se para ele o nome de Pryderi, filho de Pwyll, Senhor de Annwfyn.
- Senhor - disse Rhiannon -, o seu próprio nome não seria melhor para ele?
- Que nome ele tem? - perguntou Pendaran Dyfed.
- Gwri Wallt Euryn - respondeu Teirnyon - é o nome que lhe demos.
- Pryderi - Pendaran disse - será o seu nome.
- Seria mais apropriado - interveio Pwyll - que o menino tomasse o nome da
palavra que sua mãe falou ao receber as felizes novidades a seu respeito.
Assim foi resolvido de acordo com essa deliberação.
- Teirnyon - disse Pwyll -, o céu vos recompense por haverdes cuidado do
menino até este momento e, sendo de linhagem nobre, seria apropriado que ele
vos retribuísse por isso.
- Meu senhor - respondeu Teirnyon -, foi minha esposa quem o alimentou e não
houve ninguém no mundo tão aflito por vê-lo partir quanto ela. Seria bom que
ele pudesse lembrar-se do quanto eu e minha esposa fizemos por ele.
- Chamo o Céu como testemunha de que, enquanto eu viver, hei de apoiar-vos e
a vossos domínios, tanto quanto eu possa preservar os meus próprios. E,
quando ele subir ao poder, irá sustentá-los mais adequadamente do que eu. E,
se esta deliberação for agradável a vós e aos meus nobres, ocorrerá que,
como cuidastes dele até esta data, eu o entregarei para ser conduzido por
Pendaran Dyfed de agora em diante. E vós sereis companheiros e ambos pais
adotivos do menino.
- Essa é uma boa deliberação - disseram todos.
Assim, o menino foi dado a Pendaran Dyfed e os nobres do país foram enviados
com ele. Teirnyon Twrif Fliant e seus companheiros partiram para seus país e
suas posses, com carinho e alegria, não sem que antes lhe fossem oferecidos
os melhores cavalos, os cães mais escolhidos e as mais belas jóias. Mas nada
quis levar para si.
Todos depois permaneceram em seus próprios domínios. E Pryderi, o filho de
Pwyll, o Senhor de Annwfyn, foi cuidadosamente educado, como era mister, de
modo que se tornou o mais decente rapaz e o mais gracioso e mais habilidoso
em todos os bons jogos do que qualquer outro no reino. Passaram-se anos e
anos, até que o fim da vida de Pwyll, o Senhor de Annwfyn, chegou e ele
morreu.
E Pryderi governou prosperamente as Sete Províncias de Dyfed. Era amado por
seu povo e por todos ao seu redor. À extensão de seu reino ele acrescentou
as três províncias de Ystrad Tywi e as quatro províncias de Cardigan. Estas
foram chamadas as Sete Províncias de Seissyllwch. Quando fez esta adição,
Pryderi, o filho de Pwyll, o Senhor de Annwfyn, quis tomar uma esposa. A
escolhida foi Cicfa, a filha de Gwynn Gohoyw, o filho de Gloyw Wlallt Lydan,
filho do Príncipe Casnar, um dos nobres da ilha.
E assim termina esta parte do Mabinogion. |