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Math, o Filho de Mathonwy
I. A paixão de Gilfaethwy
Math, o filho de Mathonwy, era o senhor de Gwynedd e Pryderi, o filho de
Pwyll, era o senhor das vinte e uma Províncias do Sul. Estas eram as sete
províncias de Dyfed, as sete províncias de Morganwc, as quatro províncias de
Ceredigiawn e as três de Ystrad Tywi.
Naquele tempo, Math, o filho de Mathonwy, não podia existir a não ser que
seus pés estivessem no colo de uma donzela, exceto quando se estivesse
preparando para o tumulto da guerra. A donzela que estava com ele era
Goewin, a filha de Pebin de Dol Pebin, em Arfon, e ela era, entre as
donzelas conhecidas por lá, a mais bela de sua época.
Math sempre habitou em Caer Dathyl, em Arfon. Ele não era capaz de percorrer
o país, mas Gilfaethwy, o filho de Don, e Eneyd, o filho de Don, seus
sobrinhos, os filhos de sua irmão, juntamente com seus domésticos,
percorriam o país em seu lugar.
A donzela estava continuamente com Math e a afeição de Gilfaethwy, o filho
de Don, recaiu sobre ela. Ele amou-a tanto que não sabia mais o que fazer
por causa dela e logo sua cor, seu aspecto e seu ânimo mudaram por amor a
ela, de sorte que não era fácil reconhecê-lo.
Um dia, seu irmão Gwydion olhou-o firmemente.
- Jovem - ele disse -, o que te incomoda?
- Por quê? - replicou o outro. - Que vês em mim?
- Vejo que perdeste teu aspecto e tua cor. Portanto, o que te incomoda?
- Meu senhor irmão, o que me incomoda, não me serviria confessá-lo a quem
quer que fosse.
- Mas que poderia ser, minha alma?
- Tu sabes que Math, o filho de Mathonwy, é dono desta propriedade; que, se
homens sussurrarem juntos, ainda que em tom muito baixo, se o vento os
encontrar, ele ficará sabendo.
- Sim, mantém tua paz, conheço teu intento. Tu amas Goewin.
Quando viu que seu irmão conhecia seu desejo, Gilfaethwy soltou o mais
profundo suspiro do mundo.
- Fica em silêncio, minha alma, e não suspires - falou Gwydion. - Não é
assim que terás sucesso. Provocarei, se não puder ser de outro modo, um
levante de Gwynedd, Powys e Deheubarth para conseguir a donzela. Que a
partir de agora fique melhor o teu ânimo e eu farei os planos.
Assim, eles foram até Math, o filho de Mathonwy.
- Senhor - Gwydion disse -, ouvi dizer que chegaram ao sul certos animais
como nunca antes foram conhecidos nesta ilha.
- Como se chamam? - o rei perguntou.
- Porcos, senhor.
- E que tipo de animais são?
- São animais pequenos e sua carne é melhor que a dos bois.
- Então eles são pequenos?
- E mudam seus nomes. Agora são chamados suínos.
- Quem é o dono deles?
- Pryderi, o filho de Pwyll. Os animais foram-lhe enviados de Annwn por
Arawn, o rei de Annwn, e ainda mantêm aquele nome, meio pântano, meio porco.
- Realmente, de que modo podemos obtê-los de Pryderi?
- Eu irei, senhor, como um dentre doze sob o disfarce de bardos, procurar os
porcos.
- Mas pode ser que ele os recuse a ti.
- Minha viagem não será infrutífera, senhor. Não voltarei sem os suínos.
II. Na Corte de Pryderi
A magia de Gwydion
Ele e Gilfaethwy partiram e com eles outros dez homens. Eles chegaram a
Ceredigiawn, ao lugar agora chamado Rhuaddlan Teifi, onde ficava o palácio
de Pryderi. Sob o disfarce de bardos eles chegaram. Foram alegremente
recebidos e Gwydion foi acomodado ao lado de Pryderi naquela noite.
- De verdade - disse Pryderi -, eu ficaria muito feliz em ouvir uma história
de algum dos vossos homens.
- Senhor - falou Gwydion -, temos um costume pelo qual, na primeira noite em
que chegamos à Corte de um grande homem, quem recita é o chefe da canção.
Assim, com toda a boa vontade, eu contarei uma história.
Gwydion era o melhor contador de histórias do mundo. Naquela noite, ele
divertiu a Corte com um discurso agradável e contos, de tal maneira que
encantou a cada um na Corte e conversar com ele deu grande prazer a Pryderi.
Depois disso:
- Senhor - ele disse a Pryderi -, seria mais agradável para vós que um outro
cumprisse minha missão em relação a vós do que se eu mesmo vos dissesse o
que é?
- Não - respondeu Pryderi -, podeis falar livremente.
- Vede então, senhor, esta é a minha missão: obter de vós os animais que vos
foram enviados de Annwn.
- Realmente, seria a coisa mais fácil de conceder, não houvesse um acordo
entre mim e minha terra a respeito deles. O acordo é que não posso
desfazer-me deles até que tenham produzido o dobro do seu número.
- Senhor, eu posso liberar-vos de vossas palavras e este é o meio pelo qual
eu o farei: não me deis os suínos nesta noite, nem os recuseis a mim e
amanhã de manhã vos mostrarei uma troca por eles.
Gwydion e seus companheiros foram para o alojamento e deliberaram:
- Ah, meus homens, com o pedido que fiz não obteremos os suínos.
- Bem, como podem os animais ser conseguidos?
- Eu farei com que os obtenhamos - disse Gwydion.
