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Manawyddan, o Filho de Llyr
I. O Terceiro Príncipe Deserdado
Manawyddan casa-se com Rhiannon
Quando os sete homens de quem falamos acima já haviam enterrado a cabeça de
Bendigeid Fran no Monte Branco, em Londres, com sua face voltada para a
França, Manawyddan contemplou a cidade de Londre e seus companheiros,
soltando um grande suspiro. Muita tristeza e peso caíram sobre ele.
- Ai, Céu Todo-Poderoso, ai de mim! - ele exclamou. - Não há ninguém, exceto
eu mesmo, sem um lugar para descansar nesta noite.
- Senhor - disse Pryderi -, não fiqueis triste. Vosso primo é rei da Ilha do
Poderoso e, embora possa ter agido mal para convosco, jamais estivestes a
reclamar terras ou posses. Sois o terceiro príncipe deserdado desta ilha.
- Sim - respondeu ele -, mas embora esse homem seja meu primo, entristece-me
não ver ninguém no lugar de Bendigeid Fran, meu irmão, nem posso eu estar
feliz na mesma habitação que ele.
- Seguireis o conselho de outro homem?
- Permaneço necessitando de um conselho - respondeu Manawyddan. - Qual seria
ele?
- Sete províncias continuam sendo minhas - disse Pryderi -, onde mora
Rhiannon, minha mãe. Eu a darei a vós e com ela as sete províncias e, embora
não tenhais posses além dessas províncias somente, jamais poderíeis ter
visto províncias tão belas quanto essas. Cicfa, a filha de Gwynn Gloyw, é
minha esposa e, uma vez que a herança das províncias pertence a mim, que vós
e Rhiannon desfruteis dela e, se jamais desejardes quaisquer domínios,
tomareis esses.
- Não desejarei, Príncipe - ele disse -, o Céu vos recompense por vossa
amizade.
- Eu vos demonstraria a melhor amizade do mundo se o permitísseis.
- Eu o farei, meu amigo, e o Céu vos recompense. Irei convosco procurar
Rhiannon e ver vossos domínios.
- Fareis bem - respondeu Pryderi - e acredito que jamais escutastes uma dama
falando melhor do que ela. Quando estava no seu auge, ninguém era mais bela.
Ainda agora seu aspecto não é desagradável.
Eles partiram e, conquanto a jornada fosse longa, chegaram por fim a Dyfed.
Uma festa fora preparada por Rhiannon e Cicfa para recebê-los em sua chegada
a Narberth. Manawyddan e Rhiannon então se sentaram juntos e começaram a
conversar e as palavras de Rhiannon inflamaram a mente e os pensamentos
dele. Manawyddan pensou em seu coração que jamais contemplara uma dama mais
cheia de graça e beleza do que ela.
- Pryderi - ele falou -, quero que seja como dissestes.
- Que cochicho foi esse? - perguntou Rhiannon.
- Senhora - disse Pryderi -, eu vos ofereci como esposa a Manawyddan, o
filho de Llyr.
- Com esse desejo eu de boa vontade concordo - disse Rhiannon.
- Muito feliz também estou eu - disse Manawyddan. - Possa o Céu recompensar
aquele que me mostrou uma amizade tão perfeita quanto essa.
Antes que a festa terminasse ela se tornou sua noiva. Disse Pryderi:
- Permanecei aqui pelo resto da festa. Eu irei a Lloegyr prestar minha
homenagem a Caswallawn, o filho de Beli.
- Senhor - falou Rhiannon -, Caswallawn está em Kent, podeis assim
permanecer na festa e aguardar até que ele esteja mais próximo.
- Esperaremos - ele respondeu.
Terminaram então a festa. E começaram a percorrer Dyfed, a caçar e a
dedicar-se aos prazeres. Enquanto atravessavam o país, descobriram que nunca
tinham visto terras mais agradáveis nas quais viver, nem melhores campos de
caça e tampouco maior abundãncia de mel e peixes. Era tal a amizade entre
aqueles quatro que não podiam separar-se nem à noite, nem durante o dia.
No meio de tudo isso, Pryderi foi encontrar Caswallawn em Oxford e
prestar-lhe homenagem. Teve lá uma honrosa recepção e foi altamente louvado
por oferecer sua homenagem.
