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Pindorama Revisitada

Um olhar neopagão sobre as sociedades Pré-Cabralinas

Recentemente uma descoberta de três crânios humanos: dois de adultos e uma criança, na Etiópia – África, confirmou ainda mais a hipótese de que o gênero Homo Sapiens teve sua origem no continente africano.

A datação do material indicou tratar-se de ossos de 160.000 mil anos antes do presente. Esta cronologia é importante pois aponta para a especificidade dos Sapiens, como sendo um ramo particular do processo evolutivo, diferente dos outros gêneros humanóides.

O que nos chama a atenção é que estes antigos humanos já possuíam uma linguagem simbólica expressa no contexto arqueológico dos sítios encontrados. Trata-se do cuidado especial dado ao enterramento secundário (1) de seus familiares.

Esta evidência funerária tem levado os especialistas a inferir que um possível culto aos antepassados e aos ancestrais seria uma das formas de expressão religiosa mais antiga da humanidade.

Mas qual seria a importância destas descobertas que nos parecem tão antigas e distantes? Se um dos importantes objetivos do movimento neopagão é resgatar uma espiritualidade ecológica, e dentro desta perspectiva a valorização dos antepassados, conhecer os fundamentos espirituais mais antigos do ser humano é um elemento fundamental às tradições que se dizem ligadas à Terra.

Vemos, então, que é de fundamental importância para o movimento cultural pagão em Terra Brasilis ou em Terra do Pindorama (2), especialmente na sua especificidade neodruida, conhecer e aprofundar efetiva e afetivamente as ricas Tradições de nossa Terra; e nos caracterizando como um movimento que busca sua identidade.

Conhecer para aprender, aprender para viver, viver para amar, a riqueza dos caminhos que nos apontam à necessidade de jamais perder o contato com esta realidade maior que nos envolve e que sustenta toda a existência, que romanticamente chamamos de Natureza.

Desta forma, propomos uma série de reflexões, sistematizadas didaticamente, sobre a diversidade cultural e a riqueza espiritual de nossos antepassados anterior à colonização.

Essas reflexões se dividem em duas partes:

1- Conhecimento acadêmico, a partir das últimas pesquisas sobre o assunto.
2- Possibilidades de experiência mágico-religiosa a partir da riqueza de nossa ancestralidade.

Esperamos, desta maneira, contribuir para a ampliação de nossa reflexão neopagã, no contexto da dinâmica cotidiana de nossa vida, como homens e mulheres do século XXI, cuja matriz de inspiração pode ser encontrada, além de nossas raízes druídicas tradicionais, mas também, nas ricas sabedorias dos Povos de nossa Terra, dos Povos de Pindorama.

Eu Sou o Basalto Negro... lembrança ancestral do caldeirão antigo do Planalto
Central.
Eu Sou a Preguiça Gigante... espírito sábio de paciência e perseverança.
Eu Sou o Tigre de Dente de Sabre... dinamismo transformador dos ciclos da
vida.
Eu sou o cume sem neve do Pico da Neblina... cujo olhar descança sobre o
tapete verde equatorial.
Eu sou a força andarilha das águas profundas e claras... veias de vida da
Terra Brasilis.
Eu sou a diversidade fervilhante das Atlânticas Matas... caldeirão de mil
nomes e mil existências.
Eu sou o balançar suave dos Capins Mimosos... Peles multicoloridas dos corpos
dos cerrados.
Eu sou o amarelo e o negro... dos ouros, das onças, dos micos e dos ipês.
Eu sou o canto misterioso que silencia todas as vozes... o Espírito do
Irapuru.
Eu sou os ventos dos quatros quadrantes que trazem os Espíritos... da Seca e
das Chuvas.
Eu sou a Inspiração de cultura... de caçadores, coletores, plantadores,
ceramistas, povos ancestrais, natureza da terra.
Eu sou a Plumária poética... penas das aves e penas de homens.
Eu sou o vôo veloz e certeiro... do Carcará do Brasil.
Eu sou a pequena semente... levada pelo vento que produz a Peroba Rosa e O
Jequitibá Rei.
Eu sou o pequeno cascalho... rolado e polido que reflete o brilho de todas as
pedras.
Eu sou abundância láasciva dos doces da terra... Articum, jaboticaba, Pitomba,
Cajú, Mel de Assa-peixe, Gabiroba.
Eu sou corredeira de vida... Piracemas, Lambaris, Dourados Saltantes,
Cascudos das profundidades.
Eu sou o filho de Antigas, Sábias de longo Tempo... nascidas nos Sapucaís:
Mãe de Muitos Figueira Branca.
Eu sou a Terra Antiga e Nova... Alegre e Sofrida... de Perfumes e Sonhos:
Pindorama Amada!
Eu sou Um com Todos e Todos com Um...
Que e o Espírito Fluidor faça memória de minha Natureza na Natureza da Terra
Brasilis!

1 Enterramento secundário é processo ritual e funerário de sepultamento realizado após o corpo se transformar em ossada. Para que isto se verifique, há vários processos: natural, o que leva anos; ou artificial. Seja qual for o processo, sinaliza um alto grau de sofisticação de cultura funerária e a importância que os familiares e ancestrais possuíam nestas sociedades.
2 Pindorama é um nome dado pelas tradições tupi-guarani à diversidade ecológica encontrada no Brasil.

Marcelo Cuchulainn
creator@usp.br

 


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