Ele recorreu a suas artes e começou a trabalhar um encantamento. Fez com que
doze cavalos aparecessem e doze galgos, cada um deles com o peito branco e
tendo doze coleiras e doze correias que ninguém diria que fossem feitas de
outra coisa que não ouro. Sobre os cavalos havia doze selas e cada uma das
partes que deveria ser de ferro era inteiramente de ouro. As rédeas eram
feitas do mesmo artesanato. Com os cavalos e os cães ele foi até Pryderi.
- Bom dia para vós, senhor - ele disse.
- o Céu vos faça prosperar e saudações para vós.
- Senhor, eis para vós a libertação da palavra que dissestes na noite de
ontem sobre os suínos: que não os poderíeis dar, nem vender. Podeis
trocá-los pelo que é melhor. Eu darei estes doze cavalos, todos ajaezados
como estão, com suas selas e suas rédeas e os doze galgos, com suas
coleiras e correias e ainda os doze escudos dourados que ali vedes.
Esses escudos ele formara com um fungo.
- Bem - disse Pryderi -, vou aconselhar-me a esse respeito.
Eles deliberaram e decidiram dar os suínos a Gwydion, ficando com seus
cavalos, cães e escudos.
III. A fuga de Gwydion
Prepara-se a batalha entre Gwynedd e Dyfed
Então Gwydion e seus homens pediram-lhes licença e partiram com os porcos.
-Ah, meus companheiros - disse Gwydion -, é necessário viajarmos com
rapidez. A ilusão não vai durar uma hora além deste mesmo horário amanhã.
Naquela noite, eles viajaram até a parte superior de Ceredigiawn, até o
lugar que, por essa razão, é ainda chamado Mochdref. No dia seguinte,
coninuaram seu caminho através de Elenydd e, quando anoiteceu, chegaram à
cidade que, por esse motivo, também se chama Mochdref, entre Ceri e
Arwystli. Então foram adiante e, à noite, alcançaram aquele distrito em
Powys que passou assim a ser chamado Mochnant, onde pernoitaram. Eles
viajaram para a província de Rhos e o lugar onde permaneceram à noite é
ainda chamado Mochdref.
- Meus homens - disse Gwydion -, devemos prosseguir para a segurança de
Gwynedd com estes animais, pois há uma reunião de exércitos perseguindo-nos.
Eles viajaram para a maior cidade de Arllechwedd. Lá fizeram um chiqueiro
para os suínos e, por isso, o nome de Creuwyryon foi dado àquela cidade.
Depois de fazer o chiqueiro para os suínos, eles foram até Math, o filho de
Mathonwy, em Caer Dathyl. Quando chegaram lá, estava havendo uma mobilização
no país.
- Que novas há por aqui? - perguntaram eles.
- Pryderi está reunindo vinte e uma províncias para perseguir-vos -
responderam-lhes. -É surpreendente que tenhais viajado tão lentamente.
- Onde estão os animais em busca dos quais fostes? - quis saber Math.
- Construiu-se um chiqueiro para eles numa outra província.
Logo depois, eles ouviram as trombetas e o exército no país. Colocaram-se em
ordem, partiram e chegaram a Penardd, em Arfon.
IV. Gilfaethwy viola Goewin
À noite, o filho de Don e Gilfaethwy, seu irmão, retornaram a Caer Dathyl.
Gilfaethwy tomou o divã de Math, o filho de Mathonwy. Enquanto ele, sem a
menor cortesia, botava para fora da sala as outras donzelas, obrigava Goewin
a permanecer contra sua vontade.
Pela manhã, assim que viram o dia, eles voltaram ao lugar onde estava Math,
o filho de Mathonwy, com seu exército. Quando chegaram lá, os guerreiros
estavam deliberando sobre a localidade em que deveriam esperar a chegada de
Pryderi e dos homens do sul. Eles foram para o conselho e resolveu-se
aguardá-los nas fortalezas de Gwynedd, em Arfon. Dentro de dois fortes eles
se posicionaram, Maenor Penardd e Maenor Coed Alun. Lá Pryderi atacou-os e
teve lugar o combate. Grande foi a matança em ambos os lados, mas os homens
do sul foram forçados a fugir. Ele fugiram para o local que é agora chamado
Nant Call. Até lá os homens de Gwynedd os seguiram e fizeram uma vasta
matança entre os do sul, que novamente fugiram, indo para o lugar chamado
Dol Pen Maen. Ali os homens de Dyfed se detiveram e pediram para fazer a
paz.
V. A paz entre Gwynedd e Dyfed
A morte de Pryderi
Para que pudesse ter paz, Pryderi deu como reféns a Gwrgi Gwastra e a vinte
e três outros, filhos de nobres. Depois disso, eles viajaram em paz até
Traeth Mawr. Contudo, enquanto seguiam juntos para Melenryd, os homens que
iam a pé não podiam ser impedidos de disparar flechas. Pryderi despachou uma
embaixada para Math, a fim de pedir-lhe que proibisse seu povo de lutar e
deixasse a questão ser resolvida entre ele e Gwydion, o filho de Don, pois
fora este o provocador da contenda. E os mensageiros chegaram a Math.
- Chamo o Céu como testemunha de que, se isso for agradável a Gwydion, o
filho de Don, eu de boa vontade permitirei que assim seja. Jamais compelirei
quem quer que seja a lutar, a não ser que nós mesmos estejamos dispostos a
dar o melhor de nós.
- Realmente - disseram os mensageiros a Gwydion -, Pryderi disse que seria
mais justo que o homem que lhe causou esse dano opusesse seu próprio corpo
ao dele, deixando que o povo de Dyfed ficasse incólume.