II. O encantamento sobre Dyfed
Depois de retornar, Pryderi e Manawyddan festejaram, viveram
confortavelmente e dedicaram-se aos prazeres. Começaram uma festa em
Narberth, pois era o palácio principal, onde se originava toda honra. Ao
terminarem a primeira refeição daquela noite, enquanto aqueles que os
serviram comiam, eles se ergueram e saíram, dirigindo-se todos os quatro ao
gorsedd, isto é, o monte de Narberth e seu séquito com eles. Ao sentarem-se,
sobreveio um estrondo de trovão com a violência de uma tempestade e caiu
sobre eles uma névoa tão espessa que nenhum deles podia ver o outro. Depois
da névoa, tudo em volta ficou claro outra vez. Quando olharam na direção do
lugar onde antes estavam, não viram gado, rebanhos, moradias, não enxergaram
nada, nem casa, nem animal, nem fumaça, nem fogo, nem homem, nem habitação,
nada além das casas vazias da Corte, desertas e desabitadas, sem qualquer
homem ou animal dentro delas. Seus companheiros estavam verdadeiramente
perdidos para eles, sem que estes quatro soubessem qualquer coisa do que
lhes acontecera.
- Em nome do Céu - gritou Manawyddan -, onde estão todos os da Corte e todos
os meus acompanhantes que estavam ao seu lado? Vamos ir e ver o que
aconteceu.
Assim, eles vieram ao salão e lá não havia homem algum. Foram ao castelo,
entraram no dormitório e não viram ninguém. Na adega e na cozinha nada havia
alé de desolação. Eles quatro então festejaram, caçaram e dedicaram-se aos
prazeres. Começaram a viajar pelo país e por todos os domínios que tinham,
visitaram as casas e as habitações e nada acharam além de bestas selvagens.
Como já haviam terminado a festa e consumido todas as suas provisões,
começaram a alimentar-se das presas que mataram na caça e do mel de enxames
silvestres. Assim passaram agradavelmente o primeiro ano e o segundo, mas no
último ano começaram a sentir-se exaustos.
III. A peregrinação dos muitos trabalhos
- Realmente - disse Manawyddan -, não devemos esperar assim. Vamos para
Lloegyr e procuremos algum ofício pelo qual possamos ganhar nosso sustento.
Foram então para Lloegyr e chegaram até Hereford, onde dedicaram-se a fazer
selas. Manawyddan começou também a fazer capas para cavalos. Ele dourou-as e
coloriu-as com esmalte azul, do mesmo modo que vira ser feito por Llasar
Llaesgywydd. Ele fez o esmalte azul como fora feito por outro homem. Desde
então é ainda chamado Calch Lasar (esmalte azul), porque Llasar Laesgywydd o
forjara.
Durante todo o tempo em que esse trabalho pôde ser feito por Manawyddan,
nenhuma sela ou capa foi comprada de qualquer outro seleiro em toda a
Hereford. Até que, por fim, cada um dos seleiros percebeu que estavam
perdendo muito do seu ganho e que homem algum comprava deles além daquele
que não podia obter de Manawyddan o que procurava. Reuniram-se então e
concordaram em matá-lo e a seus companheiros.
Eles, no entanto, foram avisados a esse respeito e deliberaram para decidir
se deixariam a cidade.
- Pelo Céu - disse Pryderi -, não sou da opinião de que abandonemos a
cidade, mas sim de que matemos esses campônios.
- Discordo - disse Manawyddan -, pois, se lutarmos com eles, adquiriremos má
fama e seremos jogados à prisão. Seria melhor para nós irmos buscar o
sustento em outra cidade.
- Que ofício exerceremos? - disse Pryderi.
- Fabricaremos escudos - respondeu Manawyddan.
- Sabemos algo sobre esse trabalho?
- Tentaremos.
Começaram então a fazer escudos, moldando-os de acordo com os melhores que
já tinham visto. Esmaltaram-nos como haviam feito com as selas. Eles
prosperaram naquele lugar, a ponto de escudo algum ser encomendado na cidade
além daqueles que eles mesmos fabricavam. Porém, terminaram marcados pelos
artesãos, que se reuniram apressadamente trazendo consigo seus concidadãos e
todos concordaram em que deveriam procurar um meio de matá-los. Mas eles
foram avisados e souberam de como os homens haviam decidido destruí-los.
- Pryderi - disse Manawyddan -, esses homens querem nos matar.
- Não suportemos tal ameaça da parte desses campônios. Caiamos sobre eles e
matêmo-los!
