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Os Contos do Mabinogion

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Os Contos do Mabinogion

(a tradução do Mabibogion publicada em nosso site foi gentilmente cedida pelo druida Bellovessos - bellovesos@hotmail.com)

Lludd e Llefelys

Beli, o Grande, o filho de Manogan, tinha três filhos, Lludd e Caswallawn e Nynyaw; e, de acordo com a história, ele tinha um quarto filho chamado Llefelys. E depois da morte de Beli, o reino da Ilha da Britânia veio às mãos de Lludd, seu filho mais velho; e Lludd governou prosperamente e reconstruiu as muralhas de Londres e cercou-a com inumeráveis torres. E depois disso ele convidou os cidadãos a construírem casas ali dentro, tais que quaisquer outras casas no reino não pudessem igualar. E além disso ele era um poderoso guerreiro e generoso e liberal em dar carne e bebida a todos que os solicitassem. E embora ele possuísse muitos castelos e cidades, amava a esta mais do que a qualquer outra. E ele morava lá durante a maior parte do ano e assim foi ela chamada Caer Lludd e, por fim, Caer London. E depois que a raça dos estrangeiros lá chegou, ela foi chamada London ou Lwndrys.

Lludd amava Llefelys mais do que a todos os seus irmãos, pois ele era um homem sábio e prudente. Tendo ouvido que o rei da França morrera sem deixar herdeiro a não ser uma filha e que ele deixara todas as suas posses nas mãos dela, ele foi a Lludd, seu irmão, para pedir seu conselho e ajuda. E isso
não tanto por seu próprio bem-estar, como também para aumentar a glória e a dignidade de sua família, caso ele pudesse ir à França cortejar a donzela para fazê-la sua esposa. E imediatamente seu irmão concordou com ele e esse conselho foi-lhe agradável.

Assim, ele preparou navios e encheu-os com cavaleiros armados e partiu rumo à França. E taõ logo desembarcou, ele enviou mensageiros para mostrarem aos nobres da França a razão da embaixada. E pela concordância unânime dos nobres da França e dos príncipes, a donzela foi dada a Llefelys e com ela a coroa do reino. Desde então ele governou o país com prudência e sabedoria e venturosamente, durante todo o tempo em que durou sua vida.

Depois de passar-se um certo tempo, três pragas caíram sobre a Ilha da Britânia, tais que jamais alguém nas ilhas vira semelhantes. A primeira foi uma certa raça que surgiu e foi chamada Coranianos; e tão grande era sua sabedoria que não havia conversa em toda a Ilha, ainda que falada o mais baixo possível que, se o vento a encontrasse, não se tornasse conhecida por eles. E, por esse motivo, eles não podiam ser feridos. E toda sua moeda era dinheiro de fadas.

A segunda praga era um guincho que chegava em cada Véspera de Maio a todo lar na Ilha da Britânia. E isso atravessava os corações das pessoas e tanto as fazia murchar que os homens perdiam sua cor e sua força e as mulheres, seus filhos e os rapazes e as moças perdiam os sentidos e todos os animais e árvores e a terra e as águas ficavam estéreis.

A terceira praga era que, por maior que fosse a quantidade de provisões e comida preparadas nos palácios do rei, ainda que lá houvesse provisões de carne e bebida suficientes para um ano, nada disso jamais podia ser encontrado, senão o que era consumido na primeira noite. E de duas dessas pragas jamais alguém soube sua causa; portanto, havia mais esperança de libertarem-se da primeira que da segunda e da terceira.

E por esse motivo o Rei Lludd sentiu grande tristeza e preocupação, porque ele não sabia como libertar-se dessas pragas. E ele chamou a si todos os nobres do seu reino e pediu-lhes conselho sobre o que poderiam fazer contra tais aflições. E por deliberação comum dos nobres, Lludd, o filho de Beli, foi a Llefelys, seu irmão, rei da França, pois ele era um homem de grande prudência e sabedoria, para buscar seu conselho.