- Declaro ao Céu que não pedirei ao povo de Gwynedd para lutar por minha
causa. Se for posível que eu mesmo lute com Pryderi, prazerosamente oporei
meu corpo ao dele.
Essa resposta levaram de volta a Pryderi, que disse:
- A ninguém mais, senão a mim mesmo, pedirei que lute por meus direitos.
Esses dois então chegaram ao local combinado, armaram-se e combateram.
Graças à força, à ferocidade e pela magia e encantamentos de Gwydion,
Pryderi foi morto. Enterraram-no em Maen Tyriawc, acima de Melenryd, e lá
está sua sepultura.
Tristes, os homens do sul voltaram para sua própria terra. Não era de causar
espanto que estivessem pesarosos, vendo que haviam perdido seu senhor,
muitos de seus melhores guerreiros e a maior parte de seus cavalos e armas.
Cheios de alegria e triunfantes voltaram os homens de Gwynedd.
- Senhor - disse Gwydion a Math -, não seria adequado para nós que
soltássemos os reféns que nos foram dados pelos homens do sul como garantia
de paz? Pois não devemos jogá-los na prisão.
- Deixa então que sejam libertados - concordou o rei.
Assim, aquele jovem e os outros reféns que estavam com ele foram libertados
para seguir os homens do sul.
VI. Math toma Goewin como esposa
A punição de Gwydion e Gilfaethwy
O próprio Math foi adiante para Caer Dathyl. Gilfaethwy, o filho de Don, e
todo o pessoal da casa que estava com ele foram percorrer Gwynedd, como
estavam habituados, sem retornarem à Corte. Math foi diretamente para sua
câmara e ordenou que um lugar lhe fosse peparado para reclinar-se, de modo
que pudesse colocar seus pés no colo da donzela.
- Senhor - disse Goewin -, buscai outra donzela para acomodar vossos pés,
pois sou agora uma esposa.
- Que significa isso? - o rei perguntou.
- Uma ataque, senhor, inesperadamente foi feito contra mim. Eu não fiquei
quieta, mas não havia ninguém na Corte que o pudesse saber. Esse ataque foi
feito por vossos sobrinhos, os filhos de vossa irmã. Gwydion, o filho de
Don, e Gilfaethwy, o filho de Don. Fizeram o mal contra mim e vos trouxeram
desonra.
- Na verdade - ele exclamou -, irei fazer tudo que estiver em meu poder
quanto a esse assunto! Contudo, primeiro farei com que sejas recompensada e
depois procurarei uma indenização para mim mesmo. Quanto a ti, serás minha
esposa e a posse de meus domínios darei em tuas mãos.
Gwydion e Gilfaethwy não se aproximaram da Corte, mas permaneceram nos
confins do país até que se tornou proibido dar-lhes comida e bebida.
Primeiramente, não chegaram perto de Math, mas por fim tiveram de fazê-lo.
- Senhor - disseram eles -, bom dia para vós.
- Bem, é para compensar-me que viestes?
- Senhor, obedeceremos vosso desejo.
- Pelo meu desejo, eu não teria perdido meus guerreiros, nem tantas armas
quantas perdi! Não podeis compensar-me pela minha vergonha, isso sem falar
na morte de Pryderi. Porém, como viestes aqui vos colocar à minha
disposição, agora mesmo começarei a punir-vos!
Ele pegou seu bastão mágico e golpeou Gilfaethwy, mudando-o em cervo.
Rapidamente agarrou Gwydion para que não escapasse e golpeou-o com o mesmo
bastão, transformando-o em outro cervo.
- Uma vez que agora estais presos, desejo que partais juntos e sejais
companheiros e possuais a mesma natureza das criaturas cuja forma ostentais.
Vinde a mim dentro de doze meses a partir de hoje.
Ao término de um ano a partir daquele dia, houve um alto barulho sob o muro
da câmara e o latido dos cães do palácio junto com o barulho.
- Olhai - disse Math - o que está lá fora.
- Eu olhei, senhor - disse alguém -, há dois cervos e um filhote com eles.
O rei ergueu-se, foi para fora e, ao sair do palácio, viu os três animais.
Ele ergueu seu bastão e falou:
- Como cervos fostes no ano passado, no ano que há de vir sereis porcos
selvagens.
Golpeou-os imediatamente com o bastão mágico.
- Este jovem eu pegarei e ordenarei que seja batizado.
E o nome que lhe deu foi Hydwn.
- Ide e sede suínos selvagens e que tenhais a natureza de suínos selvagens.
Que estejais sob este muro dentro de doze meses a partir de hoje.
No fim do ano, o latido dos cães foi escutado sob o muro da câmara real. A
Corte reuniu-se e logo o rei se ergueu e saiu. Ao chegar lá fora, viu três
animais. Foram estes os animais que ele viu: dois porcos selvagens das
florestas e um filhote bem crescido com eles, que era muito grande para sua
idade.
- Na verdade - disse Math -, este eu vou pegar e fazer com que seja
batizado.
Ele golpeou-o com seu bastão mágico e o filhote tornou-se um lindo jovem de
cabelos ruivos e o nome que o rei lhe deu foi Hychdwn.
- Agora, quanto a vós, como fostes porcos selvagens no ano passado, sereis
um casal de lobos pelo ano que está por vir.
Tocou-os imediatamente com seu bastão mágico e eles se tornaram lobos.
- Que sejais da natureza dos animais cuja semelhança está sobre vós e
retornai aqui sob este muro no prazo de doze meses a contar deste dia!