- Discordo. - respondeu Manawyddan. - Caswallawn e seus homens poderiam
ouvir falar sobre isso e nós seríamos arrasados. Partamos para outra cidade.
Assim, para outra cidade eles foram.
- Que ofício exerceremos? - disse Manawyddan.
- Qualquer um que desejeis e nós conheçamos - respondeu Pryderi.
- Discordo - ele replicou. - Vamos fazer sapatos, pois não há coragem
suficiente entre os sapateiros nem para lutar conosco, nem para
molestar-nos.
- Nada sei sobre esse ofício - Pryderi comentou.
- Mas eu sei e irei ensinar-te a costurar. Não tentaremos preparar o couro,
mas o compraremos pronto e com ele faremos os sapatos.
Assim, eles começaram comprando o melhor couro que havia na cidade e ele não
comprou senão o couro para as solas. Associou-se ao melhor ourives da
cidade, ordenou-lhe que fizesse fechos para os sapatos e os dourasse. Ele
observou como era feito até aprender o processo e desde então foi chamado de
um dos "três sapateiros de ouro". E, à medida em que podiam ser obtidos
dele, nenhum sapato ou meia era comprado dos sapateiros da cidade. porém,
quando os sapateiros perceberam que seus ganhos estavam caindo (pois
enquanto Manawyddan dava forma ao trabalho, Pryderi o costurava), eles
reuniram-se e deliberaram e concordaram que haveriam de matá-los.
- Pryderi - disse Manawyddan -, esses homens tencionam matar-nos.
- De modo que devemos então suportar isso desses ladrões grosseiros? -
Pryderi exclamou. - É preferível matá-los a todos!
- Discordo. Não os mataremos, nem tampouco permaneceremos mais tempo em
Lloegyr. Partamos para Dyfed e vejamos como se encontra.
Eles então viajaram até chegar a Dyfed e foram em direção a Narberth. Lá
acenderam o fogo e sustentaram-se caçando. Assim passaram um mês. Reuniram
seus cachorros ao seu redor e lá permaneceram por um ano.
IV. O castelo encantado
Pryderi e Rhiannon desaparecem
Certa manhã, Pryderi e Manawyddan levantaram-se para caçar. Eles juntaram os
cães e saíram do palácio. Alguns dos mastins correram à frente deles e
chegaram a um pequeno arbusto que estava bem próximo. Entretanto, tão logo
haviam chegado ao arbusto, retrocederam depressa, seu pelo fortemente
eriçado.
- Aproximemo-nos do arbusto - disse Pryderi - e vejamos o que está lá.
Assim que chegaram perto, um javali selvagem puramente branco surgiu de
dentro do arbusto. Os homens então açularam os mastins, que investiram
contra o javali. Este, porém, deixou o arbusto e recuou, ficando um pouco
mais longe dos caçadores. Ele resistiu aos cachorros sem fugir deles até que
os homens se acercassem. quando Pryderi e Manawyddan chegaram, o javali
retrocedeu uma segunda vez e preferiu fugir. Eles então o perseguiram até
enxergarem um vasto e imponente castelo, todo recentemente construído, num
lugar onde nunca antes tinham visto uma pedra ou construção. O javali correu
rapidamente para dentro do castelo e os cães foram atrás dele. Quando o
javali e os cães já haviam desaparecido dentro do castelo, Pryderi e
Manawyddan começaram a maravilhar-se por encontrarem um castelo num local
onde jamais tinham visto qualquer espécie de edificação. Do alto do gorsedd
eles olharam e tentaram escutar os cachorros, mas durante todo o tempo que
lá estiveram, nada ouviram dos cães, nem puderam saber coisa alguma a seu
respeito.
- Senhor - disse Pryderi -, eu vou entra no castelo para ter notícias dos
cachorros.
- Na verdade - replicou Manawyddan -, seríeis tolo em entrar nesse castelo
que nunca antes vistes. Se seguirdes meu conselho, não entrareis lá. Quem
quer que tenha sido o responsável pelo feitiço que caiu sobre esta terra
também fez com que esse castelo aparecesse aqui.
- Realmente, mas ainda assim não posso abandonar meus cães.
Quando entrou no castelo, não viu lá nem homem, nem besta, nem javali, nem
cães, nem casa, nem habitação. Mas no centro do pavimento do castelo ele
contemplou uma fonte com mármore trabalhado ao seu redor. Havia na margem da
fonte uma tigela de ouro sobre uma placa de mármore e correntes que pendiam
do ar, das quais ele não conseguia discernir o fim.