E prontamente fizeram uma frota e isso em segredo e silêncio, com medo de que aquela raça soubesse o motivo de sua missão, ou qualquer um além do rei e de seus conselheiros. E quando estavam prontos eles entraram em seus navios, Lludd e com ele todos aqueles a quem ele escolhera. E eles começaram a cortar os mares em direção à França.

E quando essas novas chegaram a Llefelys, considerando-se que ele não sabia a causa de estarem ali os navios de seu irmão, ele veio pelo outro lado para encontrá-lo e uma frota de vasto tamanho estava com ele. E quando Lludd viu isso, deixou todos os seus navios ao largo, no mar, exceto por um somente; e nesse ele chegou para encontrar seu irmão e este veio do mesmo modo, com um só navio para encontrá-lo. E quando eles se reuniram, cada um pôs os braços ao redor do pescoço do outro e deram as boas-vindas um ao outro com amor e fraternidade.

Depois que Lludd mostrara a seu irmão a causa de sua missão, Llefelys disse que ele próprio sabia a razão da chegada àquelas terras. E eles deliberaram juntos para conversarem a esse respeito de outra forma que não essa,a fim de que o vento não pudesse apanhar suas palavras, nem os Coranianos saber o que eles pudessem dizer. Então Llefelys ordenou que uma longa trompa fosse feita de latão e, através dessa trompa, eles conversaram. Mas, quaisquer que fossem as palavras que eles falassem um ao outro através dessa trompa, nenhum deles nada podia ouvir senão palavras cruéis e hostis. E quando Llefelys viu isso e que havia um demônio impedindo-os e perturbando-os por meio dessa trompa, ele mandou que vinho fosse posto ali dentro para lavá-la. E pela virtude do vinho o demônio foi expulso da trompa. E quando não havia mais estorvo para sua conversa, Llefelys disse a seu irmão que lhe daria alguns insetos, dos quais alguns ele deveria guardar para procriar, caso a mesma aflição pudesse retornar uma segunda vez. E outros desses insetos ele deveria tomar e cozinhar na água. E ele assegurou-lhe que teriam poder para destruir a raça dos Coranianos. Quer dizer, quando ele voltasse para casa no seu reino, deveria convocar todo o povo, tanto os de sua própria raça quanto os Coranianos, para uma reunião, como se tivesseo intento de fazer a paz entre eles; e quando estivessem todos juntos, ele deveria tomar essa água encantada e jogá-la sobre todos igualmente. E assegurou-lhe que a água envenenaria a raça dos Coranianos, mas não mataria ou feriria os de sua própria raça.

- E a segunda praga - ele disse - que está em teu domínio, vê que é um dragão. E um outro dragão de uma raça estrangeira está lutando e esforçando-se muito para sobrepujá-lo. E o teu dragão, por isso, lança um bramido temível. E seria sensato que soubesses disso. Depois que tiveres voltado para casa, ordena que a Ilha seja medida em seu comprimento e largura e no lugar onde encontrares o exato ponto central, lá ordena que seja escavado um buraco e que um caldeirão cheio do melhor hidromel que possa ser feito seja colocado dentro do buraco, com uma cobertura de cetim na boca do caldeirão. E então fica,em pessoa, vigiando ali e verás os dragões lutando na forma de animais terríficos. E eles, por fim, tomarão no ar a forma de dragões. E depois disso tudo, após estarem fatigados da luta feroz e furiosa, sob a forma de dois porcos ele cairão na cobertura e afundarão e com eles a cobertura e eles descerão até o fundo do caldeirão. E eles beberão todo o hidromel e dormirão depois disso. Imediatamente, então,
enrola a cobertura ao redor deles e enterra-os num sepulcro no mais seguro lugar que tiveres em teus domínios. E enquanto eles permanecerem nesse local seguro, praga alguma virá para a Ilha da Britânia, seja de onde for.