No mesmo dia ao fim do ano, ele escutou um clamor e um ladrido de cães sob o
muro da câmara real. O rei se levantou e saiu. Ao chegar, viu dois lobos e
um forte filhote com eles.
- Este eu vou pegar - disse Math - e fazer com que seja batizado. Há um nome
pronto para ele e é Bleiddwn. Agora esses três, tais são eles:
"Os três filhos de Gilfaethwy, o Falso,
os três fiéis combatentes,
Bleiddwn, Hydwn e Hychdwn, o Alto."
Então, ele golpeou os dois com seu bastão mágico e eles reassumiram sua
própria natureza.
- Ó homens, pelo erro que contra mim cometestes suficientes já foram vossa
punição e vossa desonra. Fazei agora um bálsamo precioso para estes homens,
lavai suas cabeças e aprontai-os.
Depois de preparados, eles foram até Math.
- Ó homens - disse o rei -, vós obtivestes paz e tereis igualmente amizade.
Dai-me vosso conselho, qual donzela devo buscar?
- Senhor - disse Gwydion, o filho de Don -, fácil é dar-vos conselho. Buscai
Arianrhod, a filha de Don, vossa sobrinha, filha de vossa irmã.
VII. Arianrhod
O nascimento de Dylan e Llew
Trouxeram a donzela até Math e ela entrou.
- Ah, jovem dama, és tu a donzela?
- Desconheço, senhor, outra que o seja mais do que eu.
Então Math pegou seu bastão mágico e depositou-o no chão.
- Passai por cima disto - ele disse - e saberei se és a donzela.
Ela passou sobre o bastão mágico e surgiu em seguida um belo e roliço menino
de cabelos loiros. Enquanto o menino gritava, ela se dirigia para a porta.
Logo uma pequena forma foi vista mas, antes que qualquer um pudesse dar uma
segunda olhada, Gwydion pegou-a, envolveu-a numa echarpe de veludo e a
escondeu. O lugar onde a ocultou foi o fundo de uma arca nos pés de sua
cama.
- Realmente - disse Math em relação ao belo menino de cabelos loiros -,
ordenarei que seja batizado e Dylan será o nome que lhe darei.
Eles assim batizaram o menino e, tão logo acabaram a cerimônia, ele
mergulhou no mar. Imediatamente, quando já estava no mar, ele mostrou sua
natureza e nadou tão bem quanto o melhor peixe que estivesse nas águas. Por
essa razão, foi chamado Dylan, o Filho da Onda. Debaixo dele jamais se
quebrou uma onda. E o golpe pelo qual encontrou a morte foi desferido por
seu tio Gofannon. Foi chamado "o terceiro golpe fatal".
Uma manhã, quando Gwydion estava deitado em sua cama, acordado, ele escutou
um choro dentro da arca que ficava nos pés. Embora não fosse alto, era o
bastante para que pudesse ouví-lo. Então ele se levantou depressa e abriu a
arca. Ao abrí-la, viu uma criança de colo estendendo os bracinhos das dobras
da echarpe e tirou-a dali de dentro. Ele pegou o menino em seus braços e
levou-o a um lugar onde sabia haver uma mulher que poderia amamentá-lo. Ele
combinou com a mulher que ela cuidaria do menino. E este foi assim
alimentado naquele ano.
No fim do ano, ele parecia, por seu tamanho, uma criança de dois anos. No
segundo ano, era um menino grande, capaz de ir sozinho à Corte. Quando
chegou à Corte, Gwydion notou-o e o menino tornou-se-lhe familiar, amando-o
mais do que a qualquer outra pessoa. O menino foi então educado na Corte até
os quatro anos de idade, quando então estava grande como se tivesse oito.
VIII. Arianrhod amaldiçoa Llew
Gwydion certo dia saiu caminhando e o menino seguiu-o. Ele foi para o
Castelo de Arianrhod, tendo o menino consigo. Quando entrou na Corte,
Arianrhod ergueu-se para encontrá-lo e deu-lhe as boas-vindas.
- O Céu te faça prosperar. Quem é o menino que te segue? - ela perguntou.
- Este jovem é teu filho.
- Ai! Que te aconteceu para me envergonhares assim? Por quê buscas minha
desonra e a guardas por tanto tempo?
- A menos que suportes desonra maior do que eu estar criando um menino como
este, pequena será tua desgraça.
- Qual o nome do menino?
- Na verdade, ele ainda não tem nome.
- Bem, eu vou lançar este destino sobre ele: jamais terá um nome até que de
mim o receba.
- Ante o Céu eu seja testemunha de que és uma mulher malvada! Contudo, o
menino terá um nome, por mais desagradável que isso possa ser para ti. E,
quanto a ti, o que te aflige é que já não és chamada uma donzela!
Furioso, ele partiu imediatamente e voltou a Caer Dathyl, onde passou aquela
noite.
No dia seguinte, ele se levantou e tomou o menino consigo. Foram ambos
caminhar pela orla do mar, entre o lugar onde estavam e Aber Menei. Lá,
Gwydion viu alguns juncos e algas marinhas e transformou-os em um barco. E
de madeira seca e juncos fez couro de cordovão em grande quantidade. Deu-lhe
cor de tal maneira que jamais alguém viu couro mais belo do que esse. Fez
então uma vela para o barco. Ele e o menino entraram no porto do Castelo de
Arianrhod. Gwydion começou a dar forma aos sapatos e a costurá-los até ser
observado pelos habitantes do castelo. Quando soube que já o estavam
observando, disfarçou seu aspecto, colocando outra aparência sobre si mesmo
e sobre o menino, a fim de que não os reconhecessem.