Agradaram-no grandemente a beleza do ouro e o rico artesanato da tigela. Ele
avançou para o precioso objeto e segurou-o. Ao agarrar a tigela, suas mãos
ficaram presas, bem como seus pés prenderam-se à placa acima da qual estava
colocada a tigela. Toda a sua alegria o abandonou para que ele não pudesse
proferir sequer uma palavra. E Pryderi ficou ali, imóvel.
Manawyddan esperou por ele até perto do fim do dia. Já era bem tarde quando,
estando certo de que não teria novas de Pryderi ou dos cães, Manawyddan
retornou ao palácio. Assim que entrou, Rhiannon olhou para ele.
- Onde - disse ela - estão vosso companheiro e vossos cães?
- Vede que aventura - respondeu Manawyddan - ocorreu comigo.
E contou-lhe tudo.
- Fostes um mau companheiro - Rhiannon acusou-o - e um companheiro bom
haveis perdido.
Com essas palavras, ela saiu e seguiu rumo ao castelo, de acordo com a
direção que ele lhe indicara. O portão do castelo, encontrou-o aberto, Ela
não estava nada assustada e entrou. Tão logo pôs os pés dentro do castelo,
percebeu Pryderi segurando a tigela e dirigiu-se até ele.
- Ó meu senhor - ela disse -, que estais fazendo aqui?
Ela agarrou a tigela com ele e, assim que o fez, suas mãos prenderam-se à
tigela e seus pés, à placa. Ficou também incapaz de dizer uma só palavra.
Anoiteceu então e um trovão se fez ouvir. Uma névoa caiu sobre eles e o
castelo desapareceu, levando Rhiannon e Pryderi.
V. A segunda viagem para Lloegyr
Quando Cicfa, a filha de Gwynn Gloyw, viu que no palácio não havia ninguém
além dela mesma e de Manawyddan, entristeceu-se tanto que não lhe
interessava mais se iria viver ou morrer. Percebeu-o Manawyddan:
- Estais enganada - disse ele - se é por medo de mim que vos entristeceis.
Chamo o Céu como testemunha de que jamais vistes amizade mais pura do que
esta que terei para convosco enquanto o Céu desejar que sejais assim.
Declaro-vos que, estivesse eu na aurora da minha juventude, ainda assim
manteria minha lealdade para com Pryderi e hei de mantê-la também para
convosco. Portanto, não tenhais medo de mim. Tomo o Céu como testemunha de
que encontrareis em mim toda a amizade que puderdes desejar e que estiver em
meu poder mostrar-vos, durante todo o tempo em que agradar ao Céu prolongar
nossa tristeza e aflição.
- O Céu vos recompense - ela disse -, era esse o julgamento que eu fazia de
vós.
A jovem dama tomou então coragem e ficou mais alegre.
- Na verdade, senhora - falou Manawyddan -, não é adequado para nós ficarmos
aqui, pois perdemos nossos cães e não podemos conseguir comida. Partamos
para Lloegyr, será mais fácil encontrarmos sustento lá.
- Com satisfação, senhor - Cicfa respondeu -, é assim que faremos.
- Senhor - ela perguntou -, qual carreira seguireis? Escolhei uma que seja
decente.
- Nenhuma outra escolherei - ele respondeu - senão a de fabricar sapatos,
como fiz anteriormente. - Senhor, tal ofício não é adequado para um homem de
nascimento tão nobre quanto vós.
- Entretanto, irei conformar-me com isso.
Ele começou então a exercer seu ofício e fez todo seu trabalho com o melhor
couro que pôde obter na cidade. Como havia feito no outro lugar, mandou que
fechos de ouro fossem fabricados para os sapatos. Exceto ele mesmo, todos os
sapateiros da cidade ficaram desocupados, sem trabalho. Pois, enquanto
podiam obtê-los de Manawyddan, nenhum sapato ou meia eram comprados de
qualquer outro. Assim permaneceram por um ano, até que os sapateiros
tornaram-se invejosos e reuniram-se para decidir o que fazer em relação a
ele. Mas Manawyddan foi avisado disso e contaram-lhe que os sapateiros
haviam concordado em juntar-se para matá-lo.
- Portanto, senhor - exclamou Cicfa -, devemos suportar isso desses
campônios?
- Não,voltaremos para Dyfed.