- A causa da terceira praga - disse ele - é um poderoso homem de magia que toma tua carne e tua bebida e teu suprimento. E por meio de ilusões e encantamentos ele leva todos a dormir. Por conseguinte, é necessário para ti observares pessoalmente tua comida e tuas provisões. E para que ele não te sobrepuje com o sono, que haja ao teu lado um caldeirão de água fria e, quando ficares oprimido pelo sono, lança-te no caldeirão.

Então Lludd retornou a sua terra. E ele imediatamente convocou a si todos os de sua própria raça e os Coranianos. E como Llefelys lhe ensinara ele cozinhou os insetos na água, a qual lançou sobre todos eles juntamente e, de imediato, destruiu a tribo inteira dos Coranianos sem ferir qualquer dos Britanos.

E pouco tempo depois disso Lludd ordenou que a Ilha fosse medida em seu comprimento e em sua largura. E o ponto central ele encontrou em Oxford e nesse lugar ordenou que a terra fosse escavada e nesse buraco um caldeirão fosse colocado, cheio do melhor hidromel que pudesse ser feito, e uma cobertura de cetim sobre sua boca. E ele próprio observou naquela noite. E enquanto ele estava lá, viu os dragões lutando. E quando eles ficaram fatigados, vieram abaixo e caíram na cobertura e arrastaram-na consigo para o fundo do caldeirão. E quando já haviam bebido o hidromel, eles adormeceram. E durante o seu sono, Lludd enrolou a cobertura ao redor deles e, no mais seguro lugar que possuía em Snowdon ele ocultou-os num sepulcro. Depois disso, esse ponto passou a ser chamado Dinas Emreis, mas antes disso
era Dinas Ffaraon. E assim cessou o feroz grito em seus domínios.

E quando isso havia terminado, o Rei Lludd ordenou que um banquete muitíssimo grande fosse preparado. E quando estava pronto, ele colocou um vaso de água fria ao seu lado e ele, em pessoa, ficou vigiando. E enquanto ele, coberto com armas, assim esperava, por volta da terceira vigília da noite - veja só! -, ele escutou muitas fascinações sobrenaturais e várias canções. E a sonolência impelia-o a dormir. Por isso, para não ser impedido em seu propósito e vencido pelo sono, ele foi muitas vezes até a água. E por fim um homem de grande tamanho, coberto por uma forte e pesada armadura, entrou carregando um cesto grande. E conforme habituado, pôs toda a comida e as provisões de carne e bebida dentro do cesto e adiantou-se para sair. E nada jamais foi tão maravilhoso para Lludd do que o cesto poder agüentar tanto.

E em seguida Lludd foi atrás dele e falou-lhe assim:

- Pára, pára! - ele disse. - Embora anteriormente tenhas feito muitos insultos e muito roubo, não agirás mais assim, a menos que tua habilidade nas armas e tua bravura sejam maiores do que as minhas.

Então, no mesmo instante, ele colocou o cesto no chão e esperou pelo outro. E um feroz combate ocorreu entre eles, tanto que o cintilante fogo refulgiu em suas armas. E no fim Lludd atracou-se com ele e o destino entregou a vitória a Lludd. E ele arremessou a praga para a terra. E depois que o dominara pela força e poder, ele implorou sua misericórdia.

- Como posse eu conceder-te mercê - disse o rei - depois de todas as muitas
injúrias e erros que me fizeste?

- Por todas as perdas que jamais te causei - disse ele - dar-te-ei compensação igual ao que tomei. E para o futuro jamais tornarei a fazê-lo, mas serei teu fiel vassalo. E isso o rei aceitou da parte dele.

E assim Lludd libertou a Ilha da Britânia das três pragas. E desde então até o fim de sua vida, com uma próspera paz Lludd, o filho de Beli, governou a Ilha da Britânia.

E este conto é chamado "A História de Lludd e Llefelys".

E assim ele termina.


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