- Que homens são aqueles naquele barco? - perguntou Arianrhod.
- São sapateiros - responderam-lhe.
- Ide e vede que tipo de couro possuem e que espécie de trabalho fazem.
Foram, portanto, ao encontro deles. Ao chegarem, Gwydion estava dando a cor
a um couro de cordovão e dourando-o. Os mensageiros retornaram e contaram-no
a Arianrhod.
- Bem, tomai a medida do meu pé e dizei ao sapateiro que faça sapatos para
mim.
Assim, ele fez sapatos para ela, mas não de acordo com a medida, porém
maiores. Os sapatos foram levados a Arianrhod e ela viu que estavam muito
grandes.
- Estes ficaram muito grandes, mas ele receberá seu pagamento - ela disse. -
Deixai-o fazer também outros que sejam menores do que estes.
Gwydion fez outros sapatos que eram muito menores do que o pé dela e
enviou-os ao castelo.
- Dizei-lhe que nestes meus pés não cabem.
- Na verdade - falou Gwydion -, eu não lhe farei mais sapatos, a não ser que
veja seu pé.
IX. Como Llew obteve seu nome
Assim, ela desceu ao barco e quando chegou lá Gwydion estava dando forma aos
sapatos e o menino os estava costurando.
- Ah, senhora - disse ele -, bom dia para vós.
- O Céu vos faça prosperar. Fico surpresa de que não consigais fazer sapatos
de acordo com uma medida.
- Eu não podia, mas agora serei capaz.
Logo uma enorme carriça pousou no assoalho do barco e o menino atirou contra
ela, acertando-a na pata, entre o tendão e o osso. Arianrhod sorriu.
- Realmente - ela disse -, foi com mão firme que o leão mirou.
- Que o Céu não te recompense, mas ele já ganhou um nome. E é um nome bom o
bastante. Llew Llaw Gyffes ("Leão da Mão Firme") será chamado a partir de
agora.
O trabalho então desapareceu em algas e juncos. Ele não mais continuou a
fazê-lo. Por essa razão, foi chamado "o terceiro sapateiro de ouro".
- Na verdade - disse ela -, não prosperareis da melhor forma fazendo-me o
mal.
- Não te fiz mal algum ainda - respondeu Gwydion.
Nesse momento, ele devolveu ao menino e a si mesmo suas próprias formas.
- Bem - disse Arianrhod -, vou lançar um destino sobre essa criança: ele
nunca terá armas e armadura até que eu mesma o invista com elas.
- Pelo Céu, seja tua malícia qual for, ele terá armas.
Eles então foram para Dinas Dinllef. Lá, Gwydion criou Llew Llaw Gyffes até
que este pudesse controlar qualquer cavalo e fosse perfeito em todas as
qualidades, em força e altura. Gwydion, porém, viu que Llew estava abatido
pela falta de cavalos e armas. Chamou-o e disse:
- Ah, jovem, amanhã partiremos juntos numa missão. Por isso, fica mais
alegre do que estás agora.
- É o que quero - Llew respondeu.
X. Gwydion engana Arianrhod novamente
Na manhã seguinte, quando o dia raiava, eles se levantaram. Foram ao longo
da costa do mar, rumando para Bryn Aryen. No alto de Cefn Clydno
equiparam-se com cavalos e seguiram em direção ao Castelo de Arianrhod. Eles
mudaram suas formas e foi sob a semelhança de dois rapazes que se
apresentaram ante o portão, mas o aspecto de Gwydion era mais calmo que o do
outro.
- Porteiro - disse ele -, entra e dize que aqui estão bardos provenientes de
Glamorgan.
E o porteiro entrou.
- As boas-vindas do Céu estejam com eles, deixa-os entrar - disse Arianrhod.
Com grande alegria foram saudados. O salão estava preparado e eles foram
comer. Quando a refeição estava terminada, Arianrhod conversou com Gwydion
sobre contos e histórias. Gwydion era um excelente narrador de contos.
Quando chegou o momento de deixarem os festejos, um quarto estava pronto
para eles, que foram descansar.
Gwydion levantou-se logo que o sol começou a se por e chamou a si sua magia
e seu poder. No momento em que o dia raiou, ressoou pela terra um grande
alvoroço, com trombetas e gritos. Quando já era dia, eles ouviram uma batida
na porta do quarto e escutaram Arianrhod perguntando se poderia abrí-la. O
rapaz ergueu-se e abriu-lhe a porta. Arianrhod entrou acompanhada de uma
donzela.
- Ah, bons homens - disse ela -, estamos em grandes apuros.
- Sim, é verdade - concordou Gwydion. - Escutamos trombetas e gritos. Que
pensais possam ser?
- Na verdade, sequer podemos ver a cor do oceano por causa dos navios, lado
a lado. Os guerreiros estão vindo à terra com toda a rapidez possível. E que
podemos fazer?
- Senhora, nada podemos fazer além de fechar o castelo e defendê-lo da
melhor maneira que conseguirmos.
- É verdade, que o Céu vos recompense. Vós dois o defendereis. E aqui
encontrareis abundância de armas.
Imediatamente, ela foi buscar armas e retornou com duas donzelas, trazendo
consigo couraças para dois homens.
- Senhora - disse ele -, armai este moço e eu me aprontarei com a ajuda de
vossas donzelas. Depressa, eu ouço o barulho dos homens aproximando-se.
- Assim farei de boa vontade.
Ela armou-o completamente e com grande satisfação.
- Já terminastes de armar o jovem? - perguntou Gwydion.