Assim, rumo a Dyfed eles partiram.
VI. Retorno a Dyfed
As três plantações e o assalto dos ratos
Manawyddan, ao iniciar a viagem de retorno a Dyfed, levou consigo um fardo
de trigo. Ele prosseguiu em direção a Narberth e lá habitou. Nunca esteve
ele mais feliz do que ao ver Narberth outra vez e as terras onde se
acostumara a caçar com Pryderi e Rhiannon. Ele habituou-se a pescar e caçar
em suas terras. Manawyddan começou a preparar um terreno e semeou uma
plantação e uma segunda e uma terceira. Trigo algum no mundo jamais brotou
melhor. E as três plantações prosperaram com perfeito crescimento e nunca
homem algum viu um trigal tão belo quanto esse.
Passaram-se as estações do ano até que a colheita chegou. Ele foi olhar uma
de suas lavouras e viu que estava madura.
- Vou ceifar isto amanhã - ele disse.
Naquela noite ele voltou a Narberth e pela manhã bem cedo, com a chegada da
aurora, ele foi ceifar a plantação. Ao chegar lá, nada encontrou além da
palha nua. Cada uma das espigas de trigo fora cortada da haste. Todas as
espigas haviam sido levadas embora, não restando nada além da palha. E com
isso ele ficou grandemente espantado.
Ele foi então examinar outro trigal e viu que também estava maduro.
- Certamente - disse ele -, este eu virei ceifar amanhã.
E pela manhã ele veio com a intenção de ceifá-lo. Ao chegar lá, nada
encontrou além da palha nua.
- Ó Céu cheio de graças - ele exclamou -, eu sei que aquele que começou
minha ruína está completando-a e também destruiu o país comigo.
Ele foi então examinar a terceira plantação e, quando chegou lá, encontrou
um trigo melhor do que jamais fora visto e também este estava maduro.
- Que o mal me castigue - disse ele - se eu não vigiar aqui esta noite. Quem
quer que tenha levado os outros grãos virá da mesma maneira para carregar
estes. E eu descobrirei quem é. Assim, ele apanhou suas armas e começou a
vigiar a lavoura. Ele contara a Cicfa tudo que havia acontecido.
- Na verdade - ela perguntou -, que pensais fazer?
- Vigiarei a plantação esta noite.
Ele foi vigiar o trigal. À meia-noite, então, surgiu o maior tumulto do
mundo. Ele olhou e viu a maior multidão de ratos do mundo, tão grande que
não poderia ser contada nem medida. Ele não soube o que era até que os ratos
abriram caminho pela plantação; cada um deles subia pela haste e dobrava-a
com seu peso, cortava as espigas de trigo e levava-as embora, deixando
apenas a palha. Manawyddan viu que não havia uma só haste sem um rato
pendurado nela. Todos eles seguiam seu caminho, carregando as espigas
consigo.
Com ira e fúria ele correu para os ratos, mas não pôde aproximar-se deles
mais do que se fossem mosquitos ou pássaros no ar, exceto por um só que,
embora lento, ia tão depressa que um homem a pé dificilmente poderia
alcançá-lo. Ele correu atrás desse, apanhou-o e colocou-o em sua luva,
amarrando a abertura com uma corda e levando-o consigo ao retornar ao
palácio. Ele então chegou ao salão onde Cicfa estava e acendeu um fogo. Ele
pendurou a luva pela corda em um gancho na parede.
- Que tendes aí, senhor? - Cicfa quis saber.
- Um ladrão - respondeu Manawyddan - que encontrei roubando-me.
- Que tipo de ladrão poderia ser, meu senhor, que podeis colocá-lo dentro de
vossa luva?
- Já vos direi.
Manawyddan mostrou-lhe então como seus campos tinham sido devastados e
destruídos e como os ratos tinham vindo ao último dos campos bem sob seus
olhos.
- E um deles era menos ágil que os demais e está agora em minha luva.
Enforcá-lo-ei amanhã e, pelo Céu, se a todos eu tivesse, a todos eu
enforcaria.
- Meu senhor - ela disse -, isso é espantoso, mas ainda assim seria
impróprio para um homem da vossa dignidade ser visto a enforcar um ser
repugnante como esse. E, se agirdes bem, não vos ocupareis dessa criatura,
mas deixareis que se vá.
- A aflição recaia sobre mim se, podendo pegá-los, eu não os enforcasse a
todos. Mas este único que tenho, irei enforcá-lo.