- Sim, terminei - Arianrhod respondeu.
- Da mesma forma terminei eu. Vamos agora tirar nossas armas, não temos
necessidade delas.
- Por quê? Há um exército em volta da casa!
- Cara senhora, não há exército algum aqui.
- Oh! - ela gritou. - De onde vem então todo esse tumulto?
- Esse tumulto foi apenas para quebrar tua profecia e conseguir armas para
teu filho.
E agora ele tem armas sem que deva qualquer agradecimento a ti.
- Pelos Céus, és um homem perverso! Muitos jovens podem ter perdido suas
vidas pelo tumulto que provocaste hoje nesta província. Vou agora lançar um
destino sobre este jovem - ela disse. - Ele jamais terá uma esposa da raça
que agora habita esta terra.
- Em verdade - falou Gwydion -, sempre foste uma mulher maliciosa e ninguém
nunca te pôde suportar. Todavia, uma esposa ele terá.
XI. A criação de Blodeuwedd
Logo depois, eles foram a Math, o filho de Mathonwy, e queixaram-se muito
amargamente de Arianrhod. Gwydion também mostrou-lhe como havia se esforçado
para conseguir armas para o rapaz.
- Bem - disse Math -, procuraremos, eu e tu, por meio de encantamentos e
ilusão, formar com flores uma esposa para ele. Llew chegou agora à altura de
um homem e é o mais agradável jovem jamais visto.
Eles apanharam então as flores do carvalho, as flores da giesta e as flores
da ulmária. Com elas criaram uma donzela, a mais bela e graciosa que um
homem jamais viu. Eles a batizaram e deram-lhe o nome de Blodeuwedd.
Depois que ela se tornou sua noiva e todos festejaram, Gwydion disse:
- Não é fácil para um homem manter-se sem posses.
- É verdade - disse Math. - Eu darei ao rapaz a melhor província para
governar.
- Senhor - disse ele -, que província é essa?
- A província de Dinodig - ele respondeu.
Tal lugar chama-se nestes dias Eifionydd e Ardudwy. O lugar na província
onde ele morou era um ponto chamado Mur y Castell, nos confins de Ardudwy.
Lá ele habitou e reinou e tanto ele quanto seu governo eram amados por
todos.
Certo dia, ele seguiu para Caer Dathyl para visitar Math, o filho de
Mathonwy. No dia em que ele iniciou a viagem para Caer Dathyl, Blodeuwedd
chegou à sua Corte. Ela escutou o som de um chifre de caça sendo soprado
viu um cervo cansado passar, perseguido por cães e caçadores. Depois dos
cachorros e dos caçadores vinha uma multidão de homens a pé.
- Mandai um jovem - disse ela - para perguntar que turba possa ser aquela.
Assim, o jovem foi e inquiriu quem seriam eles.
- Aquele - disseram eles - é Goronwy Pebyr, o senhor de Penllyn.
E assim o jovem lhe falou.
Goronwy Pebyr perseguiu o cervo, vindo a apanhá-lo perto do rio Cynfael,
onde o matou. Esfolando o cervo e dando pedaços aos seus cães, ele ficou lá
até que a noite começou a fechar-se. Como o dia estava desaparecendo e a
noite se aproximava, ele chegou ao portão da Corte.
- Na verdade - disse Blodeuwedd -, o príncipe vai falar mal de nós se, a
esta hora, deixarmos que parta para outra terra sem convidá-lo a entrar.
- Sim, senhora - concordaram eles -, será mais apropriado convidá-lo a
entrar.
Mensageiros foram então mandados ao seu encontro e convidaram-no a entrar.
Ele aceitou contente a oferta e foi para a Corte. Blodeuwedd veio recebê-lo
e saudá-lo, dando-lhe as boas-vindas.
- Senhora - disse ele -, que o Céu vos pague por vossa gentileza.
XII. Blodeuwedd apaixona-se por Goronwy Pebyr
A conspiração contra Llew
Quando já haviam desmontado, foram sentar-se. Blodeuwedd olhou para o
hóspede e, desde esse momento, encheu-se de amor por ele. Ele a contemplou e
o mesmo pensamento que a invadira preencheu-o também, de forma que ele não
pôde esconder-lhe que a amava , mas declarou-se a Blodeuwedd, que ficou por
isso tomada de felicidade. Toda a conversa deles foi sobre a afeição e o
amor que sentiam um pelo outro e que havia surgido em espaço não maior do
que uma noite. E essa noite passaram um na companhia do outro.
No dia seguinte, ele quis partir. Mas ela disse:
- Suplico-te que não me deixes hoje.
E naquela noite ele permaneceu. Tentavam descobrir um meio de ficar sempre
juntos.
- Não há outra possibilidade - falou Goronwy - além de te esforçares para
saber de Llew Llaw Gyffes como ele pode ser levado à morte. E isso deve ser
feito sob a aparência de solicitude para com ele.
No dia seguinte, Goronwy quis partir.
- Aconselho-te a não me deixares hoje - ela disse.
- Porque me pedes, não partirei. Contudo, há o perigo de que o chefe que
possui este castelo possa retornar à casa.
- Amanhã - ela respondeu - sem dúvida permitirei que sigas teu caminho.
No dia seguinte, ele quis partir e ela não o impediu.
- Sê cuidadosa - disse Goronwy - com o que te disse.. Conversa muito com ele
e sob o disfarce das brincadeiras do amor procura descobrir como é possível
dar-lhe a morte.