- Na verdade, senhor, não há razão pela qual eu socorreria esse verme, além
de impedir que o descrédito recaia sobre vós. Fazei portanto, senhor, como
quiserdes.
- Soubesse eu de qualquer razão no mundo por que o devêsseis socorrer, eu
aceitaria vosso conselho em relação a esse assunto. Mas como não conheço
nenhuma, senhora, estou decidido a destruí-lo.
- Fazei-o então de boamente - disse ela.
VII. Libertai o rato!
Então ele foi para o gorsedd de Narberth levando o rato consigo. Ele montou
duas forquilhas na parte mais alta do gorsedd. Enquanto fazia isso, viu um
sábio vindo em sua direção, em velhas, pobres e esfarrapadas vestimentas. Há
sete anos Manawyddan não via naquele lugar nem homem, nem animal, ninguém
além daquelas quatro pessoas que haviam permanecido juntas até se perderem
duas delas.
- Meu senhor - disse o sábio -, um bom dia para vós.
- O Céu vos faça prosperar e minha saudação para vós. De onde vindes, ó
sábio? - perguntou Manawyddan.
- Eu venho de Lloegyr, onde estive cantando. Por quê o perguntais?
- Porque nos últimos sete anos não vi homem algum por aqui, exceto quatro
segregados e vós mesmo, neste momento.
- Na verdade, senhor, atravesso esta terra para chegar à minha própria. E
que trabalho estais fazendo, senhor?
- Estou enforcando um ladrão que apanhei a roubar-me.
- Que tipo de ladrão é esse? - perguntou o sábio. - Vejo em vossa mão uma
criatura semelhante a um rato e parece muito impróprio para um homem da
vossa posição tocar um ser assim tão asqueroso como esse. Deixai que se vá
em liberdade.
- Não o deixarei partir, pelo Céu! - exclamou Manawyddan. - Eu o peguei
roubando-me e o destino de um ladrão eu hei de infligir-lhe. Irei
enforcá-lo.
- Senhor - disse ele -, antes de ver um homem da vossa posição fazendo um
trabalho como esse, prefiro dar-vos uma libra que recebi como gratificação
para que deixeis o animal partir livre.
- Eu não o deixarei partir, pelo Céu, e tampouco o venderei!
- Como o quiserdes, senhor. Exceto pelo fato de que eu não desejaria ver um
homem de posição igual à vossa tocando um animal como esse, eu não me
importo absolutamente.
E o sábio seguiu seu caminho.
Enquanto ele estava colocando a trave sobre as duas forquilhas, um sacerdote
veio em sua direção montado num cavalo coberto com arreios.
- Um bom dia para vós, senhor - disse ele.
- O Céu vos faça prosperar - Manawyddan respondeu -; vossa benção.
- A benção do Céu esteja convosco. E o que, senhor, estais fazendo?
- Estou enforcando um ladrão que apanhei a roubar-me.
- Que tipo de ladrão, senhor?
- Uma criatura em forma de rato. Esteve me roubando e vou infligir-lhe o
destino de um ladrão.
- Senhor, antes de ver-vos tocando esse asqueroso, eu preferiria comprar-lhe
a liberdade.
- Pela minha confissão do Céu, não irei vendê-lo nem tampouco libertá-lo.
- É verdade, senhor, que não é nada digno de se comprar, mas, a ver que vos
estais sujando por tocardes nessa criatura repulsiva, prefiro dar-vos três
libras para que o deixeis ir.
- Pelo Céu, eu não aceitarei qualquer valor por ele. Será enforcado como
deve ser.
- De boa vontade, senhor, fazei o que vos der satisfação.
E o sacerdote seguiu seu caminho.
Manawyddan então passou o laço pelo pescoço do rato e, quando estava a ponto
de enforcá-lo, viu a comitiva de um bispo, com seus cavalos de aparato e
servidores. E o próprio bispo foi em sua direção. Manawyddan parou o que
estava fazendo.
- Senhor Bispo, vossa benção.
- A benção do Céu esteja convosco. Que trabalho estais fazendo?
- Enforcando um ladrão que apanhei a roubar-me.
- Isso que vejo em vossa mão não é um rato?
- Sim. E me roubou.
-Uma vez que cheguei na hora de sua condenação, vou resgatá-lo de vós.
Dar-vos-ei sete libras por ele, o que é preferível a ver um homem de posição
igual à vossa destruindo uma criatura repugnante tão vil quanto essa.
Deixai-o partir e tereis o dinheiro.
- Ao Céu declaro que não o deixarei partir!
- Se não o quereis libertar por essa quantia, dar-vos-ei vinte e quatro
libras em dinheiro vivo para que o solteis.
- Não o libertarei por quantia alguma, pelo Céu!
- Se não o quereis libertar pelo que já vos ofereci, dar-vos-ei todos os
cavalos que vedes nesta planície e as sete cargas da minha bagagem e os sete
cavalos sobre os quais estão.
- Pelo Céu, não o aceitarei - Manawyddan replicou.
- Uma vez que não o quereis libertar por tudo que já vos ofereci, dizei qual
é vosso preço.
- É o que farei. Quero que Rhiannon e Pryderi sejam libertados.
- Isso obtereis.
- Ainda assim, pelo Céu, não libertarei esse rato.
- Então que mais quereis?
- que o feitiço e a ilusão sejam removidos das Sete Províncias de Dyfed.
- Isso também obtereis. Deixai, portanto, que o rato parta livre.
VIII. Llwyd
Pryderi e Rhiannon são libertados
- Pelo Céu que não o libertarei. Devo saber quem é esse rato.
- É minha esposa.
- Ainda mesmo que o seja, não a libertarei. Por quê ela veio até mim?
- Para despojar-vos. Eu sou Llwyd, o filho de Cilcoed, e lancei o
encantamento sobre as Sete Províncias de Dyfed. E foi para vingar Gwawl, o
filho de Clud, pela amizade que lhe dedicava, que lancei o encantamento. Em
Pryderi eu vinguei Gwawl, o filho de clud, pelo jogo do "Texugo na Bolsa",
que Pwyll Pen Annwn precipitadamente jogou com ele na corte de Hefeydd Hen.
E, quando se soube que havíeis chegado para viver nesta terra, todos os de
minha casa vieram e imploraram-me que os transformasse em ratos para que
pudessem destruir vossos grãos. foram esses mesmos que vieram na primeira
noite, bem como na segunda e destruíram vossas duas plantações. Na terceira
noite vieram a mim minha esposa e as damas da Corte, suplicaram-me que as
transformasse e assim eu fiz. Porém, ela está grávida. Não fosse isso e vós
não poderíeis tê-la apanhado. No entanto, uma vez que aconteceu e ela foi
presa, irei devolver-vos Pryderi e Rhiannon. Retirarei também o feitiço e a
ilusão de Dyfed. Agora já vos contei quem ela é. Deixai, pois, que se vá.
- Não a libertarei, pelo Céu.
- O que mais quereis?
- Vede o que devo ter: apromessa de que nunca vos vingareis por isto, seja
sobre Pryderi, Rhiannon ou sobre mim mesmo.
- Tudo obtereis. Na verdade, agistes com sabedoria ao pedí-lo, pois sobre
vossa cabeça poderia ter recaído todo esse problema.
- Sim, foi por receio de que assim ocorresse que fiz tal pedido.
- Dai agora a liberdade a minha esposa.
- Não o farei, pelo Céu, até que veja Pryderi e Rhiannon livres comigo.
- Vede, ali vêm eles - respondeu Llwyd.
Imediatamente surgiram Pryderi e Rhiannon. Manawyddan ergueu-se para
encontrá-los, saudou-os e sentou-se a seu lado.
- Ah, príncipe, deixai agora que parta minha esposa - disse o bispo. - Já
não recebestes tudo quanto pedistes?
- Alegremente a libertarei.
E no mesmo instante soltou-a.
Llwyd então a tocou com uma vara mágica e ela transformou-se numa jovem, a
mais bela jamais vista.
-Olhai ao vosso redor e vereis vossa terra toda cultivada e povoada, como
esteve em seus melhores dias.
Manawyddan ergueu-se e olhou em volta. Viu todas as terras cultivadas e
cheias de rebanhos e habitações.
- Qual servidão - ele perguntou - foi imposta a Pryderi e Rhiannon?
- Pryderi teve as aldravas do portão do meu palácio sobre seu pescoço e
Rhiannon usou a coleira dos burros depois que passaram a carregar feno em
seus pescoços. Essa a servidão que lhes foi imposta.
Em vista de tal servidão, esta história é chamada "O Mabinogi de Mynnweir e
Mynord".
E assim termina esta parte do Mabinogi.
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