Llew llaw Gyffes voltou para casa naquela noite. Eles passaram o dia
conversando, ouvindo os menestréis e festejando. À noite, foram descansar e
ele falou com Blodeuwedd uma vez e falou-lhe ainda uma segunda vez mas, por
mais que fizesse, não obteve dela palavra alguma.
- O que te incomoda? Estás bem?
- Eu estava pensando - ela disse - sobre aquilo que jamais pensaste em
relação a mim. Eu ficaria cheia de tristeza por tua morte, caso partisses
mais cedo do que eu.
- O Céu te recompense por tua preocupação por mim mas, até que o próprio Céu
determine, eu não serei morto com facilidade.
- Pelo amor do Céu e pelo meu próprio, mostra-me como podes ser morto. Minha
memória é melhor do que a tua para recordá-lo.
- Digo-te com prazer. Não posso ser morto facilmente, a não ser por um
ferimento. A lança pela qual eu for atingido deve ser preparada no decorrer
de um ano. Nada deve ser feito em relação a isso exceto durante o sacrifício
dos domingos.
- Isso é verdaeiro?
- Está conforme a verdade. E eu não posso ser morto dentro de uma casa, nem
fora dela. Não posso ser morto estando a cavalo, nem a pé.
- Realmente, de que maneira podes ser morto?
- Já te digo. Preparando-se um banho para mim ao lado de um rio,
colocando-se um teto sobre o caldeirão, cobrindo-o bem e firmemente. Deve-se
trazer um bode e deixá-lo ao lado do caldeirão. Então, se eu puser um pé no
dorso do bode e o outro na borda do caldeirão, qualquer um que me atingir
poderá provocar minha morte.
- Bem - disse ela -, agradeço ao Céu que seja fácil evitar tudo isso.
Depois de ouvir essas palavras, ela não esperou um momento sequer para
mandar uma mensagem a Goronwy. Este trabalhou para fazer a lança e, em doze
meses a contar daquele dia, ela estava pronta. E, no mesmo dia em que a
terminou, Goronwy ordenou que Blodeuwedd fosse informada.
- Senhor - ela disse -, estive pensando sobre como é possível ser verdade o
que anteriormente me disseste. Poderias mostrar-me de que modo seria
possível ficares ao mesmo tempo sobre a borda do caldeirão e sobre um bode,
se eu preparar o banho para ti?
- Eu te mostrarei - disse ele.
Ela então mandou mensagem a Goronwy e sugeriu que ele ficasse emboscado na
colina agora conhecida como Bryn Cyfergir, no banco do rio Cynfael. Ela
também ordenou que fossem reunidas todas as cabras da província e levadas ao
outro lado do rio, em direção oposta a Bryn Cyfergir.
No dia seguinte, ela falou assim:
- Senhor, eu ordenei que o telhado e o banho fossem preparados e eis que
estão prontos.
- Bem, eu irei com prazer examiná-los.
um dia depois, Llew veio e examinou o banho.
- Entrarás no banho, senhor? - ela perguntou.
- É com prazer que o farei - ele disse.
Ele foi para o banho e começou a lavar-se.
- Senhor, vê os animais de que falaste como sendo chamados bodes.
- Bem, faze com que um deles seja trazido e colocado aqui.
O bode foi trazido. Llew ergueu-se do banho, pôs suas calças e colocou um pé
na borda do banho e o outro no dorso do bode.
XIII. Llew desaparece
Goronwy imediatamente surgiu da colina que é agora chamada Bryn Cyfergir.
Ele ficou sobre um pé só, arremessou o dardo envenenado e atingiu-o no lado.
A haste ficou para fora, mas a ponta do dardo permaneceu dentro do corpo de
Llew. Este voou sob a forma de uma águia, dando um grito terrível. Não foi
mais visto deste então.
Assim que ele partiu, Goronwy e Blodeuwedd foram juntos ao palácio, naquela
noite. No dia seguinte, Goronwy levantou-se a apoderou-se de Ardudwy. Depois
de tomar a terra, ela a governou, de forma que Ardudwy e Penllyn estavam
ambas sob seu domínio.
Essas notícias alcançaram Math, o filho de Mathonwy. Um grande peso e a
tristeza caíram sobre Math e muito mais sobre Gwydion do que sobre ele.
- Senhor - disse Gwydion -, não terei descanso até obter notícias de meu
sobrinho.
- Realmente - Math respondeu -, que o Céu seja tua força.
Gwydion partiu e começou a andar pelo país. Ele atravessou Gwynedd e Powys
até os confins. Quando já o havia feito, foi ao Arfon e avizinhou-se da casa
de um vassalo, em Maenawr Penardd. Ele chegou à casa e ficou lá naquela
noite. O dono da casa e seus domésticos voltaram e o último a vir foi o
porqueiro, a quem o dono da casa disse:
- Bem, jovem, tua porca veio esta noite?
- Veio - respondeu o rapaz - e neste momento já está com os porcos.
- Aonde vai essa porca? - quis saber Gwydion.
- Todos os dias, quando o chiqueiro é aberto, ninguém consegue ficar de olho
nela, nem sabe se ela corre por aí ou afunda terra adentro.
- Peço-te que me concedas não abrires o chiqueiro até que eu esteja lá
contigo.
- Com toda boa vontade eu o farei.
XIV. A águia no carvalho
Eles foram descansar naquela noite. Tão logo o guardador de porcos viu a luz
do dia foi despertar Gwydion. Este se levantou e vestiu-se, indo com o
guardador até o chiqueiro, onde permaneceu. o porqueiro então abriu o
chiqueiro. No mesmo momento, a porca saltou para fora e partiu com grande
velocidade. Gwydion seguiu-a e ela foi em direção contrária ao curso do rio,
dirigindo-se para um riacho que é agora chamado Nant y Llew. Ali ela parou e
começou a alimentar-se. Gwydion chegou embaixo da árvore e olhou para
descobrir o que a porca poderia estar comendo. Ele viu que ela estava
comendo carne podre e vermes. Olhando então para o topo da árvore, ele viu
uma águia e, quando a águia se balançava, a carne estragada e os vermes
caíam dela e a porca devorava-os. Pareceu a Gwydion que a águia poderia ser
Llew. Ele cantou uma estrofe:
"Carvalho que cresces entre dois bancos de rio:
escurecidos estão o céu e a colina!
Não direi por sua feridas
que este é Llew?"
Depois disso, a águia desceu até alcançar o centro da árvore. E Gwydion
cantou outra estrofe:
"Carvalho que cresces no chão do planalto,
não estás ainda molhado? Não ficaste encharcado
por nove vintenas de tempestades?
Não acolhes em teus ramos Llew Llaw Gyffes?"
A águia desceu então ao mais baixo ramo da árvore. Gwydion cantou logo esta
estrofe:
"Carvalho que cresces abaixo da colina íngreme:
imponente e majestoso é teu aspecto!
Não o direi eu?
Que Llew virá para meu colo?"
A águia desceu para os joelhos de Gwydion e este a tocou com sua vara
mágica. Ele assim retornou à sua própria forma. Jamais viu alguém uma visão
tão digna de pena, pois Llew era apenas pele e ossos.
XV. Cura e vingança de Llew Llaw Gyffes
Ele foi então para Caer Dathyl e foram-lhe trazidos os bons médicos que
havia em Gwynedd. Antes do fim do ano ele já estava quase curado.
- Senhor - disse ele a Math, o filho de Mathonwy -, já é chegado o tempo de
que eu receba uma compensação daquele que me fez passar por todas essas
aflições.
- É verdade - respondeu o rei . - Ele jamais será capaz de manter-se na
posse do que é teu por direito.
- Bem, quanto antes eu recobrar meus direitos, mais satisfeito ficarei.
Eles então convocaram e reuniram todo o Gwynedd e partiram para Ardudwy.
Gwydion foi à frente e seguiu para Mur y Castell. Quando Blodeuwedd ouviu
que ele estava chegando, tomou suas donzelas e fugiu para a montanha. Elas
passaram pelo rio Cynfael e foram em direção a um abrigo que havia na
montanha. Seu medo era tanto que corriam sempre com os rostos voltados para
trás. Desavisadas, não viram o lago e caíram dentro dele.
Todas elas se afogaram, exceto a própria Blodeuwedd. Gwydion prendeu-a.
Disse-lhe então:
- Não te matarei. O que farei contigo é pior do que isso. Pois irei
transformar-te em um pássaro e, pela vergonha que lançaste sobre Llew Llaw
Gyffes, de agora em diante jamais tornarás a mostrar tua face à luz do sol e
isso por medo dos outros pássaros. Será da natureza deles atacar-te e
perseguir-te onde quer que te encontrem. Não perderás teu nome, mas serás
sempre chamada Blodeuwedd.
Eis que Blodeuwedd, na linguagem desta época, é uma coruja e por esse motivo
a coruja é odiosa a todos os pássaros. E ainda agora a coruja é chamada
Blodeuwedd.
Goronwy Pebyr retirou-se então para Penllyn, de onde enviou uma embaixada.
Os mensageiros que ele mandou perguntaram a Llew Llaw Gyffes se este
aceitaria terras, um domínio, ouro ou prata pelo dano que havia recebido.
- Não aceitarei coisa alguma, pela minha fé no Céu! - ele exclamou. - Vede
que isto é a única coisa que aceitarei dele: que ele vá ao ponto em que eu
estava quando ele me feriu com o dardo e eu ficarei no lugar onde ele estava
e com um dardo irei mirar nele. E isso é o mínimo que aceitarei.
E essas palavras foram ditas a Goronwy Pebyr.
- Realmente - ele disse -, isso é necessário para mim? Meus fiéis
guerreiros, todos os de minha casa e meus irmãos adotivos, não há nenhum
dentre vós que suporte o golpe em meu lugar?
- Verdadeiramente não há - responderam eles.
Em razão da recusa de sofrerem um golpe por seu senhor, eles são chamados
até este dia "a terceira tribo desleal".
- Bem - falou Goronwy -, irei ao seu encontro.
Os dois foram então para os bancos do rio Cynfael. Goronwy parou no lugar em
que Llew Llaw Gyffes estava quando ele o golpeou, enquanto Llew ficou no
lugar onde Goronwy estava. E Goronwy Pebyr disse-lhe:
- uma vez que foi pelos ardis de uma mulher que vos fiz o que fiz,
conjuro-vos em nome do Céu a deixar-me colocar entre mim e o golpe a pedra
que vedes lá adiante, no banco do rio.
- Na verdade - disse Llew -, não o recusarei a vós.
- Possa o Céu recompensar-vos.
Llew então arremessou o dardo contra ele. O dardo perfurou a pedra e
atravessou Goronwy igualmente, indo sair em suas costas. Assim Goronwy Pebyr
foi morto. A pedra existe ainda no banco do rio Cynfael, em Ardudwy, tendo
em si o buraco. Portanto, é ainda hoje chamada Llech Goronwy.
Uma segunda vez Llew Llaw Gyffes tomou posse da terra e governou-a
prosperamente. E, como a história conta, ele foi depois disso o senhor de
Gwynedd.
E assim termina esta parte do Mabinogi.
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